13 dezembro, 2016

CONEXÃO LITERATURA 18 - ENTREVISTA COM ISIDRO SOUSA

Fotografia: Dado Goes

ENTREVISTA COM ISIDRO SOUSA
Publicada na revista Conexão Literatura
Edição nº 18 | Dezembro 2016
Páginas 47-53



Isidro Sousa nasceu em 1973, numa aldeia remota das Terras do Demo, concelho de Moimenta da Beira, Portugal, e reside em Lisboa. Jornalista e editor de publicações periódicas desde 1996, fundou, dirigiu e editou revistas, jornais e guias turísticos, publicou a primeira antologia em Fevereiro de 2001, colaborou com diversas editoras, participou em duas dezenas de obras colectivas, foi distinguido num concurso literário e é o responsável pelos projectos da Sui Generis, que criou em Dezembro de 2015. Completou, em Agosto, um ano de actividade como Antologista, relançou-se como Editor e tem dois livros de sua autoria: «Amargo Amargar» e «O Pranto do Cisne».




Em agosto de 2015, você iniciou a sua actividade como antologista de diversos títulos e, em Dezembro, lançou a Sui Generis. Volvido um ano, que balanço faz do seu trabalho?

Muito positivo! Organizei 12 antologias: algumas já editadas, outras ainda decorrem. «A Bíblia dos Pecadores» foi a primeira; concebi-a após ter sido distinguido num concurso literário e despertou tanto interesse como celeuma. Os meses iniciais, além de trabalhosos, revelaram-se turbulentos porque procurei apoio junto de uma editora que só pretendia apoderar-se do meu projecto. Ao dar-me conta de que estava prestes a ser vítima de um golpe, defendi a minha obra! Não permiti ser ludibriado com falsas promessas, muito menos vigarizado. Sem um contrato de edição assinado, bati com a porta e lancei a Sui Generis para dar vida aos meus projectos, resistindo sempre a ameaças e perseguições. Estabeleci outra parceria com a EuEdito, esta uma editora honesta e transparente que merece toda a credibilidade, e avancei logo com duas novas antologias, ambas já editadas: «O Beijo do Vampiro» e «Vendaval de Emoções». Desde aí, ultrapassados os obstáculos iniciais, outros projectos surgiram como bola de neve. E aquando do primeiro aniversário como antologista, comecei a preparar o lançamento de livros individuais. Da minha autoria e de outros autores. O balanço é feliz. Sinto-me realizado.



Além de contos, trabalha também com poesia, tendo lançado a antologia poética «Vendaval de Emoções». Como surgiu a ideia desse livro? Como foi a selecção e o lançamento?

Essa é a terceira antologia da Colecção Sui Generis, sendo a primeira dedicada à poesia. Reúne 192 textos poéticos de 57 autores lusófonos (entre eles, 18 brasileiros) e conta com um convidado especial: o dramaturgo Tito Lívio, que tem uma longa carreira de meio século no teatro e nas letras e quis honrar-nos com a presença de poemas inéditos de sua autoria, escritos durante a sua juventude. Pessoalmente, privilegiei sempre a prosa, género a que me dedico desde a adolescência. No entanto, em 2014, um poema da poetisa Rosa Maria chamou-me a atenção, ficou-me no subconsciente; mais tarde, despertaria a poesia que existe dentro de mim e dediquei, também, uma obra à poesia, cujo tema são as emoções. A adesão foi boa e a selecção de textos nada fácil, tendo resultado num livro belíssimo, cujo lançamento ocorreu num espaço igualmente lindíssimo: o sofisticado e acolhedor Vlada Lounge, em Lisboa. Depois, organizei «Torrente de Paixões», também dedicada à poesia. Mas a tendência é para organizar projectos mistos, que englobam prosa (contos e crónicas) e poesia, tornando-os mais abrangentes. São os casos de «Os Vigaristas», «Saloios & Caipiras», «Graças a Deus!» e o segundo volume de «A Bíblia dos Pecadores», que inclui um «Testamento Poético».



Você tem vários livros em fase de lançamento: «Ninguém Leva a Mal», «Sexta-Feira 13», «Saloios & Caipiras» e «Torrente de Paixões». É nítido o seu intenso trabalho em prol da literatura mesclando escritores portugueses e brasileiros em suas obras. Como está sendo a presença dos escritores brasileiros em relação aos portugueses?

A ordem é essa, porém, darei prioridade a «Sexta-Feira 13», que reúne contos assombrosos recheados de mitos e superstições; será impressa após lançar a antologia «Graças a Deus!», sendo esta uma Acção de Graças que priorizei devido à proximidade do Natal. A seguir, «Saloios & Caipiras» e a antologia poética dedicada às paixões. «Ninguém Leva a Mal», cujo título deriva de uma expressão popular («É Carnaval, ninguém leva a mal!») reúne estórias carnavalescas. Serão lançadas, todas sem excepção, no início de 2017. Quanto à presença de autores brasileiros nas obras Sui Generis, é muito forte; vai crescendo de antologia para antologia. Tive sempre amigos brasileiros e partilhei, durante 11 anos, um apartamento com dois brasileiros. Talvez essa forte empatia me tenha feito enveredar pela lusofonia. A adesão de autores brasileiros é boa, desde o início, fazendo as antologias Sui Generis produzirem um intercâmbio cultural bastante salutar. Já organizei uma obra luso-brasileira («Saloios & Caipiras») dedicada às ruralidades, enaltecendo pessoas e vivências saloias e caipiras dos dois países irmãos, e convidei a autora (brasileira) Marcella Reis para coordená-la. Isso despertou mais atenções. Tenciono envolver mais autores em futuros projectos e estou a considerar, para 2017, uma antologia dedicada a um mito brasileiro. Receber textos de portugueses e de brasileiros de todas as partes do Brasil é uma experiência riquíssima. Textos que revelam sensibilidades, estilos e culturas tão variadas; embora depare com alguma dificuldade nas revisões, enriquecem-me sobremaneira. É mais uma das minhas experiências únicas, verdadeiramente sui generis.



No momento, você está analisando e seleccionando os textos para «Os Vigaristas» e «Devassos no Paraíso». Em que se baseiam estas antologias?

As selecções estão concluídas, já passei à fase da revisão de textos. Mais uma vez, ambas incluem imensos autores brasileiros. «Devassos no Paraíso» é o primeiro projecto Sui Generis dedicado ao erotismo; reúne contos sensuais e eróticos. «Os Vigaristas», cujo número de participações portuguesas e brasileiras é similar (está bem equilibrado, tal como em «Graças a Deus!»), é uma obra bastante peculiar, a única resultante de um impulso; todas as outras foram amadurecidas. Surgiu na sequência do conflito com o grupo editorial que tentou prejudicar-me, perseguindo, ameaçando, sabotando, tentando desestabilizar-me, desmoralizar-me. Chegaram ao cúmulo de organizar um concurso cujo tema (oportunismo) visava atingir-me. Desta vez, reagi: não permiti que continuassem a tentar pisar-me. Uma antologia dedicada aos vigaristas (crónicas, poemas e contos do vigário) foi a melhor resposta. Bastou divulgar o regulamento para recuperar a paz. Curiosamente, desde aí, surgiram mais denúncias sobre práticas irregulares da tal empresa; houve autores que rescindiram contratos de edição e outros abdicaram de prémios literários atribuídos por essa editora. Ignoro o resultado do concurso que visava atingir-me, mas creio não ter sido bom porque acabaram por extinguir esse projecto. Quem queira conhecer certos “podres” que grassam no universo literário português, fique atento a «Os Vigaristas». Denunciam-se muitas “realidades infelizes” através da literatura.



Além das antologias com diversos autores, a Colecção Sui Generis também publica obras de autores individuais. Neste momento, você está lançando vários livros desta colecção, entre eles «Amargo Amargar», de sua autoria. Pode falar sobre este livro para conhecermos mais?

Antes de abordar o livro, permita um esclarecimento. No mês em que completei um ano como antologista, assumi-me, publicamente, como editor. Na verdade, relancei-me, visto ter feito um interregno de dois anos. Sou editor de publicações periódicas há 20 anos. Fundei e dirigi revistas, jornais e guias turísticos entre 1996 e 2014 e editei a primeira antologia em 2001. Assumi agora, também, a edição de livros. Doravante, a Colecção Sui Generis contemplará obras colectivas e livros individuais, mantendo a parceria com a EuEdito; é mais vantajoso, em todos os aspectos. Novos autores, portugueses ou não, têm a possibilidade de lançar livros com o selo Sui Generis, fruindo das vantagens associadas. Já temos cinco em fase de edição, cujos lançamentos ocorrem em Dezembro: «Amargo Amargar» de minha autoria, «Mar em Mim» de Rosa Marques, «Almas Feridas» de Suzete Fraga e «Decifra-me... ou Devoro-te!» de Guadalupe Navarro, autora residente no Rio de Janeiro que prefere editar em Portugal. Além destes, publiquei «O Pranto do Cisne» (também escrito por mim) em Outubro, na Amazon, em ebook Kindle; a versão impressa será lançada em Dezembro. Embora tenha começado com estes dois livros, não foram os primeiros que escrevi. Tenho outros, especialmente um romance, a obra mais antiga que levei a cabo, em 1999; será publicado em 2017, se Deus quiser.



Porque escolheu «Amargo Amargar» e «O Pranto do Cisne» para a sua estreia enquanto autor individual, em vez do romance? Por alguma razão especial?

O título do romance é «Juno e Java» e sonhei publicá-lo desde sempre. Preferia lançá-lo já, mas torna-se mais dispendioso porque tem o triplo de páginas em relação aos outros, que são mais recentes. Quando senti chegado o momento de editar os meus livros, tencionava fazer a estreia com esse romance. Anunciei, inclusive, no início deste ano, a sua publicação em duas entrevistas. Razões económicas fizeram-me optar por obras menos caras. Digamos que, a nível financeiro, não é o momento oportuno. O romance ultrapassa 300 páginas. «Amargo Amargar» tem um terço dessas páginas; portanto, é muito mais pequeno. «O Pranto do Cisne» também. Ambos acarretam menos custos de produção. É mais acessível começar a lançar livros pequenos do que obras volumosas. Não obstante, chegará a vez do romance.



Voltando a «Amargo Amargar», quais são os temas abordados neste livro?

«Amargo Amargar» é um livro de contos, dedicados ao universo feminino. Reúne estórias de seis mulheres distintas entre si, porém, com fortes personalidades: mulheres que amam verdadeiramente, mulheres que sofrem desalmadamente, mulheres que amargam amargamente o cálice do sofrimento. São seis estórias bem elaboradas, bastante complexas, minuciosas; quase pequenas novelas. Quatro narrativas são contemporâneas; duas ambientam-se no início do século XX, entre o Regicídio e a Implantação da República em Portugal. Estas abordam o valor da fidelidade e as consequências do adultério em famílias aristocratas; numa delas, distinguida num concurso literário, há uma mãe sem escrúpulos que disputa o amor do genro com a filha. Doação de olhos (córnea) para devolver a visão à pessoa amada, a camponesa alvo do preconceito de famílias poderosas, gravidez na adolescência, amor com membros do clero, aborto em meios assaz religiosos e poliamor são temas vincados nas outras narrativas, ambientadas em idílicos cenários campestres como a fictícia e deslumbrante Serra Mourisca.



E «O Pranto do Cisne»? Que temas aborda e o que o distingue do outro livro?

«O Pranto do Cisne» também inclui contos nas suas páginas. Cinco textos igualmente longos e complexos, porém, homoeróticos. Existe um fio condutor entre eles e as cinco estórias são protagonizadas pelo mesmo personagem. Ambos os livros contêm temas actuais e fracturantes; abordagens profundas bastante polémicas. Pontos fortes na minha escrita: sensualidade, romantismo e dramaticidade. Cada estória de «Amargo Amargar» mostra isso, embora a sensualidade esteja mais latente. Os próprios títulos, tal como as capas, sugerem dramas. Reflectem os conteúdos de ambos os livros. Mas «O Pranto do Cisne» mergulha noutros universos como o da homossexualidade no futebol, considerado o desporto-rei, todavia viril, para machões; debruça-se também sobre as relações abertas, a futilidade das celebridades, incesto e apresenta muitas aventuras libidinosas, mescladas com a tragédia familiar que envolve a morte de um pai cujo filho, uma alma sensível e apaixonante, se refugia em amores de ocasião para atenuar a dor que lhe corrói o coração e tudo fará para se vingar da mãe assassina. Além do drama de o protagonista ver o pai assassinado pela própria mãe que o abandonara em criança, tem um teor erótico deveras acentuado. Não se recomenda a almas sensíveis. 



Você tem a decorrer, presentemente, duas novas antologias com temas sempre diferentes: «Anjos & Demónios» e «Graças a Deus!»...

Sim, terminou recentemente a submissão de textos para o segundo volume de «A Bíblia dos Pecadores», desta vez dedicada a «Os Três Testamentos», com poesia incluída, cujos textos seleccionados constituem o «Testamento Poético». «Graças a Deus!», a nossa antologia de Natal, embora não seja especificamente natalina, também já finalizou; reúne meia centena de autores lusófonos. «Anjos & Demónios» ainda decorre, com prazo alargado, e visa seleccionar Contos Sobrenaturais. No final de Setembro, vi esta mesma antologia Sui Generis dedicada ao Sobrenatural, «Anjos & Demónios», ser copiada por uma editora no Brasil e denunciei a situação. Não reproduziram a obra em si, que ainda não está concluída, mas a ideia do projecto: mesmo tema, mesmo título, mesmas regras, mesmos prazos de submissão, regulamentos muito idênticos. Que nome dar a isso senão cópia? Há várias maneiras de elaborar regulamentos que transmitem a mesma coisa. Meia dúzia de palavras cortadas ou alteradas não escondem um copy/paste. Mas não são situações desagradáveis como essa que me desmotivam. Pelo contrário! Há que continuar. Inovando sempre e destacando-me pela diferença. Quanto às más acções, ficam com quem as pratica.



Porquê «Graças a Deus!» para título de uma antologia de Natal?

É a 12ª antologia Sui Generis. Doze antologias literárias num ano! Um número místico, recheado de simbolismo: como os 12 meses do ano, os 12 signos do Zodíaco, as 12 tribos de Israel, os 12 Apóstolos, o dia e mês do meu nascimento (12 de Dezembro), etc. Acredito que nada acontece por acaso; não há coincidências! E tenho fé em Deus. Não sendo católico praticante, creio que tudo o que sucede na minha vida tem o peso da mão divina. Sempre senti Deus presente no meu dia-a-dia. Quer na vida pessoal ou a nível profissional. Especificamente no caso literário, dou muitas Graças a Deus por tudo o que aconteceu e realizei ao longo do último ano, inclusive os momentos dramáticos que despoletaram outros melhores, fortalecendo-me. Por isso mesmo, o projecto de Natal tem prioridade e é uma dedicatória a Deus... um agradecimento ao Senhor... uma Acção de Graças na quadra natalícia que integra textos variadíssimos de meia centena de autores (contos, crónicas, reflexões, cartas, poemas, etc); inclui, também, um poema natalino do Papa Francisco e declarações belíssimas proferidas pelo Sumo Pontífice em homilias. Embora pequeno, é o melhor agradecimento! O livro estará à venda no início de Dezembro; é uma bela prenda de Natal que se pode oferecer. Quem o desejar, contacte-nos.



O que o fascina nas obras colectivas?

Acima de tudo, o convívio e interacção com outros autores. Escrever é um acto solitário e eu só partilho os meus textos quando estiver totalmente satisfeito com os mesmos e nada mais tenha de ser corrigido. Organizar é diferente. Implica contacto permanente com autores (leitores também), conheço constantemente novos autores, leio e revejo os seus textos, divulgo, selecciono, produzo obras com diversos temas. Embora se possa tornar um ciclo vicioso, há sempre algo novo. Por outro lado, a maior riqueza de uma antologia reside na variedade dos seus conteúdos, na diversidade dos seus textos, nos diferentes estilos, sensibilidades e graus culturais com que foram escritos. São esses pormenores que me fascinam nas obras colectivas. Além disso, como as pessoas têm cada vez menos tempo para ler, uma antologia oferece a possibilidade de se ler estórias curtas e conhecer diferentes autores em períodos mais breves.



Quais são os planos para os próximos tempos?

Em Dezembro, lançar «Graças a Deus!» e os livros individuais. No início de 2017, os projectos finalizados: «Ninguém Leva a Mal», «Sexta-Feira 13», «Saloios & Caipiras» e «Torrente de Paixões». Seguem-se «Os Vigaristas», «Devassos no Paraíso» e o segundo volume de «A Bíblia dos Pecadores». Serão conhecidas, brevemente, novas antologias para 2017, com temas (sempre distintos) relacionados com viagens, discriminações, policiais e darei continuidade à «Bíblia»; sim, haverá o terceiro volume, com algumas nuances ou particularidades, embora siga a linha da Sagrada Escritura. Para uma fase imediata... «Graças a Deus!» revelou-se uma experiência diferente, gratificante, com feedback imediato aos autores e interacção constante; tenciono repetir esse modelo. Após uma Acção de Graças, vamos celebrar a Vida através da literatura, fazendo um Hino à Vida, para que o Ano Novo seja pleno de realizações. As antologias Sui Generis estão abertas a qualquer participação; novos autores lusófonos são bem-vindos! Além disso, há outras obras individuais no horizonte e, em 2017, desejo um maior envolvimento de autores em projectos Sui Generis, criar novas parcerias e dedicar-me aos meus livros que ficaram de lado: «De Lírios» (contos), «Feiticeiro do Amor» (poesia) e «Juno e Java» (romance).





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11 dezembro, 2016

ALMAS FERIDAS - PREFÁCIO



PREFÁCIO
  

Uma discreta abordagem através das redes sociais, felicitando-me pela narrativa que eu havia publicado numa obra colectiva de outra editora, na Primavera de 2015, desencadeou uma cumplicidade literária que se consolidaria nos meses subsequentes. A interlocutora interessava-se pela minha obra e eu vislumbrei, rapidamente, que ela não era uma simples leitora assaz curiosa: alimentava, de igual modo, sonhos literários. Encontrámo-nos, meses volvidos, enquanto autores participantes, no mesmo concurso literário e o texto de sua autoria atraiu-me. Desde aí, os meus olhos não mais se desviaram do árduo percurso literário que, ela própria, viria a trilhar. Essa mulher é a autora deste Almas Feridas que se acha nas vossas mãos: Suzete Fraga.
No entanto, a luta para singrar no reino das letras por espinhos se modelou. Embora já tivesse vencido o concurso promovido pela Rede Concelhia de Bibliotecas Escolares da Póvoa de Lanhoso no ano lectivo 2011/2012, em que lhe foi atribuído o Prémio do Escalão Público em Geral para maiores de 16 anos, o texto Tortura Silenciosa, que Suzete Fraga apresentou no certame de 2015, deu nas vistas; surpreendeu-me pela positiva e, em simultâneo, pela negativa. Narrava uma estória arrepiante, espantosa, bem ritmada, de uma profundidade incomensurável, que se lia de um fôlego, sem parar. O enredo envolvente transportava para vários cenários, fazendo-nos vibrar e sofrer com a personagem que protagonizava um drama bem real, terrivelmente actual: a violência doméstica e o sentimento de posse. Um tema corrente, pungente, chocante, com um desenlace inesperado, cuja estória relatada, agora compilada neste livro, alenta, infelizmente, para o ânimo daqueles que dizem que o amor é um passaporte para a loucura, tornando praticamente psicopatas aqueles que amam – ou acham que amam. Contudo, dela se extrai uma lição de vida: temos de cercear impiedosamente os tentáculos destruidores do amor, entre eles todas as formas de violência justificadas em nome ou por causa desse tão nobre sentimento.
Embora o conto se apresentasse bem estruturado, bem trabalhado pela capacidade narrativa da autora, com tramas bem encadeadas, cujas peripécias se sucediam até ao clímax, o texto achava-se, na minha perspectiva, um tanto maltratado. Um desleixo que apontei em conversa privada e a própria autora reconheceria uma certa dificuldade nalguns pontos da escrita. Não obstante esse pormenor que poderia ser ultrapassado, mais cedo ou mais tarde, senti-me perante um diamante literário (quase em bruto)... uma autora a ter em conta. A pedra preciosa só precisava ser lapidada. Deixei, nos comentários ao texto, estas palavras: «Os primeiros passos em direcção ao sonho começam bem. Continue a escrever! Continue a aperfeiçoar o que escreveu! Nunca se aborreça de reler os seus textos quantas vezes forem necessárias! Escrever para ser lido requer muito trabalho e você tem capacidade para voar longe.»
Críticas negativas, todavia construtivas, que lhe dirigia despertaram-na para a necessidade de adoptar cuidados específicos. E ela logo me pediria para rever textos destinados a outros projectos. Eu revia e continuava a criticar e a sugerir e a alertar. E ela sempre atenta... ansiando tornar o próximo texto menos imperfeito. Nunca questionou a revisão num texto. Ela própria comparava o trabalho que me enviara com o ficheiro (revisto) que lhe era devolvido, buscando identificar pontos de melhoria. Esse profundo interesse surpreendia-me mais ainda, desconcertava-me de um modo positivo; não é comum um autor analisar o trabalho do revisor – geralmente, perguntam o que o revisor fez, como fez, onde fez. Mas ela não. Ela pesquisava por iniciativa própria, estudava minuciosamente o texto revisto, procurando compreender o que deveria melhorar. Um esforço verdadeiramente louvável.
Em Agosto de 2015, tornara-se já a minha confidente num universo literário bastante agreste em que todos se conhecem virtualmente mas, na realidade, quase ninguém sabe quem é quem. Foi a primeira pessoa a ter conhecimento da minha intenção em organizar uma obra colectiva. Quando tornei público o regulamento de A Bíblia dos Pecadores, antologia inaugural da Colecção Sui Generis, ela já era conhecedora da essência desse projecto, no qual participaria com um drama marcante, inspirado no relacionamento dos bíblicos Caim e Abel: Sombras do Passado; assim como enviaria, logo após, Tentação de Natal, um texto mais descontraído adentrando (um pouco) no campo da sensualidade, para a minha segunda obra colectiva. Se Tortura Silenciosa, em que muitas mulheres se revêem na ilusão associada à bondade e ao amor que modificou a vida da protagonista, denuncia o flagelo da violência doméstica, os temas predominantes nestas duas últimas narrativas – igualmente reunidas neste livro – envolvem, respectivamente, relações fraternas assaz perigosas (entre irmãos conflituosos) e o drama do desemprego.
À medida que estas (e outras) estórias – todas elas vivas, intensas, reais, plenas de humanidade – chegavam às minhas mãos, verificava que eram contos coesos, estruturados, com personagens planas e modeladas, bem caracterizadas, entrando-se facilmente nas narrativas e nos temas escolhidos, visionando-se cada cena, cada emoção, como se de filmes se tratassem. Apresentando sempre uma escrita (cada vez mais) escorreita e fluida, as tramas narrativas entremeadas de excelentes momentos descritivos destilam uma pluralidade de emoções, de esperanças e, em maior número, de frustrações (caso de Tortura Silenciosa), como resultado de uma violência doméstica execrável e devoradora de seres e de vontades, cujos desenlaces nem sempre são os esperados; mas que prendem o leitor até à última linha.
Se eu notava progressos de texto para texto, a autora jamais me questionou sobre a qualidade dos mesmos. Após enviá-los, limitava-se a aguardar uma opinião. Um simples elogio, por mínimo que fosse. Embora a evolução fosse notória, nunca elogiei (até aí) qualquer texto. Receava que ela se acomodasse ao patamar que já atingira – e a caminhada tinha de prosseguir nesse bom ritmo. Justamente por isso, ao invés de lhe transmitir elogios, espicaçava-a, apontando imperfeições a corrigir, arestas a limar, novas dicas a explorar e outros pormenores de suma importância que passam imensas vezes despercebidos e requerem atenção redobrada. Como, por exemplo, a questão dos tempos verbais. E ela assimilou rapidamente que: não deve haver oscilações na mesma frase, ou parágrafo; misturar presente e passado requer um domínio absoluto na escrita; não pode deixar pontas soltas numa narrativa bem desenvolvida e todos os factos têm de ficar explicados, por mais suspense que se possa empregar. Mostrava-se atenta às sugestões, aos pormenores mais ínfimos, ansiosa por continuar a enriquecer a bagagem do conhecimento. E a mesma ansiedade sempre presente... uma ansiedade muda, esperando somente um pequenino elogio. Mas a minha opinião, embora de um modo subtil, era favorável e a crítica, ainda que nalgumas vezes negativa, deveras construtiva. Recusava elogiá-la por opção, porque desagradar-me-ia vê-la adormecer à sombra da bananeira – sim, receava que tal sucedesse. Num curto espaço de tempo, evoluíra a um ritmo alucinante e as suas asas poderiam voar ainda mais longe. Como, de facto, voaram! Eu sentia que conseguiria mais; muito mais. E conseguiu!
Não atingiu a perfeição – nem mentes brilhantes galardoadas com o Prémio Nobel conseguem ser perfeitas. Não obstante, chegou ao ponto de vencer, em Novembro de 2015, um (novo) concurso literário; quiçá mais ambicioso e mais concorrido, em relação ao anterior; desta vez, com uma narrativa bem amadurecida, sagrando-se vencedora, por mérito próprio. Antes de a entidade promotora divulgar os resultados, eu tinha a convicção de que Até à Última Gota... se não vencesse, ficaria, no mínimo, entre os principais classificados. Classificou-se em primeiro lugar. Uma vitória justa. Merecidíssima! De uma autora humilde e dedicada, que tanto penou para atingir esse feito. Só aí me pronunciei – finalmente! – sobre o talento inquestionável de Suzete Fraga. E ela compreendeu o meu silêncio durante toda a sua trajectória, a ausência de elogios enquanto progredia e que estes nem sempre se revelam favoráveis aos melhoramentos. Por vezes, uma crítica negativa, desde que construtiva, é mais benéfica, contribuindo de modo positivo para a nossa felicidade.
O conto Até à Última Gota, incluído igualmente neste livro, é outro drama fascinante, deveras viciante, que afecta inúmeras famílias e faz verter uma lágrima rebelde durante a leitura; arrebata da primeira à última linha e devora-se, num misto de raiva e encantamento, de um fôlego. Descreve outra situação recorrente que podia ser banal, porque envolvendo os malefícios do álcool, tanto na ficção como na realidade, há imensas estórias comuns. No entanto, graças ao estilo realista da autora, que enfatiza o aspecto humano e sofredor da protagonista, com nuances de revolta e coragem, usando o diário dentro da narrativa, o texto enriqueceu sobremaneira, relembrando que a escrita é muito mais do que escrever – pode ser também uma viagem ao mais profundo de cada um de nós, uma descoberta pessoal – e resultando numa ficção com muitas verdades lá incluídas, com uma clareza e fluência de ideias que sensibiliza o comum dos mortais.
Após triunfar no concurso de 2015, as narrativas sucedem-se. Cada vez mais estimulantes, ousadas, vibrantes. A própria autora, confrontada com o peso da responsabilidade, manteve a preocupação por uma evolução contínua, cujo trabalho tornou a ser reconhecido, noutro certame regional, no início deste ano. E todos os seus textos, reunidos neste volume, passaram-me pelas mãos. Conheço-os como se fossem meus. Revejo-me na maioria deles. Kayla: Sede de Vingança, só para citar um exemplo, concebido para a antologia O Beijo do Vampiro, tem um sabor especial: poderia ter sido escrito por mim. Narra a odisseia de uma vampira sedenta de vingança, escravizada antes de ter sido transformada, com mais de duzentos anos de idade, fazendo que o enredo viaje pelos séculos; a minuciosa pesquisa histórica (escravatura, por exemplo) enriquece a trama, confere-lhe maior credibilidade. Este texto poderia ter sido escrito por mim, todavia, não é o caso. Redigiu-o uma alma sensível e maravilhosa em quem muito me revejo que, independentemente do meio geográfico (bastante limitado) em que se encontra inserida e das adversidades (não poucas) que têm vandalizado (de modo assaz feroz) a sua trajectória literária, muito tem pugnado pela concretização do sonho.
À semelhança das suas personagens, a autora de Almas Feridas é uma alma igualmente ferida, num (pequeno) universo editorial que se deseja verdadeiro. Mais honesto. E solidário. Não absorveu influências nefastas nem se permitiu corromper por poderes (menos transparentes) instituídos, tão-pouco se deslumbrou com presentes envenenados ou se deixou beliscar por situações que raiam o absurdo. A sua integridade, mesmo perante falsidades e enxurradas de ácido contra si disparadas, permaneceu inviolável; as convicções inabaláveis. Mantendo-se autêntica, igual a si mesma e fiel aos seus valores, prefere rejeitar um troféu literário conquistado a duras penas para conservar a dignidade. Abdicar do prémio que ganhara em 2015 (edição gratuita de um livro) revelou-se um acto de coragem. Mas também um grito de revolta. Um grito de liberdade.
No entanto, o sonho não esmoreceu. Pelo contrário! As adversidades reforçam desejos. Mesmo remando contra ventos e marés, enfrentando raios e trovões, fazendo das tripas coração, a autora jamais desistiria do seu sonho. Quando resolveu concretizá-lo recorrendo aos próprios meios, eu assumi, com um especial prazer, o apoio incondicional à realização deste sonho há muito sonhado cuja gestação foi verdadeiramente sofrida.
A edição de Almas Feridas tornou-se para mim, enquanto editor e amigo solidário, uma questão de honra. Porque a luta é igualmente minha e considero o livro, embora não me pertença, outro dos meus filhos. E ei-lo agora nas vossas mãos! Almas Feridas. O primeiro parto literário de uma autora resiliente cuja vida sempre viveu em meios menos privilegiados, onde impera a escassez de oportunidades. Sendo, também, uma das primeiras obras individuais da Sui Generis, criada no meio de uma forte tempestade, bem turbulenta, que Suzete Fraga ajudou a enfrentar. Almas Feridas é editado na mesma fornada de Amargo Amargar, obra que marca, de modo similar, a realização de outro sonho: da pessoa que redige estas linhas. Dois percursos paralelos, duas lutas sangrentas, duas quimeras realidade tornadas. De mãos dadas. Em simultâneo! Isso demonstra que, havendo força de vontade, tudo se consegue. Basta querer! Haja luta e perseverança! Nunca se desista do objectivo, por mais sombrio que se apresente o horizonte. Há que transformar sonhos em realidade! Porque a esperança é a última que morre – e parar é sinónimo de morrer.
Este livro, cujo título reflecte magistralmente os conteúdos, reúne dezenas de textos que a autora escreveu, em duas partes: na primeira, contos destinados a concursos literários e obras colectivas de várias editoras; na segunda, pequenas estórias, autênticos exercícios de literatura, redigidas para campeonatos de escrita criativa em que a autora participou.
Todas as narrativas são criativas e as abordagens geniais, dotadas de veracidade, um realismo que arrepia. Encantam, prendem, deslumbram, emocionam. Envolvem o leitor em aprazíveis e elegantes teias de aranha das quais só se liberta após ter digerido as derradeiras palavras. Tramas marcantes, profundas, diversificadas, que confirmam o real talento e versatilidade de quem as concebeu – um talento enorme, abundante! «São temas cuja fonte é inesgotável, infelizmente», diz a autora. «Não requer pesquisas. Na família, na casa ao lado, na rua mais abaixo, na televisão... basta piscar um olho para surgir uma história. E, claro, nas minhas histórias, posso fazer justiça ou dar o final feliz que raramente acontece na vida real. Por outro lado, tenho uma leve esperança de poder ser uma influência positiva para quem passa por estes dramas.»
É um facto: Suzete Fraga possui uma capacidade imensa de expressar emoções através da escrita, de expor assuntos perigosos de uma forma assaz deliciosa, de trabalhar qualquer tema com a beleza das suas palavras. Cada estória é como um filho e todas elas são dignas de serem lidas, quer pelo estilo único e cativante, quer pelos conflitos nos enredos, com temas para temer a vida! Poderia analisar outras narrativas além das que citei, cuja principal característica é sempre a dramaticidade – porque todas as pessoas sofrem; todas as almas são feridas. O Chamamento do Cipreste (texto recheado de superstições envolvendo o sobrenatural) ou Têxteis: A Normalidade da Anormalidade (aventura frenética no local de trabalho, de enlouquecer qualquer ser humano), por exemplo. Privilegiei dar relevo ao percurso nada facilitado da autora, para conseguir furar (também) a muralha de humildade que lhe bafeja o espelho, cujo êxito agradece inclusive às pedras do seu caminho («Por cada calhau que me aparece à frente, surgem sempre dois ou três anjos para o remover»), reservando as emoções ofertadas por cada “devaneio literário” às vossas leituras. Que serão, seguramente, prazenteiras.

Isidro Sousa




EDIÇÕES SUI GENERIS



06 dezembro, 2016

GRAÇAS A DEUS! - 51 AUTORES


GRAÇAS A DEUS!

ANTOLOGIA DE NATAL
UMA ACÇÃO DE GRAÇAS


Confirmarei, dentro de alguns dias, a data definitiva para a sessão de lançamento (só depende do dia em que a gráfica fará a entrega dos livros). É meu desejo agendar para sábado dia 17, mas para isso é necessário que os livros fiquem impressos até quarta dia 14 e não tenho essa garantia (a gráfica, nesta altura em que tem imensas encomendas, não se compromete com prazos de entrega). Caso contrário, terei de agendar para um dia útil (quarta, quinta...) da semana seguinte, antes do Natal, Se os livros ficarem prontos na quinta dia 15, por exemplo, não chegam atempadamente a Lisboa para sábado seguinte (porque são enviados – primeiro – de Espanha para Gaia, e depois de Gaia para Lisboa). Assim que tiver feedback em relação à entrega, confirmarei logo a sessão de lançamento.

Em relação aos livros que já foram reservados, serão enviados imediatamente por correio aos autores, no mesmo dia em que a Transportadora os entregar em Lisboa (não vamos esperar que o lançamento ocorra). As embalagens já estão a ser providenciadas, para que não haja demoras nos envios...

Fica aqui a capa e contracapa de «Graças a Deus!», com o número final de autores que participam nesta Acção de Graças.



51 AUTORES:

Álvaro Moreyra
Amélia M. Henriques
Ana Maria Dias
Angelina Violante
Antônio de Pádua
Cadu Lima Santos
Carlos Arinto
Carlos Pompeu
Carmen Jara
Cauline Sousa
David Sousa
Diamantino Bártolo
Eduardo Ferreira
Elicio Santos
Everton Medeiros
Fernanda Kruz
Guadalupe Navarro
Isa Patrício
Isaac Soares de Souza
Isabel Martins
Isidro Sousa
Jeracina Gonçalves
João Pedro Baptista
Joaquim Matias
Jonnata Henrique
Júlio Gomes
Lia Molina
Lucinda Maria
Madalena Cordeiro
Marcella Reis
Maria Alcina Adriano
Maria Isabel Góis
Marizeth Maria Pereira
Mônica Gomes
Natália Vale
Neca Machado
Nicol Peceli
Paula Homem
Paulo Galheto Miguel
Ricardo Solano
Rogério Dias Dezidério
Rosa Maria
Rosa Marques
Sandra Boveto
Sara Timóteo
Scarleth Menezes
Sérgio Sola
Sténio Cláudio Afénix
Suzete Fraga
Tânia Tonelli
Teresa Morais


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