02 janeiro, 2016

TERROR EM ALTO MAR


Texto de ESTÊVÃO DE SOUSA

A bordo do paquete “Géminus of Seas”, Isabel Villanova viajava feliz num cruzeiro transcontinental. Jovem, bela, rica e inteligente – herdeira de uma grande fortuna – podia dar-se ao luxo de usufruir de tudo o que de bom a vida proporciona aos bafejados pela deusa da fortuna. Muitíssimo cosmopolita – havendo viajado pelos cinco continentes – viajando, preenchia a vida um pouco monótona que, apesar dos meios ao seu dispor, levava. Alta, loura, detentora de uns olhos verdes que inebriavam quem neles navegasse, era, além do mais, possuidora de um corpo escultural que deslumbrava qualquer elemento do sexo oposto. Não obstante todos estes atributos, não se lhe conhecia qualquer compromisso sentimental. Filha de um magnata mexicano, falecido havia cinco anos, quando, acompanhado pela esposa, pilotava um jato particular que se despenhou sobrevoando os Andes – não deixando sobreviventes – viu-se de repente sozinha e herdeira de um grande império.
Bafejada pela abastança, rapidamente começou a correr mundo, havendo poucas cidades e estâncias turísticas, nos cinco continentes, que não conhecesse. Hoje, com trinta anos, ao engajar-se neste luxuoso cruzeiro, não pretendia mais que um novo género de diversão. Apreciadora do luxo e conforto, não podia ter escolhido melhor que o magnífico paquete, o qual desfrutava conjuntamente com mais cinco mil passageiros. Nesta luxuosa cidade flutuante existia tudo o que se pode desejar num local de relaxe, luxúria e prazer.
O imponente transatlântico, saindo do porto de Vera Cruz, navegava a todo o vapor, com destino às Baamas, após ter feito escala na Florida, onde esteve ancorado dois dias. Das Baamas, depois de uma estadia de dia e meio, seguiu direito à costa de África, com destino ao Funchal.
Estávamos então em Dezembro, aproximava-se o fim do ano. Era suposto o réveillon a bordo ser algo de monumental, dados os preparativos a que o pessoal procedia com afinco. A pouco e pouco o paquete ia ficando todo engalanado, antevendo-se uma “festa de arromba”, com o glamour que tão distintos passageiros exigia; afinal, tratava-se de um cruzeiro de milionários. Entretanto, os dias que antecediam a tão almejada festa iam decorrendo num ambiente digno de um conto de fadas, para o que as condições de excelência, oferecidas pelas instalações do paquete, muito contribuíam.
Neste ambiente de glamour e fantasia, Isabel sentia-se completamente à vontade. De tal modo que já havia feito um rol de amizades, das quais fazia parte um rapaz, seu compatriota – que se dizia perdidamente apaixonado – a quem ela encarava como amigo e companheiro de folguedos.
Com o compatriota Gonzales e outros foliões, passava Isabel os dias, e parte das noites, em agradável “rambóia”, ora frequentando os restaurantes do paquete, e o casino, ora tomando banho na piscina, usufruindo também do solário, ou ainda dançando animadamente – nos vários locais a isso destinados – resplandecendo de beleza ao brilho feérico da iluminação multicolor. Assim ia decorrendo o cruzeiro, em ambiente de festa, muito ócio e alguma libertinagem.
Por altura do último dia do ano – noite de réveillon – o Géminus sulcava calmamente as águas do Atlântico, defronte da costa da Serra Leoa. A bordo a alegria era esfuziante, com toda a gente procurando, por entre milhares de confetis e serpentinas, viver o réveillon de maneira inesquecível, dançando, rindo e desejando Boas Festas – quando da escuridão do oceano saíram repentinamente dois barcos que, cheios de piratas vindos do corno d’África, na costa oriental, atacavam o pesado transatlântico, atracando, um a bombordo, e o outro a estibordo; armados de toda a casta de armas, intimidavam os passageiros – que se encontravam no convés sorvendo a agradável brisa marinha, desfrutável naquelas paragens – ao mesmo tempo que os iam despojando de todos os pertences.
Dado o alarme gerou-se um pânico indescritível entre os passageiros que, sem saber o que fazer, corriam pelos corredores procurando esconder-se nos quartos, bares, restaurantes, quartos de banho e até nos salva-vidas, o que era preciso era fugir daqueles bandidos que, sem complacência, roubavam, agrediam e matavam quem encontravam pela frente.
O comandante, confrontado com a situação, deu instruções ao restante pessoal de bordo para não oferecer resistência, procurando assim preservar ao máximo a segurança dos passageiros, enquanto ordenava ao radio-telegrafista para mandar um S.O.S., pedindo socorro.
Quando a abordagem se deu, Isabel Villanova encontrava-se a dançar com o seu amigo Gonzales que, pela quinquagésima vez, lhe dizia, cheio de arrebatamento, que a amava. Ao ter conhecimento do que estava a acontecer, correu a esconder-se no quarto, fechando a porta por dentro e metendo-se debaixo da cama, aí se deixou ficar, na esperança de não ser descoberta. Enquanto isto se passava, no convés e restantes áreas públicas reinava a desordem e a confusão, com a intimidação, pelos assaltantes, a ser feita em altos berros. Ao mesmo tempo que – os Somalis – de armas em punho aterrorizavam quem lhes resistia, matando e roubando, o comandante e os oficiais entregavam-se, sem resistência, sendo encarcerados na torre de comando.
Isabel Villanova não soube dizer quanto tempo esteve naquela “agonia” fechada no quarto até que o comissário de bordo lhe foi bater à porta, dizendo-lhe que já podia sair, porque o perigo havia passado. Saiu a medo, não tinha a certeza que o pesadelo havia terminado, só acreditou quando, saindo do elevador que dava acesso à área de lazer, constatou que, embora muito devagar, a situação ia voltando à normalidade. Terrivelmente tensa e apavorada, começou a deambular pelo navio, ficando impressionada com o que ia vendo. Aqui e ali os médicos e enfermeiros de bordo prestavam assistência aos feridos, já tendo sido retirados os corpos dos que haviam perecido. A atividade existente surpreendeu-a; toda a gente corria meio desorientada, até que uma voz se fez ouvir, nos altifalantes de bordo:
– Atenção senhores passageiros: o capitão de fragata Afonso Albuquerque, comandante da fragata Gil Eanes, ao serviço da coligação internacional de combate à pirataria, nas águas da costa ocidental de África, apela a todos que se mantenham calmos, visto já não haver motivo para alarme. Três piratas foram abatidos e vinte e cinco foram detidos e irão responder pelos crimes perpetrados, tendo os seus barcos sido aprisionados. Assim, resta-nos lamentar o acontecido e desejar que tenham um excelente resto de cruzeiro. Vemo-nos em Lisboa!
Isabel ia a iniciar a procura dos amigos quando dos altifalantes se voltou a ouvir uma voz:
– Senhores passageiros: fala-vos o comandante do Géminus para, em nome do proprietário do navio, em meu nome e de toda a tripulação, lamentar o sucedido e desejar-vos a continuação de um bom cruzeiro, dizendo-vos que, tanto eu como a restante tripulação, temos o maior prazer em estar incondicionalmente ao vosso dispor. Façam por esquecer o acontecido e... divirtam-se, usufruindo das excecionais condições que o paquete vos oferece.
Acabando de ouvir esta última comunicação, foi altura de Isabel, extremamente ansiosa, partir à procura dos amigos, para saber se estes se encontravam bem. Percorridos alguns passos no solário, avistou Gonzales, que também aparentava procurar alguém e que, quando a viu, correu ao seu encontro, abraçando-a comovido, para lhe dizer:
– Oh, minha querida, que bom ver-te depois desta confusão, e saber que estás bem! – Abraçados, com frenesim, beijaram-se apaixonada e vorazmente, descarregando naquele beijo todas as emoções acumuladas ao longo dos últimos acontecimentos.
Acabado o beijo, ela, pegando-lhe na mão, arrastou-o, dizendo-lhe:
– Vem, vamos para o meu quarto, afinal estamos vivos!
Chegados dentro do quarto, amaram-se com arrebatamento: ela, entregando-se-lhe com volúpia, arrancou ela própria a blusa, pondo a nu os opulentos seios, que ele acariciava enquanto lhe ia tirando as cuequinhas e cheio de lascívia a atirou para cima da cama, onde rapidamente se possuíram. Atingido um orgasmo simultâneo, deixaram-se ficar abraçados algum tempo, até que na ânsia desmedida de se libertarem completamente de toda a adrenalina acumulada aquando da invasão, voltaram a possuir-se, desta vez menos exuberantemente, mas com tanto enlevo que acabaram completamente em êxtase!
Naquele dia, o luxuoso navio chegou ao Funchal, onde ancorou pelas 11,00 horas. Dali, seguiria no dia seguinte para Lisboa e daí para Barcelona, continuando o cruzeiro para Itália e Grécia, conforme havia sido programado.
Já nada era como dantes! As pessoas tinham perdido a alegria esfuziante que havia imperado até ao ataque dos Somalis. O cruzeiro continuaria conforme a programação inicial, visto a empresa ter assumido responsabilidades – ao receber o pagamento das viagens – com as quais tinha de cumprir. No entanto, alguns passageiros desgostosos por haverem perdido familiares e amigos, resolveram desembarcar em Lisboa, seguindo de avião para os seus países. Neste grupo se enquadrava Isabel que, embora não tivesse perdido ninguém muito próximo, sentia que o cruzeiro já não tinha razão de ser, pese embora a felicidade presente, pelo amor que estava a viver. Assim, num belo dia, deitados junto a uma das piscinas, disse para Gonzales, que se encontrava abraçado a ela:
– Querido, tenho andado a pensar que embora estejamos numa autêntica lua-de-mel, desde os acontecimentos por que passámos, sinto que fiquei traumatizada com o acontecido. Sinto-me receosa de que algo nos possa acontecer novamente. O que achas se desembarcarmos em Lisboa e regressarmos a Guadalajara de avião?
– Sabes que estarei sempre contigo, meu amor, e que os teus desejos para mim são ordens – disse-lhe Gonzales, beijando-a com amor.
– Meu querido! Este réveillon ficará eternamente na minha memória por dois motivos indeléveis: Primeiro, pelo grande susto que passámos durante o mesmo, em que todos julgámos que perderíamos a vida. Segundo, porque foi graças a este réveillon que te conheci, que nos amámos e que somos tão felizes!
Ele, aconchegando-a mais a si, disse-lhe:
– Olha, minha querida, daqui podemos tirar uma lição: Foi preciso ter sido transformado um grande momento de alegria, em horror e medo, para alcançar a felicidade. Não restam dúvidas que “Deus escreve direito por linhas tortas”!


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in «Boas Festas», páginas 64-69
Silkskin Editora, Dezembro 2015


NOTA BIOGRÁFICA DO AUTOR
Estêvão de Sousa nasceu em Lisboa, em 1937. Oriundo de uma família de classe média, viveu em Angola até aos 36 anos, onde fez um curso de geologia e mecânica de solos. Já em Portugal, fez um curso de gestão e administração de empresas e exerceu funções de chefe de escritório, gerente comercial e director administrativo, em duas empresas de Coimbra. Tem seis obras de sua autoria: «Retalhos de uma Vida», «Nesta Terra Abençoada», «Tráfico no Rio Geba», «Ouro Negro», «Rapto em Londres» e «Irina – A Guerrilheira». Publicou este texto, «Terror em Alto Mar», em «Boas Festas», a Antologia de Natal que Isidro Sousa organizou para a Silkskin Editora.

2 comentários:

  1. Que aventura, Estêvão! Fico ansiosa por ler mais trabalhos seus. Adorei, parabéns! Bom ano, já agora!

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