A tarde mais sombria
de Vila Rica, desde que alvorecera o Inverno, transformava-se velozmente numa
noite cerrada. As luzes precárias que surgiam melindrosas nos postes de
iluminação despontavam penumbras subversivas no cemitério. O ambiente tranquilo,
porém algo fantasmagórico, do anoitecer era cercado por monumentos pomposos,
cedros majestosos e imensas cruzes de bronze, pedra, madeira e latão. Árvores inquietas
sussurravam ao sabor do vento manhoso, portinholas de jazigos jactanciosos
rangiam, uma brancura estonteante de neve matizava o solo sagrado e escorriam,
lentamente, gotas de sangue sobre uma campa menos ostensiva. O frio glacial rachava
dedos e lábios, queimava a pele de qualquer ser humano. Envolvido pela pálida
luminescência daquela necrópole, Matias sentia que o ar cortante lhe invadia os
pulmões com uma certa gentileza. Contemplava aquele túmulo há um ror de horas, cheio
de tristeza na alma, a entorpecida mente juvenil improvisando os derradeiros
versos...
Noites frias sem luar
Meus olhos tristes sem luz
Procuravam o teu olhar
Encontraram uma cruz
A inscrição na
lápide diante dele identificava um nome feminino: Helena Reis. Oh, minha querida, meu amor... parece que foi
ontem que passeámos na Mourisca e estás aqui há quase um ano, balbuciou em
pensamentos. As lâmpadas já piscavam, projectando sombras de grades levemente enferrujadas
sobre os túmulos, tornando-os como listras de zebras. Flocos de neve dançavam à
volta do adolescente franzino e junto ao sangue que lhe resvalava vagarosamente
dos pulsos sobre a lousa de mármore. Dos seus olhos outrora radiantes gotejavam
lágrimas borbulhantes que se cristalizavam antes de atingirem a superfície gelada
do túmulo. Sentado na laje sepulcral, Matias deslizava novamente a navalha nos
pulsos pois o sangue parecia-lhe verter tão preguiçoso e aparentemente os
cortes fechavam-se rápido.
A nevasca intensificava,
invadia todos os espaços do recinto fúnebre, silencioso, algo assombroso; o
rapaz soluçava desalmado. Embora a baixa temperatura exigisse agasalhos
resistentes, trazia somente o blusão de ganga sobre a camisola; ignorou a samarra
quentinha porque... Morrerei hoje mesmo,
de frio ou de hemorragia, decretara antes de largar o Dragão na estrada. O
brilho apagado dos olhos doentios desmanchava-se em ininterruptas lágrimas de
fel que lhe esfregavam as faces. A essa hora, os pais deviam andar aflitos à
sua procura, ele não se importava. O telemóvel tornou a incomodá-lo; lançou-o contra
um mausoléu rústico e ouviu um pio de coruja vindo da parte arborizada por
ciprestes. Julgava que estivesse sozinho no cemitério e aquele pio agoirento assustaria
qualquer pessoa... menos Matias. Temer as sombras nocturnas e os seus agentes
sonoros nunca fizera parte dos seus verdadeiros temores.
Já
tinha os braços dormentes, o rosto horrivelmente pálido: a pele clarinha apresentava-se
diáfana e os lábios mais alvos do que a neve contraíam-se, porém, o organismo
não se incomodava com a atmosfera negativa. Embora tremesse de frio, Matias não
o sentia. Debaixo daquele semblante constrito já não havia amor, calor, paixão
ou qualquer outro nobre sentimento; só tristeza, amargura, desalento. Sentia
somente o desapego a qualquer coisa que não fosse Helena, por isso rumara àquele
local mórbido, onde jazia a sua amada, que jamais olvidara. Tentou gritar à ave
de rapina:
— Coruja
resmungona! Vais ficar aí empoleirada a vigiar-me? Chispa daqui! Desaparece...
Não
obstante o vento assobiar mais forte do que uma trombeta, os mudos flocos de
neve soavam-lhe aos ouvidos como notas musicais. Deitou-se na tumba... seriam os
seus últimos instantes de vida. O pio da coruja parecia-lhe agora tenebroso, o corpo
letárgico esticado sobre o túmulo já não reclamava do frio e os olhos semicerrados
viam nuvens espectrais a passarem sob um céu negro que ofuscava estrelas refulgentes.
A neve derretia-lhe na boca, a língua lambera alguns flocos, os cabelos desgrenhados
aninhavam uma porção de brancura singela. Matias notaria as calças molhadas se
não se sentisse numa modorra. O casaco não demorou a ficar ensopado e ele
esmorecia... deixava-se sucumbir sob a neve.
De
repente, silêncio total. A coruja não tornou a piar, a ventania deixou de relinchar,
os farrapos de neve evaporaram. O céu imenso foi engolido pelo nada. O nada era
maior do que tudo e fez-se presente como nunca. O frio cortante sumiu, a noite esgueirava-se.
Tudo tragado pelo sono. E que sono!
Nessa
tarde invernosa, diversas pessoas que visitaram o cemitério testemunharam a
mesma cena: um rapaz bem novinho, não teria mais de quinze ou dezasseis anos de
idade, ficara sentado à beira de uma campa, a chorar durante horas, em total
desânimo; anoitecera e não arredava pé do cemitério. O pároco de Vila Rica, alertado
pelos populares, decidiu averiguar – queria saber quem era o miúdo, pretendia
dar-lhe palavras de consolo; talvez a sua abordagem pudesse reconfortá-lo, mitigar-lhe
o sofrimento. Atravessou o portão do cemitério,
procurou a sepultura de Helena Reis, encontrou o vulto de um corpo juvenil inanimado
sobre a campa, quase soterrado pela neve, os braços polvilhados de branco, afogados
em duas poças de sangue. Alarmado, suspirou de alívio ao verificar que o moribundo
ainda respirava. Levou-o imediatamente para o hospital. Reconhecia vagamente aquele
rosto imberbe, mas só mais tarde conseguiu identificar o seu antigo aluno de
História. Esperou que enfermeiras ou médicos lhe trouxessem notícias e passou a
noite em claro, preocupado com a vida daquele adolescente.
Decorridas
várias horas, o padre Manuel foi avisado de que o paciente despertava da
inconsciência e aproximou-se devagar. Matias achou-se naquela cama estranha, todo
entubado, os pulsos enfaixados por gazes e ligaduras. Recebia, num braço, soro fisiológico;
no outro, uma transfusão de sangue. O sacerdote indagou como se sentia...
perguntou se podiam falar. Matias olhou para ele, parecendo confuso e surpreso.
Inicialmente, tentou esquivar-se; depois, aceitou falar com o sacerdote.
—
Sim, Sr. Padre. Quero confessar-me... para morrer em paz.
— Não digas isso,
Matias — ralhou o padre Manuel, surpreendido
pelo seu desalento. — Tu ainda és jovem, tens
muito que viver. Conta-me o teu dilema... talvez eu possa ajudar-te.
— Sr. Padre, está
a ver estes olhos? — volveu Matias, apontando
os seus olhos. — Estes olhos que me fazem ver
a maldade do mundo e me guiaram à campa onde o Sr. Padre me achou... Pertencem-me,
no entanto, já fizeram parte de outro ser. Não sei se devo odiá-los... mas
sinto vontade de arrancá-los.
O bom padre não
entendeu o que Matias queria transmitir. Contudo, deslizou-lhe uma suave
carícia no rosto imberbe e ajudou-o a erguer-se da cama. Matias recostou-se no
travesseiro e o padre solicitou:
— Conta-me a tua
história, meu jovem. Desabafa as tuas angústias, explode o que te faz sofrer.
Matias inspirou
fundo, recordou... e começou a desvendar a história da sua curta existência.
***
Fora
criado na Quinta do Mocho, uma propriedade vinícola situada num vale localizado
numa das encostas da Serra Mourisca, a doze quilómetros de Vila Rica. Nas manhãs
de Primavera, os pássaros empoleirados nas árvores ainda preguiçavam e ele já madrugara;
antes de ir à escola, buscava o seu cavalo de estimação e cavalgava durante
horas. O Dragão era um Puro-Sangue Lusitano vibrante, com a pelagem castanha e
temperamento nobre, generoso, dócil e submisso. Assim que desmontava, Matias
pegava na fisga que construíra em forma de forquilha e entretinha-se a atirar
pedras aos melros, aves de plumagem preta, lustrosa, bico e anel orbital amarelos,
canto melodioso e comportamentos territoriais e agressivos nos locais de
nidificação; detestava-os porque lhe lembravam os corvos abomináveis, pássaros
agoirentos de hábitos necrófagos, portadores de maus presságios. Adorava as
andorinhas, mas também não suportava os pardais porque os achava barulhentos.
Gostava de
trepar na cerejeira e comer as cerejas dos próprios ramos, depois mergulhava
nas águas translúcidas do Rio Luzio. Todavia, não vivia só de diversões. Quando
não tinha aulas ajudava a tirar o leite das vacas, a tratar dos animais, a
apanhar as frutas das árvores e a vindimar a vinha, saboreando as uvas durante
a colheita; outras vezes, acompanhava os empregados que iam cortar tojos, carquejas
e sargaços na serra. Quando não se divertia ou trabalhava, lia poesia. Os
livros requisitados na Biblioteca Municipal de Vila Rica eram devorados sob a
sombra do majestoso cedro plantado à porta de casa. Tudo era belo e calmo. O
vento balançava roseiras e outras flores no jardim (margaridas, lírios, tulipas,
açucenas) e algumas pétalas caíam sobre o livro aberto nas suas mãos. Matias
amava a Natureza... e justamente no momento em que mais a amava desabou sobre
si a ameaça de perder a visão.
Mal os primeiros
sintomas despontaram, os pais levaram-no ao oftalmologista. No pátio do hospital
havia também árvores e pássaros. Isso compensava, de certo modo, a manhã que perdera
na Quinta do Mocho. Mas ali faltava-lhe a fisga; se a trouxesse aqueles pardais
irritantes não fariam tanto barulho. Durante a consulta, inteirou-se da sua
desgraça: poderia ficar cego! A tristeza tomou conta de si. O que faria se ficasse
invisual? Como atiraria pedras aos melros e pardais? Como montaria o Dragão? A mãe
ou o pai poderiam ler-lhe os livros de poesia, mas de que adiantaria se não
pudesse ver a própria poesia da Natureza? Esse temor assaltava-o. Após a
consulta, quis aguardar o resultado dos exames no pátio. Para não entrar em
pânico, focou a atenção nas árvores do recinto hospitalar e nos pardais. Se a
doença não fosse curada, nem os irrequietos pardais veria mais! Foi nesse
cenário de desânimo que surgiu diante de si, como que por encanto, aquela
maravilhosa adolescente de cabelos dourados e olhos azuis. Ignorou rapidamente a
sua enfermidade e a imagem da bela Helena tomou-lhe conta dos pensamentos.
— Bom dia, Matias
— arriscou a jovem com delicadeza, aproximando-se
devagarinho.
— Bom dia, Helena
— respondeu ele, sorridente, intrigado por
vê-la no hospital. — Que fazes aqui?
— Vim
com os meus pais visitar um familiar que foi operado ontem, de urgência.
Conheceram-se na
semana anterior, durante uma excursão ao Parque Arqueológico da Mourisca inserida
nas comemorações do aniversário da criação do parque. Frequentavam escolas em localidades
afastadas: ele estudava Humanidades na Escola Secundária de Vila Rica, ela
seguia a área de Ciências em Mourisca da Beira. As visitas de estudo organizadas
pelas suas escolas coincidiram no mesmo dia e encontraram-se, casualmente, num
recanto do Parque Arqueológico. Todavia, o diálogo foi breve, mal deu para se
apresentarem porque os respectivos professores logo os conduziram em rumos opostos.
— Disseste-me
que moras em... — sibilou Matias, contente com a inesperada presença de Helena.
—
Vivo em Mourisca da Beira, mas sou de Vila Rica — revelou Helena, com um
sorriso adorável. — Os meus pais são professores... a minha mãe ficou efectiva
em Mourisca da Beira e o meu pai dá aulas, todos os anos, em escolas
diferentes. Quando a minha mãe se tornou efectiva, mudámo-nos para Mourisca,
mas a nossa família vive toda em Vila Rica. E tu és mesmo de cá? Nunca te vi na
vila...
—
Porque vivo na serra... o meu pai é o dono da Quinta do Mocho. Só saio de lá
para ir à escola.
— E
que fazes aqui, no hospital? Estás doente? — quis saber Helena, de olhar sempre
angelical.
Matias revelou
que viera ao oftalmologista, todavia, não aprofundou o tema. Preferiu falar
sobre a vida campestre e a beleza da Serra Mourisca. Notava nos lindos olhos
azuis a satisfação de Helena por ouvi-lo, despertando-lhe o desejo de conhecer
a Quinta do Mocho. Conversavam animados quando o pai de Matias surgiu diante
deles. Sebastião Mota era um homem robusto de trinta e sete anos de idade, as
faces marcadas pelas agruras do campo. Matias vislumbrou preocupação no rosto maduro.
Contudo, Sebastião forçou um sorriso e o rapaz apresentou-lhe a amiga, que era filha
do professor Casimiro Reis.
— O
Casimiro está em Vila Rica? — surpreendeu-se Sebastião, olhando para a rapariga.
— Sim...
este ano foi colocado cá — confirmou Helena. — O Sr. Sebastião conhece o meu
pai?
— Se
conheço, minha filha! Somos velhos camaradas, de muitos carnavais. Estudámos e
fizemos juntos a tropa. Depois, cada um casou-se e seguiu a sua vida. — E foram
falando, Sebastião Mota perguntando pelo amigo Casimiro Reis que não via há imenso
tempo, até que, percebendo o sentimento mútuo dos belos adolescentes, lançou o
convite: —
Helena, gostarias de visitar a Quinta do Mocho?
— Oh, sim!...
Adoraria, Sr. Sebastião! Mas não sei se os
meus pais irão permitir...
— Claro que vão
permitir! — assegurou Sebastião, convicto. — Falarei com o meu amigo Casimiro e convidá-lo-ei
para conhecerem a quinta. O ar puro da serra é bom para a saúde... irá
fazer-vos bem!
Alguns dias volvidos,
sentado numa pedra sob o cedro imponente à frente de
casa, Matias compunha versos românticos dedicados a Helena. Embora a quinta se
mantivesse airosa, sentia-a apagada, parecia faltar-lhe algo... faltava alguém
cuja formosura excedia toda a beleza da Natureza. Montava e fazia o cavalo galopar
até ao rio, na estrada que seguia para Mourisca da Beira. Cavalgava na
expectativa de avistar algum veículo na direcção contrária, rumo à Quinta do
Mocho. Banhava-se na lagoa do Luzio e voltava desanimado para casa. Passou esses
dias triste, cabisbaixo, ansiando a visita de Helena. Já nem se importava com a
azáfama dos melros e dos pardais. No domingo seguinte, porém, entrando em casa ainda
mais deprimido, uma ténue esperança apossou-se-lhe do coração... O pai,
sorridente, revelou-lhe:
— O Casimiro
acabou de telefonar. A Helena e os pais virão almoçar
connosco, no próximo sábado.
Matias vibrou. A
notícia era óptima, boa demais! Mal conseguiu dormir, de tanta alegria.
Madrugou feliz, antes de os pardais chilrearem, e dirigiu-se ao estábulo, cantando versos que a mente lhe ditava:
Vem cá, Dragão, vamos (os dois) passear
Que esta quinta a minha musa virá visitar
Sentiremos o brilho das roseiras floridas
Do jardim colherei um ramo de margaridas
Enquanto a aurora sopra a brisa amena
Para oferecer à minha bela Helena
A esperança
fizera-o renascer. Quando o Sol despontou e sorriu à Natureza, ele já voava pela
quinta. Resgatado o ar de felicidade, tudo se lhe afigurava mais belo; até o cavalo
se sentia contagiado pela sua alegria. Pensamentos emotivos, não cabendo dentro
de si, disparavam-lhe da boca em rimas poéticas:
Vai, Dragão, vai galopando
Atravessa rápido este recanto
Que no teu dorso vai sonhando
Uma alma cheia de encanto
Isso, Dragão! Faz-me cavalgar
Até o frescor do Luzio nos bafejar
Que vem aí a suave Primavera
E a roseira do jardim nos espera
Conservando a sua rosa serena
Para ofertá-la à doce Helena
Força, Dragão, leva-me voando
Que a melancolia conhecerá o fim
E a beleza do campo feita açucena
Manter-se-á (para) sempre assim
Enquanto espero a minha Helena
Vá, companheiro, vamos cavalgando
Que a minha amada está chegando
E o meu coração recluso vibrando
Não tarda muito estará amando
Na manhã de
sábado, enquanto escrevia versos dedicados à amada após a cavalgada matinal, Matias
divisou ao longe uma poeira levantada pelos pneus de um automóvel que rumava à
Quinta do Mocho.
— Mãe!
Pai! A Helena
está a chegar! — gritou eufórico, correndo para casa.
— A Helena chegou!
O
coração quase lhe saltava pela boca. Bramava a sua felicidade aos pais, às
árvores, aos animais, aos grilos, ao vento, às flores, aos passarinhos. E todos
lhe devolviam «A tua Helena chegou!». A alegria de Matias aumentou quando lhe
transmitiram que Helena passaria o sábado e o domingo na sua companhia. E como
ela estava linda! Alterou
a sua rotina diária para fazer o que Helena desejasse.
Após o almoço, mostrou-lhe
tudo o que havia de belo na propriedade e os versos que lhe dedicara.
— Tu
gostas mesmo de mim ou és assim tão romântico e poético com todo o mundo? — inquiriu
Helena quando o rapaz, passando por uma roseira florida, lhe ofereceu uma rosa
vermelha.
— Leste os poemas
que escrevi nos últimos dias? — respondeu Matias, apertando-lhe
as mãos. — Não viste como demonstram a tristeza e a ansiedade que passei
depois de... reencontrar-te no hospital?
— Vi, Matias — assumiu Helena, beijando a rosa. — Eu também ansiei... conhecer esta bela quinta.
Matias levou-a ao
Dragão. Encantada, ela aprendeu a montar noutro cavalo. Passearam na quinta e o
rapaz dirigiu os animais para a Mourisca. Subindo sem pressas a encosta, entre matagais
e pinhais, Helena apreciava a paisagem que se transformava num magnífico vale
esculpido em socalcos cobertos de vinhedos que
trepavam do Luzio às cumeadas azulinas das montanhas; via solos férteis
e granitões aproveitados para a construção dos casarios, eirados e murais, uma
aguilhada de semeadura aqui, outra de fraguedo ali, outra ainda de baldio
acolá. De vez em quando, um Sol impetuoso desemboscava-se de uma nuvem parda
rechinando Céu e Terra. O vento também ajudava a esta observação, zarpando como
feitor veloso, ramalhando nas árvores, fazendo-se burburinho e desandando a
bailar com pernas mais altas do que os pinheiros. Nas baixas rebrilhavam os
granjeios; nos planaltos pétreos o mato rastiço toldava o chão e libertava adocicados
incensos. As imensas lantejoulas de tojos e as giestas sempre hirtes quando não
se derretiam em maias argênteas e amarelas mostravam uma folha multicolor.
Atravessando uma
via que se reclinava suavemente pela encosta, viram casarios numa compilação
urbanística ao jeito medievo em cujo redor combinavam árvores floridas com
lameiras de pascigo, em doces emanações de frescura enviadas pelo ribeiro que
deslizava aos seus pés, remansoso e cristalino, entre as leiras fecundas onde
cresciam hortas viçosas. À ciclópica cortina de serranias a esfumar-se no
horizonte sinuoso e ao alteroso pano de fundo, pintalgado de miríades de flocos
brancos e novelos rosados, juntava-se a fantasia alada da combinação de cores e
sons entre os fachos séptuplos do arco-íris e o álacre canto das aves. Pela
descida dos pinhais as ramas escureciam, brisas buliçosas agitavam os ramais,
quelhas enlameiradas verdejavam e luziam ribeiros cujas águas feneciam no Luzio.
Bonita e exposta aos assobios das brisas, esta povoação de quietude patriarcal
e viver provinciano era um cenário idílico que suplantava em sumptuosidade tudo
o que a mente de Helena pudesse imaginar.
Galgando a
empinada ladeira que em pronunciado declive atravessava o primitivo povoado,
Helena deparou com mais habitações rústicas. Assente no pico do monte,
erguia-se altaneira e senhoril outra aldeia, olhando das alturas o Rio Luzio
que serpenteava por entre alcantis agrestes e prados viçosos, e Matias desvendava
segredos daquela zona enquanto prosseguiam Mourisca acima. Alcançado o topo da serra,
Helena regalou-se ao vislumbrar um deslumbrante panorama mais abrangente, de
sensações indizíveis. A sucessão de socalcos, quintas e arvoredos não era monótona.
A beleza mudava de modo, da doçura à rudeza. A paisagem também, do brutal
despenhadeiro à suave colina. Os solos variavam, da terra ao calhau, do
cascalho de xisto à rocha de granito. Impressionada com a frondosa Natureza e o
colossal esforço humano que foi necessário para tornar a região fértil e
produtiva, Helena assimilou rápido que a Serra Mourisca valia pelos seus
vinhos, mas também por si própria. Aquele extenso vale, os vinhedos e as
quintas formavam uma plaga de incalculável beleza. De
clima mediterrânico, o vale era um enclave propício à cultura da vinha, da
oliveira, do castanheiro e de frutos como a cereja, o figo, o pêssego, a
laranja, a maçã, e pouco antes da Primavera o espectáculo das amendoeiras em
flor desdobrava-se pelos horizontes bucólicos. A paisagem a perder de vista era
tão heterogénea que Helena só avistava ora socalcos povoados de vinhedos, ora
vegetação espontânea e agreste enchendo todo o horizonte. Por todo o lado que
olhasse, solares, casarios, quintas e testemunhos de povos errantes e culturas
diversas marcavam de forma indelével a paisagem. Do píncaro agreste da montanha,
a jovem gravava na retina e conservava na memória a magia e o mistério de uma
região inesquecível.
— Estás
a gostar do passeio? — indagou Matias quando desmontaram, com um brilho
luminoso.
—
Estou deslumbrada — confessou Helena, uma centelha de amor a cintilar-lhe no
olhar faiscante. — Tinhas razão, Matias. A Mourisca é um verdadeiro paraíso na
Terra. Trazes-me cá mais vezes?
—
Claro que trago! Quantas vezes tu quiseres — sussurrou Matias, acercando-se do tronco
onde ela se encostara. Acariciou-lhe os cabelos sedosos, o rosto macio, os seus
lábios febris buscando a boca feminina. E ali, em plena Natureza, rodeados de
mato e pinhais, ouvindo grilos e rouxinóis, saborearam o primeiro beijo... terno,
cândido, delicado, cheio de amor. E o céu azul, claríssimo, harmonizando o belo
e o agreste ao redor desses adolescentes enamorados que renovavam os corações
de esperança.
Antes
de retornarem à Quinta do Mocho, Matias quis mostrar o seu local favorito. Montando
nos cavalos, desceram por um trilho bravio que os levou à nascente do Luzio,
num lameiro vicejante. Seguiram o córrego que se esgueirava por entre os
amieiros, ao qual se iam juntando outros regatos que aumentavam o caudal ribeirinho.
Mais à frente, o riacho despenhava-se numa cascata de águas claras que deslizavam
sobre lajes de granito, entre escarpas e arribas, desembocando numa aprazível lagoa
que reflectia a transparência da verdura circundante. Embora a exótica queda de
água ocorresse numa zona inóspita, cercada de rochas desgastadas pela erosão e carvalhos
centenários, Matias adorava refrescar-se, em dias de calor, nas águas
cristalinas desse recanto paradisíaco protegido pelas sombras da frondejante vegetação
serrana que lhe proporcionava um ambiente pitoresco e acolhedor. Helena
verificou, extasiada, que as águas límpidas jorradas pela cascata seguiam por
um vale apertado na umbrosa colina e o leito luzidio do Rio Luzio crescia a
partir da lagoa, ganhando força lá mais adiante.
—
Vamos dar um mergulho? — sugeriu o rapaz, ajudando Helena a descer do cavalo.
—
Adorava, Matias! Esta lagoa é magnífica, mas... está a ficar frio, até me sinto
arrepiada — esquivou-se Helena, com carinho. Os raios solares deixavam de se deleitar
no verde banho das folhas; o Sol extinguia-se no horizonte, o céu às riscas
esvaziava-se de cor e ao entardecer balsâmico sucedia o crepúsculo. — Começa a escurecer.
Vamos embora antes que anoiteça. Voltamos amanhã, se quiseres.
Matias
beijou-a com ardor. Tornaram a montar. Agora cavalgavam rápido. Cortavam pinhais
e outeiros, evitando que a escuridão os engolisse nas entranhas da montanha,
até arribarem à quinta.
No
dia seguinte, a apaixonada surpreendeu-o a apedrejar os melros. Vestia uma blusa
branca e calças de ganga e Matias admirou-lhe a formosura: linda! Helena surripiou-lhe a fisga e recriminou-o:
— Ontem estavas
tão poético, tão amoroso! E hoje, Matias... atiras pedras aos passarinhos?!
— Ora, Helena...
eu não atiro pedras a todos os pássaros. Só não gosto dos pardais e dos melros.
— Porquê? — replicou a jovem, desagradada. — Eles não têm uma vida como os outros pássaros?
Matias,
envergonhado, concordou. Como não concordaria com aquele anjo de candura? Por
amor a Helena, prometeu nunca mais perseguir melros e pardais. Destruiu a fisga
à machadada. No entanto, a desgraça espreitava-o por todos os ângulos; o
prenúncio da sua cegueira iminente assombrava-o. Nesse domingo sentiu a visão deficiente,
nebulosa. Embora perturbado, nada reportou, para não preocupar Helena. Desistiu
de voltar ao Rio Luzio, permanecendo com a namorada nos domínios da quinta. Após
o almoço, despediram-se. Mal ela e os pais abalaram para Mourisca da Beira, o
rapaz afundou-se nas trevas da sua solidão, suspirando de amor; escrevinhava poemas
românticos, ansiando ver outra vez a sua amada. Não obstante, a bela Helena
Reis, igualmente saudosa de Matias, não tardaria a convencer o pai a visitarem novamente
a Quinta do Mocho. E retornaram lá, no domingo de Páscoa.
Desta vez, os surpreendidos
olhos de Helena (enquanto cavalgava no meio da vinha, com Matias) achavam constantemente
uma roseira em frente às parreiras. Porque
plantam rosas junto às videiras?, perguntou, admirada com a quantidade de
roseiras floridas no vinhedo. O enigmático sorriso devolvido por Matias deixou-a
mais intrigada. Ele colheu uma rosa vermelha e explicou:
— A
vinha necessita das roseiras... como uma casa isolada deve ter um
cão feroz, de garras afiadas, atrás do portão. A roseira fareja o perigo
na vinha e protege as videiras, tal como o cão protege o dono.
— Vá
lá, Matias, não brinques — retorquiu Helena, aspirando o perfume da rosa que
ele lhe ofertou.
—
Falo sério, Helena. As roseiras não ladram, é verdade, só embelezam e perfumam
o ambiente... mas cumprem a mesma função do cão: denunciar o perigo que se
aproxima!
—
Mas como é que as roseiras fazem isso, se não falam nem ladram?
—
Porque sofrem as mesmas doenças fúngicas que atacam as parreiras. Como são
mais sensíveis e delicadas, evidenciam primeiro os sintomas, que funcionam como
sinais de alerta. Dou-te um exemplo: há um fungo que provoca o Mofo, uma
praga difícil de erradicar se não for detectada precocemente. As roseiras, por
serem mais frágeis, são atacadas mais cedo e ficam com manchas foliares. Os
produtores, ao descobrirem os efeitos do Mofo nas roseiras, anteciparão medidas
para a protecção das vinhas, aplicando tratamentos atempados para que as
videiras não sejam atingidas.
Desceram
dos cavalos. Passeavam de mãos dadas e Matias falou de outras pragas que
devastaram plantações inteiras na Europa: a Filoxera, um insecto microscópico
que suga as raízes e injecta uma substância estranha à planta que a faz
bloquear a circulação da seiva, definhar e secar – É como se a videira cometesse suicídio!; o Oídio ataca os frutos e a
parte superior das folhas, recobrindo tudo com uma camada esbranquiçada; e o Míldio,
mais virulento, fixa-se na face interna das folhas, fazendo-as apodrecer. Enquanto
desvendava o mistério das roseiras e reforçava a sua importância junto às cepas,
Matias tropeçou numa pedra e caiu. Ao levantar-se, eis a pior surpresa da sua
vida: via tudo escuro!
—
Estou cego!... Fiquei cego!... Helena, acode-me! — gritou, aflito. — Ajuda-me,
por favor...
Os
pais levaram-no logo ao hospital; o diagnóstico confirmou a ablepsia. A visão deteriorara-se
até o rapaz ficar cego. E ele sentia dores horrendas, nos olhos e na cabeça. Só
recuperaria a visão se fizesse um Transplante de Córnea. A luz (nos olhos)
entra pela córnea, uma estrutura transparente que, além de actuar como camada
protectora da parte frontal do olho, ajuda a concentrar a luz sobre a retina.
Depois de passar pela córnea, a luz entra na pupila, a zona negra que se
encontra no meio da íris; por sua vez, a íris permite que entre mais luz no
olho quando o ambiente está escuro e deixa que entre menos luz quando existe
muita luminosidade. Se há perda da transparência dessa estrutura, ocorre
prejuízo para a visão. Doenças ou lesões da córnea podem causar perda da visão,
no entanto, é possível realizar uma cirurgia que substitui a córnea afectada por
outra córnea saudável proveniente de um doador morto. Não obstante, Matias teria
de esperar que surgisse um dador para iniciar o tratamento...
Recaiu
sobre a Quinta do Mocho um véu de tristeza. A cegueira e a ausência de Helena
atiravam o pobre adolescente para uma profunda solidão. Não se sentia bem em
lugar algum. Nem o Dragão nem as poesias lhe interessavam mais. Já nada o
inspirava. Enquanto aguardava por um dador de córnea, sucumbia à depressão,
exilado no seu quarto. Que
desalento! E Helena tão longe, em Mourisca da Beira! Se ao menos lhe pudesse
ouvir a voz meiga, apertar-lhe as mãos delicadas, abraçá-la, beijá-la...
— Tens uma
visita, filho — anunciou Dona Conceição, entrando no aposento.
— Adivinha quem é.
— Nem sei, nem
quero saber — resmungou baixinho, como se a privação
da visão lhe tolhesse a fala. Nisso, ouviu aquela voz melodiosa, única,
inconfundível: Olá, Matias! O coração
disparou-lhe no peito... zarpou logo da cama. Era Helena! Só podia ser ela! Reconhecer-lhe-ia
a voz singular no meio de mil vozes. Ah!.. E que falta fazia a visão nesse instante!
Não lhe podia observar os lindos olhos azuis, o sorriso gracioso... — Helena, a tua visita deixa-me muito feliz — balbuciou, emocionado.
Falaram, namoraram
durante bastante tempo, até que Matias notou um tom estranho nas palavras da
amada. A tarde romântica finalizava, ela tinha de ir. Abraçando-o uma última
vez, Helena vaticinou:
— Quando aparecer o
dador, tornarás a enxergar. Ficarás bom, Matias. Olha,
hoje vim despedir-me. As aulas terminaram e... — Ele estremeceu. Agora que era invisual,
Helena iria repeli-lo? Deixara de o amar? Ela apertou-lhe as mãos. — Nada
disso, meu amor. Nunca deixarei de te amar. Só quero dizer que os meus pais decidiram...
ir visitar os meus tios em Paris. Viajarei com eles. Cuida-te, meu querido.
— Está
bem, minha linda. Então, boa viagem — disse Matias, largando a mão dela. — Volta
rápido!
Por fim, mal
Helena viajou, surgiu um dador falecido. Cirurgia agendada. O Transplante de
Córnea decorreu sem incidentes; o organismo de Matias não rejeitou as novas córneas.
O restabelecimento, doravante, seria moroso, demorava meses. Duas semanas após,
Casimiro Reis e a esposa visitaram-no. Matias estranhou vê-los de luto. A Helena não veio... Explicaram que retornaram
antes para o funeral dum parente, Helena ficou com os primos em Paris. Resignou-se,
porém, ouviu soluços atrás de si. Não compreendia porque chorava a sua mãe. Ficaria
Helena em Paris para sempre? Não voltaria a vê-la?
***
Os meses
sucediam-se, Helena não dava notícias, os pais dela também sumiram... Pelo
Natal, Matias cavalgava novamente na Quinta do Mocho. Os seus olhos, recuperada
a visão, reverenciavam a Natureza. Contudo, faltava-lhe o essencial: Helena! Desde
que viajara para França, ela não deu sinal de vida. Os dias corriam monótonos, sem
novidades. Se questionava por ela, Sebastião Mota reiterava:
— Naquele dia em
que se despediu de ti... ia passar férias em Paris. Ficou lá o Verão inteiro.
—
Então, regressou a Mourisca da Beira... e não quer ver-me — deduziu Matias, temeroso.
— O Sr. Casimiro também se foi de Vila Rica... nunca mais veio visitar-nos.
Porquê, pai? Vocês zangaram-se?
— Não,
filho. Este ano, o Casimiro foi colocado numa escola de Lisboa e mudaram-se
todos para lá. — Embora
essa informação pudesse ter alguma lógica, Matias não se conformava. Helena partiria
para Lisboa sem nada dizer porquê? Sebastião farejou-lhe o pensamento, avançou:
— No dia em que veio despedir-se, ainda não imaginava
que mudaria para Lisboa. Despediu-se para ir a Paris e não desejava que as suas
férias te fragilizassem. Tu estavas vulnerável, prestes a enfrentar um
transplante delicado, não podias esmorecer. Ela queria-te forte. Quando voltou
de Paris, encontrou os pais já em Lisboa...
O rapaz reconheceu
que Helena o fortalecera para vencer a batalha contra as trevas, mas não lhe entendia
o silêncio... A temperatura, em Fevereiro, baixou demasiado; passou as férias
do Carnaval no quarto, exprimindo angústias em poesia. Na escola, colegas invejosos
já o haviam atiçado, insinuando que Helena o trocara por outro. Não obstante descartar
essa possibilidade, o longo sumiço da amada não fazia sentido; já as provocações
dos colegas... Será que eles têm razão?
O despeito rondou-o. Foi dar uma volta na quinta... não sentia o prazer de
outrora. Faltando Helena, faltava tudo. Voltou melancólico para casa, cogitando
um modo de descobrir o paradeiro da amada em Lisboa. Surpreendeu a mãe no seu
quarto, lavada em lágrimas, com o seu caderno de poesia nas mãos. Não se conteve:
— Mãe, porque chora
ao ler os meus poemas? Porque chora cada vez que falo na Helena? Porque chorou também
no dia em que os pais dela vieram ver-me? Porque razão não me deixam falar com
a Helena? — Dona Conceição soluçava num
pranto. Largando o caderno, retirou-se para o seu aposento. Matias deu conta de
que lhe gritara, correu atrás. — Perdão, mãezinha!
Eu não queria gritar consigo. Mas pressinto algo ruim... preciso saber o que se
passa. É verdade que a Helena não deseja ver-me?
— Tu
não sabes o que dizes, meu filho — titubeou Dona Conceição. — Não faças mau
juízo dela.
—
Mãe, você já sabe que... Se calhar, ela arranjou outro namorado... e não me
quer dizer...
—
Cala-te, Matias! Não digas tolices! A Heleninha é um anjo...
— Você
sabe alguma coisa sobre a Helena... Porque não me conta? Por favor, mãe!
Sebastião
Mota acabara de entrar no quarto. Ouvindo a súplica do filho, decidiu:
— Está
bem, Matias. Já não és
criança, és um rapaz crescido, saberás o que sucedeu. —
E dos lábios do pai, Matias ouviu as palavras que jamais poderia
imaginar: — Como diz a tua mãe, a Helena é um
anjo... símbolo da pureza de coração, da bondade e do amor... A Helena é a luz que
ilumina a tua vida.
— Não
entendo, pai — ciciou Matias, deveras ansioso. — O que significam essas
palavras?
— Que
os olhos da Helena são a luz dos teus olhos. Foi ela quem devolveu a tua visão.
—
Por favor, pai, nada de metáforas! Não me deixe mais agoniado! Diga logo o que
se passa...
— As córneas
transplantadas nos teus olhos pertenciam aos olhos de Helena — deslindou Sebastião.
— É triste, filho,
mas é verdade — balbuciou Dona Conceição, lacrimosa.
— A Helena está morta.
— Não é possível! Isso
é mentira! — vociferou Matias incrédulo, em estado
de choque. — A Helena veio despedir-se para me
salvar?!... Suicidou-se?!... Matou-se para me doar os seus lindos olhos azuis?
Nãããooo!!!... — explodiu num grito lancinante. As mãos, num insano impulso,
dirigiram-se aos próprios olhos. Se o pai, adivinhando as suas intenções, não o
segurasse rapidamente, iria arrancá-los.
— Não faças isso,
meu filho. — Sebastião tentava reconfortá-lo. O
rapaz rebentava de tanto soluçar; derramava lágrimas de sangue, amargas como o fel.
— A Helena quis deixar os olhos dela contigo...
Após o choque
inicial, os pais conseguiram acalmá-lo. Aos poucos. E no dilacerado cérebro juvenil
surgia a avalanche de perguntas... Como? Quando? Onde? Porquê? Durante a viagem
a Paris, Casimiro Reis despistou o automóvel numa ravina. Do acidente de viação,
resultou o óbito da filha. Os adultos salvaram-se, protegidos pelos cintos de
segurança; enquanto o veículo dava cambalhotas, Helena foi projectada contra
uma rocha. Não sobreviveu. A morte foi quase imediata. Antes de sucumbir, porém...
nos derradeiros instantes de lucidez, Helena implorou que doassem os seus olhos
a Matias.
—
Devolver a luz aos teus olhos foi o último desejo da Helena — frisou Sebastião,
apertando o filho nos braços. — Ela deixou-te mais do que lembranças:
algo do seu corpo viverá para sempre em ti...
— É
o teu anjo da guarda, meu filho — repetiu Dona Conceição. — É a luz que guia os
teus olhos.
— Onde a enterraram?
— inquiriu Matias, tentando acalmar-se. — Quero ver a sepultura dela.
— Está no
cemitério de Vila Rica, junto dos seus parentes — declarou
Sebastião, afagando-o.
Matias desenvencilhou-se
e arrastou-se para a janela. Lá fora, frágeis flocos de neve começavam a bailar.
Observando a quinta salpicada de branco, a sua mente atordoada, dizimada pela
dor, visualizava a bela Helena montada consigo no Dragão. A recordação
sufocava-o. O sofrimento transformava-se em ácido corrosivo, devastava-lhe as
entranhas. Nada nem ninguém poderia descrever a sua dor indizível.
— Tem razão, pai — balbuciou, procurando mitigar a angústia. — A minha Helena é um anjo...
Pegou no casaco
de ganga, dirigiu-se ao estábulo, montou o Dragão e zarpou como um trovão pela
quinta, gritando a dor que o dizimava. Gritava contra as árvores, gritava
contra os animais, as pedras, os pássaros, as plantas... Gritava contra tudo. Alcançou
a estrada para Vila Rica, largou o cavalo na berma e pediu boleia ao condutor
que passava. Iria imediatamente visitar a sua amada no cemitério.
***
Amanhecia quando
Matias, exausto, terminou a sua longa narração. O padre Manuel estava parado
junto da janela. Fitava as distantes amendoeiras em flor quando lhe ouviu as
palavras finais:
— Foi assim que
tudo ocorreu, Sr. Padre. Só descobri ontem que a Helena faleceu. Então, abandonei
o Dragão na estrada e dirigi-me ao cemitério para ver a campa da Helena. O meu único
desejo é morrer, Sr. Padre... ir ao encontro dela no Céu... Quero ficar para
sempre com a minha querida Helena.
— Não morrerás, Matias
— disse o padre Manuel, reaproximando-se da cama. — E
os teus pais têm razão: a Helena é um anjo. Quando agonizava, doou as suas
córneas num acto de grande generosidade.
—
Fê-lo por amor, Sr. Padre — murmurou Matias, limpando as lágrimas que lhe
escorriam.
—
Sim, meu bom rapaz — concordou o padre, bondoso. — Os olhos de Helena foram-te
doados por amor. Ela desejava devolver-te a visão... quis resgatar-te das
trevas. Esteja onde estiver neste momento, a Helena quer que vivas! E pretende
continuar a ver o mundo através dos teus olhos, através da forma maravilhosa
que tu o vês. Agora, sossega. Assim que receberes alta, levo-te à Quinta do
Mocho.
Matias quase não
ouvia a voz do confessor. Focava o pensamento em Helena, a mente perturbada relembrando
o último minuto que a vira a despedir-se de si, enquanto recitava um verso emaranhado:
Nos braços reconfortantes do meu salvador
Recebi uma bênção (divina) vinda de Deus
Cumprirei o seu último desejo cheio de amor
E a despedida de Helena jamais será um adeus
— Matias! Matias!
Estás a ouvir-me? — A pergunta do padre Manuel
fê-lo aterrar na realidade. — Os teus pais devem estar
aflitos com o teu desaparecimento. Diz-me qual é o contacto deles. — Foi-lhe indicado um número de telemóvel e rematou:
— Vou avisá-los de que foste internado e tranquilizá-los.
— Está bem, Sr.
Padre, agradeço-lhe muito. E perdoe a minha asneira.
— Descansa
agora um pouco, não te preocupes com nada.
—
Obrigado por me ouvir, Sr. Padre. Acho que vou dormir. — E
enquanto o sacerdote transmitia notícias apaziguadoras via telemóvel a um
Sebastião Mota consumido, desesperado com o sumiço do filho, o jovem poeta
tristonho, reconfortado pelas amáveis palavras do seu antigo professor,
deixava-se vencer pela poesia do sono... sonhando que um dia, lá no Céu, cantaria
os seus versos para um anjo.
---
in «A Despedida», páginas 54-72
Papel D'Arroz Editora, Junho 2015
Arrepiante! Nem por sombras imaginava o desfecho da história. É implacável! Quando começamos a ler somos sugados para as paisagens e vidas dos personagens. Ainda vou precisar de algum tempo para me refazer do petardo que foi saber o nome do dador. Esta é a minha preferência: histórias reais, sem carradas de tinta cor de rosa que descascam mal a gente termina o texto. A vida é assim mesmo, cheia de imperfeições. Muitos parabéns pela forma soberba de escrever, é um enorme privilégio poder ler textos com esta qualidade. Por este caminho, ainda ganha o Nobel da Literatura. Votos de muito sucesso, merece! Abraço
ResponderEliminarMinha querida Suzete, o Nobel não é para mim. Nem eu ambiciono tanto. Basta-me conseguir (continuar a) partilhar com vocês as minhas estórias, seja através de alguma antologia em que participo ou organizo, seja através de um livro individual... cuja edição ambiciono para breve.
EliminarLindo! O amor é realmente um sentimento que não se explica, apenas se sente.
ResponderEliminarTotalmente, Leonor! O amor não se explica; sente-se...
EliminarNão acredito! Obrigada. Novo texto e lindo, belo, transbordante, transversal.. de repente viajei um pouco até À Cidade e as Serras.. tenho de adquirir esse livro, Isidro. Eu gosto de sentir as páginas.. e na praia, leva-se o livro.. Não mencionei ainda a imagem.. bem cuidada, na escolha.
ResponderEliminarNeste caso, não se trata de «A Cidade e as Serras» mas sim da fictícia Serra Mourisca, em cujas brenhas um tanto idílicas, embora agrestes, se insere esta propriedade vinícola que não descura as roseiras nas suas vinhas e dá pelo nome de Quinta do Mocho, na qual ocorre este amor juvenil, tão genuíno e pueril...
EliminarComentei mas não sei porquê não ficou registado
ResponderEliminarDe qualquer das formas é lindo!... história de vida comovente, apaixonante, ensino de vida rural, divulgação do nosso património. Sem palavras. Delirante leitura, acessível, não cansativa mas contagiante para a continuidade da leitura
Parabéns e felicidades para hoje, o dia do escritor, belo livro para simbolizar o dia de hoje
O comentário acabou por ficar registado, como se vê. Fico muito grato pelas suas palavras. Ainda bem que gostou! Prometo criar mais tramas deste género; elas fascinam-me, enquanto autor. Fique atenta!
EliminarISIDRO, terei gosto que entre nas minhas páginas VICTOR CA, Victor Manuel Campos Almeida, TIO ZÉ PEDRO.
ResponderEliminarMeu pseudónimo é VICTOR CA e como Kota... (termo Angolano de velho) há dezenas de anos que no labirinto da caminhada Física, Mental e Cósmica que entranço o Mundo do Pensamento Abstrato, no que sou e observo.. Escrevo para mim e para os outros. Abro e bato a muitas portas da vida Cósmica e Terrena para me encontrar. Somente sei que por profissão e sonho continuo enraizado à África que me desbrava e eu palminho na ilusão de a desbravar...
Nada ou pouco sei de si... Perdoe minha ignorância em relação ao seu sentir e expressar... Li pela primeira vez este pequeno excerto do texto OS OLHOS DE HELENA. Gostei e senti a brisa da poesia ondulando a crina da montada quando cavalgava no sonho da espera pela Bela Helena. Amor sem os espinhos da roseira onde amar se ama somente nas pétalas da vida até ao desfolhar do caule que sangra essa vida.
Escrevemos para nós... e para os outros! Mas permita que lhe diga: embora este texto apresente laivos poéticos, a poesia não é o meu forte. Prefiro a prosa, na qual me sinto peixe dentro de água. Espero que continue a ler as minhas narrativas; irá conhecendo (sempre) um pouco mais sobre a alma de quem escreve...
EliminarLindo! Gostei muito.
ResponderEliminarFico muito contente que tenha apreciado este texto.
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