18 maio, 2016

A ODISSEIA DE DIOGO - INTRODUÇÃO AO CONTO

Agora que, finalmente, «O Beijo do Vampiro» já está impresso e a sessão de lançamento agendada para 28 de Maio, deixo aqui um pequeno excerto (na verdade, a introdução) do meu texto incluído nesta antologia vampírica. Espero que gostem. Qualquer comentário ou crítica será apreciado...

***

A ODISSEIA DE DIOGO

Isidro Sousa

A juventude exalada pelos poros do meu corpo circula paulatinamente, desde sempre inalterável, por entre o mundo que me rodeia, porém, alma humana na minha pessoa deixou de existir há muito tempo, o que não me permite envelhecer, preservando a eterna aparência de efebo imaculado.

Os meus longos cabelos castanho-claros mantêm o exacto comprimento que atingiram naquela virtuosa, longínqua e saudosa adolescência, sem alterar um milímetro – desde então, o crescimento extinguiu-se e a regeneração, se ousar cortá-los, é rápida. Os meus olhos, outrora esverdeados, adquiriram um intenso brilho escarlate, tornando-se demasiado sensíveis à luz diurna, o que faz de mim um ser noctívago – vivo noite após noite, como uma ratazana, à cata do alimento indispensável à minha existência desventurada e durmo, durante o dia, em caves de fábricas abandonadas ou de prédios devolutos e em galerias subterrâneas que vou descobrindo nas diversas cidades por onde me desloco. E sempre que acordo, ao escurecer, sinto imensa secura de sangue – este precioso líquido imprescindível à minha sobrevivência é o meu exclusivo alimento, podendo ser tanto de pessoas como de animais. Tudo isso, somado à posterior alva tonalidade da minha epiderme, a roçar a palidez e de causar temor ao susto, só disfarçável com suaves maquilhagens, é fruto da indesejável enfermidade que me fustigou e não mais me repudiou – o meu organismo achou-se maculado por um vírus raríssimo, um bicho demoníaco cujo contágio é inevitável se alguém ingerir o meu sangue; foi justamente desse modo, ingerindo sangue infestado, aquando dos meus verdes e inocentes quinze anos de idade, que contraí inesperadamente, da noite para o dia, essa rara doença, todavia, eu jamais, em sã consciência, transmitirei qualquer infecção relacionada porque, além de ser penoso sentir sede de sangue todas as noites, esta maldição transforma desgraçadamente o ser humano num morto-vivo ambulante, condena-o a suster irremediavelmente uma vida nas trevas fenecida, embora o seu coração permaneça vivo, continuando a bater. O único aspecto decorrente desta moléstia que certos desalmados poderão considerar positivo é a quase imortalidade, ou seja, a longevidade, já que o meu organismo não expirará facilmente como o de qualquer ser humano, excepto se for destruído pelo Sol – não devo nem posso, em circunstância alguma, expor-me a raios solares; caso contrário, o meu corpo incendiar-se-á, explodindo como combustível numa poma de fogo. Além disso, não obstante a minha aparente debilidade, possuo uma força sobre-humana, uma cicatrização ultra-rápida e sou detentor de poderes telepáticos extremamente proveitosos para que me possa alimentar sem que as minhas vítimas se lembrem do ocorrido na hora seguinte.

Nos primórdios desta malfadada existência, eu não conseguia controlar a minha sede de sangue e destruí inúmeras vidas inocentes. Procurei em vão, em momentos de assaz desespero, alimentar-me de comida humana, só que esta revelou-se-me nociva; rendi-me então, inevitavelmente, à fatal evidência da minha obscura subsistência – contudo, fui descobrindo um meio-termo, o ambicionado equilíbrio entre as minhas privações e a vida de outrem, e, hoje em dia, bebo somente a quantidade necessária que me permita sobreviver, sem matar mais alguém. Afortunadamente, para mim, o monstro que me transformou numa entidade das trevas foi exterminado há vários séculos: a Santa Inquisição, que de santa só exibia o nome, capturou-o no ainda lusco-fusco de um iminente alvorecer, conseguiu neutralizar a sua energia satânica, crucificou-o no topo de uma montanha e, quando, por fim, o Sol nasceu e os seus raios o atingiram, ele foi totalmente incinerado. Devo referir que os vampiros são criaturas profundamente carentes e solitárias devido ao seu isolamento da sociedade e apaixonam-se, com frequência, pelos seus alvos. Isso sucedeu com o meu malfeitor, sendo devido a esse insalubre arrebatamento que ele me esculpiu numa réplica de si mesmo, restringindo-me a uma forçosa vivência indesejada. Ele garantia que me amava, mas judiou de mim durante décadas por ter um amor distorcido. Além disso, era ciumento e barbaramente violento! Por conseguinte, eu é que sofria as suas torturas. Após ele ter sido aniquilado pelo Santo Ofício, suspirei de alívio, sentindo-me finalmente livre da sua possessão! Libertei-me, todavia, nunca tive o privilégio – ou direi o drama? – de amar alguém. Mas, quiçá, um dia isso pode acontecer...

Nos tempos modernos, uso frequentemente roupas negras, botas de couro pretas e um casaco com capuz igualmente escuro, para disfarçar a minha verdadeira natureza. Movimento-me em zonas urbanas onde existem estabelecimentos de diversão nocturna, procurando bêbados que saem de restaurantes, bares ou discotecas. Recorrendo sempre ao meu poder mental, induzo telepaticamente para que as potenciais vítimas rumem a becos ou ruelas sombrias onde eu me possa alimentar tranquilo. Bebo apenas o sangue suficiente de cada vítima e, antes de abandonar o indivíduo em questão e ir embora, utilizo a minha saliva cicatrizante para lhe sarar os ferimentos da mordida e apago-lhe da memória o que acabou de ocorrer – apesar de a mordedura vampírica, ao contrário do que os humanos possam julgar, ser prazenteira para a pessoa que é atacada, porque liberta-lhe na corrente sanguínea hormonas sexuais. Não é raro a vítima usufruir de um potente orgasmo enquanto é sugada. Por vezes, homens mais assanhados tentam possuir-me à força. Ainda bem que sou portador de uma energia sobre-humana, caso contrário seria violado cada vez que me alimentasse!

Mas agora chega de lengalenga porque a fome começa já a importunar os meus neurónios...

(...)


in «O Beijo do Vampiro»
Esta antologia já está à venda
Pedidos através do email letras.suigeneris@gmail.com

38 comentários:

  1. Respostas
    1. Queria ser uma vampira, pelo menos eu ficava boa na matemática.

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  2. Prazeirosamente cativante, um vampiro com refinado senso filosófico, erudito e hábil comunicador, faz das intempéries de sua jornada uma narrativa transcendental, que exacerba os sentidos do leitor e desperta uma simpatia natural com tal carácter vampírico. Sem contar na suave e bem amarrada transição melódica entre o antes e o agora, esquecemos até que não se trata de um conto de fadas ao ler o mesmo, é surreal.

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  3. Parabéns, Isidro Sousa! Estou encantada com a sua escrita! Não vejo a hora de ler o restante! Amo histórias de vampiros... E é a primeira vez que vejo uma descrição tão "poética", se assim posso dizer, de um vampiro.

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    1. Obrigado, Sandra Boveto. Este texto tem, de facto, algo de poético. Foge um pouco ao meu padrão. Mas confesso que gostei do resultado...

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  4. Muito bom!! Ansiosa para ler a continuação.

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    1. Fico contente. Isto é só a introdução... porque a odisseia ainda nem começou...

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    2. Preocupo-me em construir uma boa trama, na qual não haja qualquer incorrecção e nem sequer uma vírgula fora do lugar...

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    3. Acho ótimo isso e vejo que estamos em boas mãos. Também tenho essa preocupação e acho que todos que escrevem deveriam ter.

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    4. Sim, deviam; o meu trabalho, nas revisões, ficaria bem mais suave...

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  6. Não sendo fã de vampiros, o seu texto levou-me, Isidro. Mas a isso já nos habituou. E uma vez mais o felicito. Venha o restante, no livro, claro!

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    1. Dia 28, Isabel... conhecerá toda a odisseia deste vampirinho com ar singelo de adolescente, porém, com 532 anos de idade... contemporâneo de Vasco da Gama, Lucrécia Bórgia, Catarina de Médici, etc, etc... uma viagem pela História dos últimos 500 anos.

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    2. Já levantei demasiado o véu. Mas há muitos mais... 37 textos no total. Uma Bíblia Vampiresca.

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  7. Hum, que interessante, que venha o livro!

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    1. Está quase, Luciana Toledo. E desta vez o meu texto conta uma estória bem do género daquelas que você gosta de escrever...

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    2. Isidro Sousa, ai que delícia, adorarei ler.

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    3. Boys, boys, boys... você completa.

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  8. Curiosa para ler o resto da história...

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  9. Embora não simpatize com o tema, reconheço um texto bem elaborado e com uma trama interessante! Muito bem!

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  10. Um vampiro Sui Generis e muito interessante. Ainda bem que já vamos ler o restante logo logo :)

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  11. Isidro Sousa, seu texto é excelente! De uma leitura muito prazeirosa e estimulante. Parabéns pela capacidade de tão bem traduzir em palavras suas emoções, sensações e sentimentos!

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