22 julho, 2015

OS RAPAZES DA CALÇADA



Sentado na esplanada no silencioso entardecer mergulhada
entre a fumegante chávena de café e as páginas do jornal
entretenho-me a observá-los... subindo e descendo a calçada
– com passadas tão vigorosas quanto eles próprios: os rapazes
Algo a despropósito (vindo de nenhures)... insinuam-se
os versos musicados de Ary dos Santos – excelente!
Mas o Sol implacável obriga a isso mesmo: a deixar-se estar...
a não fazer nada... ficar a ver a Cidade passar – e os rapazes
que (nestas fastidiosas alturas) interessam bem mais
do que as inenarráveis manchetes sensacionalistas
ou a última discussão no Parlamento

Indiferentes a tudo ao seu redor
os rapazes limitam-se a caminhar... sozinhos ou acompanhados
compondo uma inesgotável sucessão de quadros impressionistas
– curioso o contraste entre o colorido das suas tácitas presenças
e a solenidade sombria e austera do cenário construído
pelas fachadas seculares da calçada

Observo-lhes (admiro!) o imponente tronco maciço
braços fortes, pescoço largo, ombros enormes, cintura minúscula
A postura deles revela-se mais do que irreverente...
pouco menos do que arrogante... digamos que empertigada
Ainda para mais, mascam (ininterruptamente) a pastilha elástica
comprada ritualmente na tabacaria de sempre
Alguns usam brinco, os mais conservadores têm barba discreta
Se não trazem bonés apresentam cabelos louros ou negros
espessos, abundantes, encharcados de gel
ou então rapados... à boa maneira militar
o que tem a vantagem de lhes sublinhar os contornos firmes
dos rostos varonis de vinte e poucos anos de idade

À custa de uma imperceptível conversa ao telemóvel
lá se consegue – excepcionalmente – vislumbrar um sorriso
escancarado, esporádico, forçado
Quanto aos olhos ocultados por detrás dos óculos escuros
imagino que sejam castanhos, enormes, luminosos
– é indiferente se forem rasgados ou amendoados

Ora vestem calças largas ora ficam-se pelos calções e sandálias
Outros ainda, preferem um frequente modelo compromissório
pouco abaixo dos joelhos – e de novo as benditas sandálias!
Trazem camisas (geralmente de xadrez) de mangas arregaçadas
ou t-shirts de todas as cores e padrões possíveis e imaginários
E nas mãos... molhos de cadernos, um livro ou o jornal da bola

Para onde se dirigem? Provavelmente para as suas famílias
para os empregos, para a escola, para os ensaios, para o ginásio
– ou para outras inutilidades e perdas de tempo quaisquer

Ressalta de toda esta (terna) observação a sua alienidade:

desconhecem-se a eles próprios
desconhecem este poema
desconhecem os magníficos instantes

e o verdadeiro turbilhão de sentimentos que acalentam


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in «Som de Poetas», páginas 193-194
Papel D'Arroz Editora, Junho 2015

6 comentários:

  1. Ah.. surpresa, meu amigo! Já li na sua página e também já comentei por lá. Já encomendei o livro.. Mas deixe-me que lhe diga que este mimo na minha página, me honra e portanto repito o meu comentário. Gostei de lê-lo. Senti-me nessa esplanada, bebendo esse café. Apenas um escritor tem essa capacidade de nos transportar com ele, como se estivéssemos ao seu lado. Depois o Isidro escreve fácil, no sentido em que sabe bem lê-lo, fá-lo com princípio, meio e fim, sem erros. Obrigada.

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  2. Bom dia Isidro. Gostei do que li. Sabe porquê? porque me senti nessa esplanada, desfrutando também um café. Apenas um escritor nos permite ter essa sensação.

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  3. Bonito poema, parabéns. Os rapazes são lindos modelos da espécie humana.

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  4. Realmente náo é o que se descreve ...mas sim como se escreve.Gosto desta forma de escrever sem arbustos e moitas literarias e outras coisas desnecessarias que só aborrecem a quem le - gosto de tudo descrito de forma segura ligeira e limpa ...assim tipo "a coisa como ele é " PARABENS Isidro abraco JP

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  5. Parabens Isidro! Maravilhoso poema e imagem... uau

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