20 janeiro, 2016

NINGUÉM LEVA A MAL - REGULAMENTO



Antologia de Estórias Carnavalescas
Organização e Coordenação: Isidro Sousa
Colecção Sui Generis
   
«Ninguém Leva a Mal» é um projecto literário que visa seleccionar textos inéditos, subordinados ao tema do Carnaval, para publicá-los sob a forma de um livro em data posterior ao período do Carnaval (durante a Primavera), uma antologia de contos literários integrada na Colecção Sui Generis, dirigida por Isidro Sousa. Porque o Carnaval é sinónimo de Diversão, desejamos reunir estórias carnavalescas recheadas de Aventura, Humor e Sensualidade.

Desafiamos todos os Autores interessados em participar neste projecto a redigirem uma aventura, uma sátira, uma comédia, uma intriga ou qualquer outro género que contenha humor e sensualidade. No entanto (porque no Carnaval não existe somente diversão), serão considerados igualmente (no processo de selecção de textos) dramas, romances, policiais, peças de teatro e outros géneros narrativos que incluam acção, suspense, humor negro, terror ou mesmo emoções como a paixão arrebatadora, a obsessão perigosa ou o amor genuíno. Existe um vasto leque de géneros e ingredientes que os Autores poderão explorar – ficando ao critério de cada um o modo como deseja narrar a sua estória, desde que o resultado final se traduza num conto literário que privilegie a ambiência carnavalesca – uma trama baseada, vivida ou simplesmente inspirada no Carnaval, podendo ser real ou fictícia.

O organizador/coordenador convida todos os Autores Lusófonos interessados em participar nesta Antologia a escreverem uma nova história, uma trama de que gostem, inspirada na época carnavalesca, e submetê-la, até dia 29 de Fevereiro de 2016, a esta Antologia. Todos os Autores são bem-vindos, incluindo aqueles que escrevem para a gaveta e nunca ousaram publicar... Eis a oportunidade da vossa estreia literária numa grandiosa obra colectiva!

Participem!... Surpreendam-nos!

Leiam atentamente o Regulamento e não hesitem em contactar o Coordenador para dissipar qualquer dúvida. Bom trabalho!



REGULAMENTO | CONDIÇÕES DE PARTICIPAÇÃO

1.   «Ninguém Leva a Mal» é um projecto literário independente, integrado na Colecção Sui Generis, organizado e coordenado por Isidro Sousa, que visa seleccionar textos inéditos, escritos na Língua Portuguesa, de Autores Lusófonos, que residam em qualquer parte do Mundo, independentemente das suas raças, crenças, orientações sexuais e identidades de género, para serem publicados num livro. Só se aceitam participações que obedeçam a este Regulamento. A utilização do Acordo Ortográfico é facultativa.

2.   Cada Autor pode apresentar 1 (um) texto em Prosa – sob a forma de conto – com o mínimo de 1 (uma) e o máximo de 6 (seis) páginas A4. Os textos (revisados pelos Autores) devem ser digitados no Word, Times New Roman, letra tamanho 12, espaçamento simples entre linhas e parágrafos. Rejeitam-se formatos de apresentação que sejam diferentes do Word.

3.   Os contos a serem apresentados devem obedecer ao tema do Carnaval e conter, como ingredientes preferenciais, qualquer item sugerido na introdução deste Regulamento, ficando o desenvolvimento dos mesmos ao critério dos seus Autores. «Ninguém Leva a Mal» não é um projecto Erótico, porém, os textos podem conter Erotismo enquanto forma de arte, desde que devidamente enquadrado no contexto. Textos exclusivamente eróticos serão desconsiderados.

4.   Os textos devem ter títulos próprios (diferentes do nome da Antologia) e ser enviados para o email letras.suigeneris@gmail.com, com a referência «NINGUÉM LEVA A MAL» na linha de assunto, até ao dia 29 de Fevereiro de 2016. Os Autores podem assinar os textos com Nome ou Pseudónimo – devem expressar claramente, logo após o título, qual deles e como assinará. Além disso, devem declarar no corpo do email que aceitam as condições do Regulamento (caso contrário, as participações serão desconsideradas) e enviar uma nota biográfica (até 10 linhas) para nosso conhecimento, endereço de email e contacto telefónico. O Coordenador reformulará as notas biográficas (para integrarem um apêndice no qual constarão os Autores por ordem alfabética) e ignorará qualquer informação de caracter pessoal que as mesmas possam conter (dados pessoais, nomes de familiares, etc); privilegiar-se-á somente, para efeitos de publicação, descrições, gostos ou hobbies do Autor, ano e local de nascimento, localidade onde reside e respectiva obra (participações em projectos literários colectivos, livros individuais, distinções, trabalhos jornalísticos, etc).

5.   A selecção dos textos será efectuada pelo Organizador e o resultado da selecção será divulgado num prazo máximo de duas semanas, após a data limite para recepção dos trabalhos. Todos os passos efectuados na produção desta obra colectiva (ou eventuais alterações ao Regulamento) serão sempre comunicados aos Autores intervenientes.

6.   Não existe taxa de inscrição/participação. Porém, os Autores seleccionados que cumpram o Ponto 2 deste Regulamento devem adquirir 2 (dois) exemplares da obra finalizada e expressar claramente esta intenção no corpo do email – caso contrário, desconsiderar-se-á a submissão do texto.

7.   Existe a possibilidade de o Autor ultrapassar o limite de 6 páginas A4 referido no Ponto 2, desde que se comprometa a adquirir (obrigatório!) mais um livro por cada duas páginas adicionais – até ao limite de 14 (catorze) páginas. Ou seja… se o texto tiver entre 7 e 8 páginas, deve comprar 3 livros; se tiver entre 9 e 10 páginas, deve comprar 4 livros; se tiver entre 11 e 12 páginas, deve comprar 5 livros; se tiver entre 13 e 14 páginas, deve comprar 6 livros. Se for este o caso, deve fazer uma comunicação prévia por email, para que este ponto fique devidamente clarificado.

8.   O PVP (preço de venda ao público) da Antologia será definido após a selecção de textos e paginação do livro, tendo em conta o número de páginas da obra a ser editada. Autores participantes podem adquirir todos os exemplares que pretenderem, sempre com desconto de 10% sobre o PVP.

9.   O pagamento dos livros será efectuado, por Transferência Bancária (ou através do sistema Paypal, no caso de autores que residam fora de Portugal), num prazo máximo de duas semanas após a divulgação dos textos seleccionados (indicaremos os dados necessários, por email, a cada um) e os Autores devem enviar ao Coordenador um comprovativo de pagamento para que o mesmo seja validado. Os exemplares adquiridos serão entregues durante a sessão de apresentação da obra finalizada e enviados por CTT, após essa data, a quem não estiver presente no lançamento – aos envios por correio acrescem as despesas dos Correios.

10.       A não liquidação dos respectivos exemplares no prazo estipulado significa incumprimento do Autor e implica a exclusão imediata do seu texto, salvo situações excepcionais previamente justificadas. Se não for possível excluir essas participações (por razões de paginação do livro em estado avançado ou já em fase de pré-impressão), o Autor incumpridor fica inibido de participar em quaisquer outros projectos literários organizados para a Colecção Sui Generis até que regularize a situação.

11.       O envio de um texto para o email indicado no Ponto 4 implica (automaticamente) a aceitação de todas as normas deste Regulamento e a autorização dos direitos de publicação na antologia «Ninguém Leva a Mal», sem qualquer outra contrapartida além do desconto de 10% nos exemplares adquiridos pelos Autores desta obra colectiva. A cedência de publicação será confirmada com a Transacção Bancária, do valor correspondente à aquisição dos livros, para o IBAN que será posteriormente facultado (ou para o email, no caso de Paypal) – não havendo, desse modo, necessidade de preencher qualquer documento formal, excepto a declaração no email (referida no Ponto 4) atestando que aceitam as condições do Regulamento.

12.       «Ninguém Leva a Mal» é uma Antologia Sui Generis que será publicada com a chancela da EuEdito. A Sui Generis (representada pelo Organizador) e a editora EuEdito não reservam a exclusividade ou os direitos dos trabalhos editados. Após o lançamento do livro, cada Autor pode utilizar livremente os seus textos noutras publicações que considere pertinentes.

13.       Se porventura se verificar algum tipo de infracção na originalidade, autenticidade e autoria de um texto apresentado, será da exclusiva responsabilidade do respectivo Autor, ficando o Organizador e a Editora isentos de qualquer responsabilidade legal sobre a infracção cometida – nesse caso, o Autor em questão responderá perante a Lei por plágio, cópia indevida ou outro crime relacionado com direitos de autor.

14.       Recomenda-se que os Autores adiram ao grupo «Antologias Sui Generis» no Facebook através do qual o Organizador/Coordenador se manterá em contacto permanente com todos os participantes. Os Autores podem também seguir os blogues e as páginas abaixo indicadas. Para esclarecimento de dúvidas ou informações adicionais, devem contactar por email.


Desde já, estão todos convidados a participar nesta antologia de Carnaval... porque Ninguém Leva a Mal. Esperamos as vossas tramas carnavalescas… Surpreendam-nos! Sejam bem-vindos... e bom trabalho!





NINGUÉM LEVA A MAL
Uma antologia Sui Generis com a chancela EuEdito
Colecção Sui Generis | Organização e Coordenação: Isidro Sousa

Página Letras Sui Generis https://www.facebook.com/letras.suigeneris 
Blogue Letras Sui Generis http://letras-suigeneris.blogspot.pt
Página Pessoal do Organizador www.facebook.com/isidro.sousa.1
Página Literária do Organizador www.facebook.com/isidro.sousa.2
Blogue De Lírios (do Organizador) http://isidelirios.blogspot.pt


SOBRE O ORGANIZADOR
Isidro Sousa nasceu em 1973, numa aldeia remota das Terras do Demo, e vive em Lisboa. Editou a revista Korpus durante 12 anos (1996/2008), da qual foi o principal fotógrafo e redactor, dirigiu o jornal Púbico (2008/2012) e produz anualmente o guia turístico Lisbon Gay Guide, que se distribui gratuitamente em espaços específicos da comunidade LGBT. Desde 2014, participou em duas dezenas de obras colectivas (Portugal e Brasil) e foi distinguido com o 2º Prémio no 5º Concurso Literário da Papel D’Arroz Editora. Organizou e coordenou várias antologias: «1ª Antologia de Literatura Homoerótica Portuguesa» (com o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa), «A Bíblia dos Pecadores» (uma antologia Sui Generis com lançamento agendado para Fevereiro) e «Boas Festas» (publicada em Dezembro passado pela Silkskin Editora). Dirige a Colecção Sui Generis e tem a decorrer, na data presente, duas outras antologias: «O Beijo do Vampiro» (até 27 de Janeiro) e «Vendaval de Emoções» (até 31 de Janeiro). Tenciona editar brevemente: «De Lírios», uma compilação de textos publicados em várias colectâneas e concursos, «O Pranto do Cisne» (contos homoeróticos) e «Juno e Java» (romance). «Ninguém Leva a Mal» é a sexta antologia literária que organiza e coordena, sendo a quarta que integra a Colecção Sui Generis.



COLECÇÃO SUI GENERIS
A Bíblia dos Pecadores – Do Génesis ao Apocalipse (44 Autores)
O Beijo do Vampiro – Antologia de Contos Vampirescos (a decorrer)
Vendaval de Emoções – Antologia de Poesia Lusófona (a decorrer)
Ninguém Leva a Mal – Antologia de Estórias Carnavalescas


05 janeiro, 2016

A BÍBLIA DOS PECADORES - CAPA DEFINITIVA DA ANTOLOGIA


A BÍBLIA DOS PECADORES
Do Génesis ao Apocalipse

Antologia de textos literários
inspirada em episódios bíblicos

Organização Isidro Sousa
Colecção Sui Generis
Editora EuEdito

Esta é a Capa definitiva desta grande antologia que tive o privilégio e a honra de organizar e coordenar ao longo dos últimos meses de 2015. A primeira Capa, anteriormente apresentada neste blogue e nas redes sociais, no passado dia 4 de Novembro de 2015, fica totalmente sem efeito. «A Bíblia dos Pecadores» é (sempre foi) um projecto independente, idealizado, concebido, organizado e coordenado por mim – Isidro Sousa – sem qualquer interferência externa, fosse de quem fosse. A antiga editora, através da qual previa editar esta antologia, encontra-se definitivamente afastada deste projecto (e de todos os meus projectos literários), desde o passado dia 26 de Novembro de 2015 (como anunciei num comunicado, que publiquei neste blogue) – em virtude de não ter cumprido as condições do acordo inicialmente estabelecido (verbalmente) e de ter recusado a assinar (ou apresentar para assinar) um contrato de edição que discriminasse todas as condições anteriormente estipuladas. Sem a existência de um contrato assinado, deixou de existir qualquer possibilidade de editar esta antologia através da referida editora. É importante referir que a própria editora (ou a pessoa responsável pelo grupo editorial que congrega essa editora) reconheceu publicamente, através de um email que enviou aos autores envolvidos (ou pelo menos àqueles a cujos contactos tinha acesso), que nada tinha a ver com o projecto «A Bíblia dos Pecadores», que esta antologia não lhes pertencia e nunca lhes pertenceu, sendo a sua continuidade e respectivo êxito ou fracasso editorial da exclusiva responsabilidade do seu organizador, ou seja, Isidro Sousa.

Consequentemente, após o rompimento com a antiga editora ter sido consumado e tornado público, decidi fundar, no início de Dezembro de 2015, a Colecção Sui Generis, que dará origem a uma futura editora independente e integra «A Bíblia dos Pecadores» como sendo o seu projecto inaugural, e estabeleci uma nova parceria, em moldes totalmente honestos e transparentes, com a editora EuEdito, através da qual serão editadas todas as obras da Colecção Sui Generis.

A nova Capa desta antologia foi concebida por Pedro Góis, um jovem designer que irá colaborar com os futuros projectos da Colecção Sui Generis. Desde já, o meu sincero e profundo agradecimento a este profissional bastante talentoso – e também a Paulo Lobo, o editor responsável pela EuEdito.

Deixo, já a seguir, a Capa e a Contracapa com a relação completa (definitiva) dos 44 Autores, por ordem alfabética, que integram «A Bíblia dos Pecadores», aos quais agradeço (novamente) as suas participações e o voto de confiança que me deram, ao não desistirem deste magnífico projecto.



Mais informações podem ser encontradas no novo blogue que criei para a Colecção Sui Generis. Neste endereço: http://letras-suigeneris.blogspot.pt


04 janeiro, 2016

MAU NATAL


Texto de FILIPE VIEIRA BRANCO
  
O meu nome é Baltasar e esta é a pior história de Natal que vais ler em toda a tua vida.
Mentira. O meu nome não é Baltasar, mas o resto é verdade. Este é o pior conto que se pode revelar a alguém. E não vou dizer-te o meu verdadeiro nome. Não posso. Nem interessa. O importante agora é ir tirar da cara esta maquilhagem que me deixa preto todos os dias. Sim, preto, com um ar africano, das arábias, sei lá. É daí que vem o nome Baltasar, como o Rei Mago que levou o incenso ao menino Jesus. Ou terá levado a mirra?
A água gelada, que corre da única torneira desta casa de banho imunda, interrompe-me os pensamentos quando choca contra a minha pele enegrecida pela tinta. Mas também pode ter sido ele a levar o ouro. Não sei. Ninguém sabe. Só sei que agora dava-me jeito algum ouro. As minhas mãos retraem-se com o frio da água e é forçadamente que esfrego a cara para me livrar deste disfarce de rei.
Rei? Um pelintra, assentava-me melhor. Mas talvez esse não fosse um verdadeiro disfarce, se pelintra é aquilo que realmente sou. E andei eu a estudar teatro durante anos para ficar com isto, condenado aos papéis que já ninguém quer. Cala-te, Rafael. Ganha juízo, sabes bem que isto nem sequer é um trabalho de actor. Qualquer um podia fazê-lo. Bem... acabei por te contar o meu nome real, não apenas o da realeza. Mas não faz mal. Fica assim. Afinal que mal poderás fazer-me com o meu nome?
O centro comercial já fechou; as luzes já diminuíram aquela intensidade que ofuscava; e já não há clientes, pois já todos fugiram apressados com as suas compras de última hora. Restam apenas alguns empregados e lojistas ansiosos para correrem para as suas famílias. Eu não estou ansioso. Já tirei a coroa, as vestimentas extravagantes e a tinta escura. Agora sou apenas eu, na minha aparente normal aparência.
Passo uma última vez perto do trono do Pai Natal e do Presépio, onde ainda há poucos momentos eu encarnava o tal mago Baltasar, que dizem ter sido um rei. A mim, agora que o conheço e bem, não me parece que fosse algum ser poderoso. Seria apenas mais um rico aborrecido que quis ver o famoso recém-nascido de perto. Eu também teria ido de propósito à gruta só para vê-lo com detalhe, mas dificilmente teria algo para lhe oferecer, para além do meu instintivo escárnio.
– Vais ficar? – anuncia uma voz atrás de mim. Só ao fim de alguns segundos é que percebo que esta era uma questão, uma pergunta.
– Não, não vou ficar. – declaro sem me virar para encarar o meu colega de trabalho, o Belchior. Para ser sincero, nem recordo mesmo o seu nome, devendo-se muito isto à extrema indiferença da sua existência perante a minha pessoa.
Não quero que me veja assim desfigurado. Quero dizer: sem estar vestido de rei. Portanto, apenas permaneço silencioso até ouvir os seus passos afastarem-se no eco do shopping vazio. Entretanto fixo os meus olhos no dourado tremeluzente de uma estrela que brilha por cima do presépio, concentrando-me nesta luz até que tudo à sua volta fique desfocado.
Passou não sei quanto tempo, mas foi o suficiente para enfurecer o segurança que vem avisar-me que tenho de abandonar o edifício. Estava completamente perdido na avenida das memórias, disperso por entre imagens dos anos anteriores, em que eu era sempre o Pai Natal. Odiava. Mas era mesmo um ódio de morte, de me levar a ficar durante horas a beber álcool pela noite dentro, nos bares mais baratos da cidade. Bebia e fumava. E quando o dinheiro sobrava, ainda conseguia arranjar alguma erva para acrescentar ao podre tabaco. Essa era a única forma de esquecer os risos maquiavélicos das criancinhas irritantes que se sentavam no meu colo a pedir presentes a um completo estranho que abominava as suas existências, tão curtas quanto enfadonhas.
E foi por isso que este ano decidi que não iria mais ser o Pai Natal de ninguém. Claro que ao escolher o papel de Baltasar, não esperei que se tornasse logo tão aborrecido a cada dia, com isto de estar tão mascarado. Os outros dois não têm nem metade do trabalho que eu tenho para me transformar naquele personagem. E ganham o mesmo: tão pouco quanto eu. Mas tinha de ser assim, pois precisava de um completo disfarce. Também foi por isso que mudei de cidade e vim fazer figuras tristes para um sítio onde ninguém me conhece. E, claro, há outro grande motivo, não diria razão, que justifica tudo isto. Mas não posso dizer-te já do que se trata. Não quero estragar-te já a surpresa. Tenho estado aqui a contar-te isto falando no presente, mas esta história aconteceu faz já algum tempo, por isso deixa-me ajustar aqui a engrenagem do meu complicado cérebro, para passar a falar-te no passado. Assim fará mais sentido.
Naquela noite, na véspera de Natal daquele ano, sentia-se um frio dos diabos. E eu não era, nem sou, religioso, mas dei por mim a pedir a Deus que me levasse algum calor; isto enquanto saía do centro comercial e encarava subitamente o ar congelante da rua, que em toda a sua extensão estava agora deserta. Pus as mãos nos bolsos e segui caminho, esperando encontrar algum café aberto àquelas horas da noite. Passava pouco das dez. Tive sorte. Encontrei uma tasca, que de início tresandava a vómito, mas que tinha um vinho bom e barato. E o seu interior era, apesar de tudo, quente e agradável. No pequeno espaço, só eu e o velho taberneiro por detrás do balcão. Umas luzes de múltiplas cores piscavam eufóricas atrás da sua cabeça, numa linha mais ou menos recta que se estendia luminosa à frente de algumas garrafas no expositor. Quando o brilho da luz intensificava, por alguns segundos, podia ver perfeitamente o amontoado de pó que ali se tinha juntado com o tempo. O vinho seco escorregava-me pela garganta, quanto concluí que aquelas luzes não estavam ali só para aquele Natal. Já tinham vivido e presenciado sabia-se lá quantas épocas festivas.
Para festas não estava o homem. Carrancudo, calado e de olhar pesado, não desviava a atenção da diminuta televisão que arrastava as chatas notícias do dia. Tradições de Natal e consumismo pareciam ser os únicos temas do momento. E foi mesmo por isso que aproveitei para iniciar alguma conversa.
– Então hoje não fecha a casa? – disse-lhe de rompante, ao mesmo tempo fazendo sinal para me reabastecer o copo de vinho.
– Enquanto houver clientes, não fecho.
– Mas não estava aqui ninguém antes de eu entrar...
– Tinha acabado de sair. – disse-me isto tudo como se fossem muitas palavras, sem nunca tirar por um único momento os seus olhos cansados daquele televisor. Parecia-me hipnotizado, o raio do homem, ou simplesmente estaria a fazer força para me esbofetear mais e mais com a sua indiferença, bem disfarçada de uma altivez aguda.
– Família, não tem? – atirei a picar, finalmente despertando a sua finita atenção na minha direcção, exactamente quando uma jornalista carregava o tom da voz e começava a falar de um homem que tinha assassinado a mulher. As notícias da época tinham aparentemente chegado ao fim.
– Tenho, tenho. Um filho – revelou o homem – mas só vou para lá à meia-noite, quando os netos abrem as prendas.
Parecia ter mesmo acordado o velho, por algum milagre.
– E você, não tem família? – continuou, pondo-se a lavar alguns copos num alguidar com água escura.
– Eu não tenho. Quero dizer... claro que tenho, mas estão todos longe.
– Filhos?
– Dois. E uma ex-mulher, que fugiu com eles para o norte, depois de nos divorciarmos.
– Grande novela. – cuspiu, entre uma tosse profunda que parecia arrastar-se há muito tempo.
– Diria mais “grande filme”, que isto de novela tem pouco. – e num trago bebi o vinho que já me parecia mais azedo.
Sem hesitar, voltou-me a encher a medida.
– Beba lá isso depressa, que quero fechar a tasca. – ordenou.
– E por acaso você pensa que me pode expulsar assim? – ripostei nervoso.
– Este... paga a casa. E reclame pouco, senão vai já para o olho da rua e sem o beber.
Nisto agarro no copo e, levantando o braço com violência, bebo tudo de rompante, como se fosse o último segundo que tivesse para o fazer. Ao deixar cair o braço, estilhaço o copo pelo balcão, abrindo de imediato uma pequena ferida na mão que o segurava. O sangue mistura-se com o vermelho do vinho. O homem sai de trás do balcão, parecendo ter ganho uma velocidade repentina, agarra-me pelo colarinho e arrasta-me até à porta, pontapeando-me contra a rua, devolvendo-me ao ar frio e fechando de imediato, só para si, o calor do estabelecimento, com um estrondo que por pouco não rachou a porta ao meio.
– Boa noite ó anormal! – gritei, sem certeza se me terá ouvido ou não.
A minha sorte foi que o efeito do álcool já estava a deixar-me anestesiado. E foi assim, meio adormecido, que caminhei sozinho pela rua comprida, novamente debaixo de um céu estrelado, que mal se deixava observar através de tantas luzinhas que piscavam por toda a parte, tentando forçadamente ornamentar algum tipo de felicidade que eu não tinha nem iria ter. Desgraçado, abandonado, mal-amado. Era esse o meu constante estado nos últimos meses. Não penses que estou a tentar fazer com que tenhas alguma pena de mim, pois quando souberes o que fiz não irás ter algum resquício de compaixão por mim. E não quero dar-te trabalho ao fazer-te gostar de mim para depois teres que passar a odiar-me. Mas não te conto já. Primeiro deixa-me explicar como é que acabei essa noite no quarto da minha pensão com uma prostituta.
Ia a descer a rua íngreme que levava à tal pensão onde tinha alugado um quarto recentemente. Barato, claro, como tudo na minha vida. Portanto, ia a descer a rua quando avistei uma figura exuberante, uma mulher de uns cinquenta anos que não estava disfarçada de algum personagem da quadra natalícia, mas que chamava tanto ou ainda mais à atenção do que eu com os meus trajes de rei santificado. Com a temperatura a roçar os zero graus, esta mulher tinha uma saia muito curta, desadequada e ornamentada com lantejoulas prateadas. Afirmo com clareza que o piscar das decorações da rua reflectia naqueles pequenos pormenores que assentavam terrivelmente nas suas pernas semi expostas ao gelo da noite naquela esquina. Por cima, a mulher estava mais tapada, com um casaco branco rechonchudo.
– Não tens frio? – perguntei naturalmente, ao parar diante da curiosa personagem.
– Se tens frio, aqueço-te eu. – foi directa ao ponto.
– Espera lá que já percebi... mas também trabalhas hoje? É véspera de Natal, pelo amor de Deus! – desabafei, sem certeza de se estava a lamentar-me por ela ou pela minha própria miserável situação.
– Eu sou patroa de mim mesma, sou eu que decido quando trabalho. E nesta noite há sempre algum solitário que quer companhia. Ganha-se o triplo. Vamos? Por cem euros faço tudo...
– Por tão pouco? – ri alto, sentindo novamente o efeito do vinho a subir-me à cabeça.
– Queres dar mais? Dá o que quiseres, filho.
– Mas pensas que eu sou o quê? Não preciso de pagar para ter companhia.
– Tens a certeza? Com esse bafo a vinho... – e com isto a mulher prendeu-me definitivamente, deixando-me obcecado pela sua frontalidade, pela forma como não tinha medo algum de confrontar-me com aquelas palavras amargas. De alguma maneira, ela estava a trazer de volta o realismo à minha vida, pelo menos naquele momento.
– Passa a noite comigo. Pago-te, mas tenho pouco.
– Quanto?
– Pouco mais de sessenta euros...
– Depende do que quiseres fazer.
– Falar. Só falar. – disse-lhe, sincero, despoletando nela uma gargalhada demoníaca, que parecia saída de algum filme de parca qualidade. – Ouve. Estamos só os dois, cada um abandonado à sua maneira. Não tem mal nenhum se fores comigo para a minha pensão... para falarmos.
Fitei-a de alto a baixo, jamais teria algum tipo de sexo com ela, pois parecia-me asquerosa, fisicamente falando. Nem o seu longo cabelo loiro era suficiente para lhe dar alguma beleza. Mas apetecia-me tê-la como companhia, e esse era apenas mais um dos meus estranhos desejos, que tantas vezes me tinham condenado. Tive que lhe dizer mais algumas palavras, que ornamentei cautelosamente, não querendo insultar a sua pouca inteligência, e finalmente a mulher lá se decidiu a ir comigo, talvez motivada por querer entrar num lugar mais quente.
O quarto da pensão cheirava a mofo, mas calculei que ela também não estivesse habituada a grandes luxos. Acendi o primeiro cigarro das muitas horas desse dia e deixei o fumo invadir o reduzido espaço, mesmo antes de a ouvir dizer:
– Não tens ideia de quantos já me disseram que queriam só falar, e que depois acabaram por fazer tudo menos conversar, por isso se queres é para passar já ao que interessa.
Começou a deslizar a saia para baixo, preparando-se para despir-se, mas a minha mão trémula parou-a a tempo.
– Senta-te, mulher. Não me sinto atraído por ti. És muito velha e feia.
Pelo menos deliciei-a com as minhas frontais palavras, dando-lhe a provar um pouco do seu saboroso veneno, que ela pareceu adorar, largando-se a rir enquanto se sentava na borda da cama.
– E tu estás sozinho porquê ó bonacheirão?
– A minha mulher deixou-me. Pediu o divórcio. E eu dei-lho.
– Então que é que tu lhe fizeste para ela se chatear? – disse já mais séria, acendendo também um cigarro, contribuindo de imediato para a nuvem de fumo que já se formava dentro do quarto.
– Meti-me nas drogas. Leves. Mas a cabra não gostava... e levou-me os filhos. – disse-lhe, mentindo na última parte, sem sequer desconfiar de que dentro de alguns momentos esta mulher iria ficar a saber toda a verdade de uma forma, literalmente, estrondosa.
– Eu acho que ela deixou-te porque tu metes medo, pareces maluco... – e fez um sinal com o dedo junto à cabeça, como que a carregar a expressão e a dar mais intensidade à sua pouco eloquente afirmação.
– E no entanto aqui estás tu no mesmo quarto que eu.
Foi então que aconteceu. Lembrando-o agora, parece que o vivi em câmara lenta. A luz do corredor, exterior ao quarto, acendeu-se. Ouviram-se passos apressados, de vários pés, várias pessoas. Ouviu-se o recepcionista da pensão a bater na porta, que tinha sido trancada por mim, pela parte de dentro, de uma forma que não pudesse ser aberta por fora. Soaram as doze badaladas da meia-noite, ao mesmo tempo que murros soaram contra a porta de madeira. A mulher, assustada, levantou-se para fugir. Percebeu que não tinha por onde escapar e levou as mãos à cabeça quando ouviu alguém gritar: “Polícia! Abre a porta!”. Eu relaxo-me, deixo-me descontrair, inspiro uma nova vaga de fumo, sinto o meu corpo receber o tabaco, como que a abafar os gritos da polícia do lado de lá. E em menos tempo do que esperava, a porta é arrombada; cai lentamente contra o chão, estatelando-se do nosso lado, aos pés da mulher que tremia como uma vara ao vento. Dois polícias, com ar de mauzões, entram pelo quarto adentro, agarram-me com força, algemam-me e recitam alguma poesia policial, pelo menos segundo o meu psicótico entendimento, mas nunca conseguem retirar-me o sorriso da cara. De facto, esse foi um dos raros momentos em que em todo esse tempo sorri com tanta satisfação. Encarei a mulher, antes de ser arrastado para fora do cubículo, e vagarosamente disse-lhe assim:
– Eu matei aquela cabra. Boas festas!
Teria pago, bem mais do que os míseros sessenta euros, para ver a cara de espantada que a mulher terá feito perante a minha confissão.
Eu avisei-te que esta era a pior história de Natal de sempre. Sim, matei a minha mulher, mesmo depois de lhe assinar os papéis que a livrariam de mim. Não sei por que a matei, se por impulso ou por premeditação, mas voltaria a espetar-lhe aquela caneta mais sete vezes na sua adorável garganta. Não suportava mais ouvi-la. Calei-a de vez, pelo menos. Nojenta. Já passou muito desde que fui preso. Estou há exactamente trinta e seis minutos de seguir para o corredor da morte. Hoje é o Dia de Reis. 6 de Janeiro de um ano qualquer e nem neste dia os carrascos tiram férias.
Mau Natal, companheiro.


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in «Boas Festas», páginas 70-78
Silkskin Editora, Dezembro 2015


NOTA BIOGRÁFICA DO AUTOR
Filipe Vieira Branco estudou Humanidades, seguindo depois para Ciências da Comunicação. As aulas de Guionismo e Escrita Criativa permitiram-lhe absorver técnicas para canalizar a sua criatividade. Em 2015 publicou o seu primeiro livro, «O Dia em que Nasci» (Capital Books), e participou numa colectânea da mesma editora. Está actualmente a participar num projecto do Serviço Voluntário Europeu, em Itália, tendo já realizado voluntariado também em Portugal, com associações LGBT. Declara-se um activista pela igualdade de direitos e ao mesmo tempo um sonhador que busca na escrita a plena satisfação. Publicou este conto, «Mau Natal», na antologia «Boas Festas».