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Sentado
na esplanada no silencioso entardecer mergulhada
entre
a fumegante chávena de café e as páginas do jornal
entretenho-me
a observá-los... subindo e descendo a calçada
– com
passadas tão vigorosas quanto eles próprios: os rapazes
Algo
a despropósito (vindo de nenhures)... insinuam-se
os versos musicados de Ary dos Santos – excelente!
Mas
o Sol implacável obriga a isso mesmo: a deixar-se estar...
a não
fazer nada... ficar a ver a Cidade passar – e os rapazes
que (nestas
fastidiosas alturas) interessam bem mais
do que as inenarráveis manchetes sensacionalistas
ou a última discussão no Parlamento
Indiferentes
a tudo ao seu redor
os
rapazes limitam-se a caminhar... sozinhos ou acompanhados
compondo
uma inesgotável sucessão de quadros impressionistas
– curioso
o contraste entre o colorido das suas tácitas presenças
e a
solenidade sombria e austera do cenário construído
pelas fachadas seculares da calçada
Observo-lhes
(admiro!) o imponente tronco maciço
braços
fortes, pescoço largo, ombros enormes, cintura minúscula
A
postura deles revela-se mais do que irreverente...
pouco
menos do que arrogante... digamos que empertigada
Ainda
para mais, mascam (ininterruptamente) a pastilha elástica
comprada ritualmente na tabacaria de sempre
Alguns
usam brinco, os mais conservadores têm barba discreta
Se
não trazem bonés apresentam cabelos louros ou negros
espessos, abundantes, encharcados de gel
ou então
rapados... à boa maneira militar
o
que tem a vantagem de lhes sublinhar os contornos firmes
dos rostos varonis de vinte e poucos anos de idade
À
custa de uma imperceptível conversa ao telemóvel
lá
se consegue – excepcionalmente – vislumbrar um sorriso
escancarado, esporádico, forçado
Quanto
aos olhos ocultados por detrás dos óculos escuros
imagino
que sejam castanhos, enormes, luminosos
– é indiferente se forem rasgados ou amendoados
Ora
vestem calças largas ora ficam-se pelos calções e sandálias
Outros
ainda, preferem um frequente modelo compromissório
pouco
abaixo dos joelhos – e de novo as benditas
sandálias!
Trazem
camisas (geralmente de xadrez) de mangas arregaçadas
ou t-shirts de todas as cores e padrões
possíveis e imaginários
E nas
mãos... molhos de cadernos, um livro ou o jornal da bola
Para
onde se dirigem? Provavelmente para as suas famílias
para
os empregos, para a escola, para os ensaios, para o ginásio
– ou
para outras inutilidades e perdas de tempo quaisquer
Ressalta
de toda esta (terna) observação a sua alienidade:
desconhecem-se a eles próprios
desconhecem este poema
desconhecem os magníficos instantes
e o
verdadeiro turbilhão de sentimentos que acalentam
---
in «Som de Poetas», páginas 193-194
Papel D'Arroz Editora, Junho 2015
Ah.. surpresa, meu amigo! Já li na sua página e também já comentei por lá. Já encomendei o livro.. Mas deixe-me que lhe diga que este mimo na minha página, me honra e portanto repito o meu comentário. Gostei de lê-lo. Senti-me nessa esplanada, bebendo esse café. Apenas um escritor tem essa capacidade de nos transportar com ele, como se estivéssemos ao seu lado. Depois o Isidro escreve fácil, no sentido em que sabe bem lê-lo, fá-lo com princípio, meio e fim, sem erros. Obrigada.
ResponderEliminarBom dia Isidro. Gostei do que li. Sabe porquê? porque me senti nessa esplanada, desfrutando também um café. Apenas um escritor nos permite ter essa sensação.
ResponderEliminarBonito poema, parabéns. Os rapazes são lindos modelos da espécie humana.
ResponderEliminarRealmente náo é o que se descreve ...mas sim como se escreve.Gosto desta forma de escrever sem arbustos e moitas literarias e outras coisas desnecessarias que só aborrecem a quem le - gosto de tudo descrito de forma segura ligeira e limpa ...assim tipo "a coisa como ele é " PARABENS Isidro abraco JP
ResponderEliminarGostei, parabéns.
ResponderEliminarParabens Isidro! Maravilhoso poema e imagem... uau
ResponderEliminarMuitos parabéns tanto pela descrição dos rspazes,como me sentir dentro do texto visualizando cada pormenor. Nem todis conseguem passar o qye escrevem de maneira o leitor se sentir entrar,apreciar e sentir cada momento, Adorei
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