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03 maio, 2017

DECIFRA-ME... OU DEVORO-TE! - PREFÁCIO DE ISIDRO SOUSA



  
PREFÁCIO
  
Numa tarde abrasadora, em pleno esplendor de Agosto do ano 2015, a autora Guadalupe Navarro surgiu no meu percurso literário. Embora o seu nome fosse familiar, de uma obra poética em que ambos participáramos no início desse Verão, nunca havíamos trocado uma palavra. Ela abordou-me pelas redes sociais, solicitando esclarecimentos sobre a antologia A Bíblia dos Pecadores, cujo regulamento acabara de tornar público. Elucidada sobre a essência do projecto, que só abrangia textos em prosa, volveu algo assim: «Eu sou poetisa, não escrevo prosa.» Lamentou o facto de a nossa Bíblia de Pecadores não contemplar poesia, reiterando o seu interesse em participar numa obra colectiva tão instigante.
Exploradas todas as possibilidades, sem todavia conseguir contornar essa limitação, Guadalupe Navarro acabou por considerar «Posso tentar escrever um texto; talvez uma crónica...» e mencionou a ideia que, nesse preciso momento, se lhe delineava na mente, sobre Sodoma e Gomorra. Recordando que, meses atrás, eu também experimentara escrever poesia para uma antologia poética, e fi-lo com êxito, incentivei-a de imediato: «Se sente vontade de escrever uma estória, não hesite!» Ainda renitente, mostrando-se receosa em adentrar num terreno desconhecido, aceitou o desafio, porém, salvaguardando que não se comprometeria.
Nos dias subsequentes, à medida que ela cimentava pedra sobre pedra naquela muralha em que se transformaria o texto, expunha-me ideias, dava conta de avanços e recuos, receios e dificuldades, buscando sempre uma palavra esclarecedora que facilitasse o contorno de obstáculos literários. Até que decidiu mostrar as páginas que já redigira, ansiando que eu lhe transmitisse uma opinião sincera.
Mal li os parágrafos iniciais, gargalhei. A trama, sobre a bíblica esposa de Lot em estátua de sal transformada quando fugia do fogo devastador disparado do céu sobre Sodoma, achava-se incompleta, todavia, vislumbrei logo que se tratava de uma sátira inteligente, divertidíssima – uma relíquia! Era difícil conter-me; as gargalhadas prevaleciam. Se até aí, porque desconhecia a escrita de Guadalupe Navarro, receava transmitir alguma indicação, para não constrangê-la ou melindrá-la, nesse instante a minha posição alterou drasticamente. Fui peremptório: «Tem de concluir o texto! Sem qualquer hesitação! É uma ordem! Força, Guadalupe!»
Entusiasmada, mergulhou com ainda mais afinco nesse universo da prosa tão temeroso quão desafiante. Finalizou o trabalho. Quando me chegou às mãos, li-o e reli-o; ainda hoje não canso de o reler. A autora nem acreditava no fascínio que a sua estreia na prosa me despertara! Refiro-me a A Estátua de Sal, a mesmíssima sátira sobre o episódio da destruição de Sodoma, abordando a falta de hospitalidade, os excessos e a imoralidade que grassava nessa cidade remota, bem como as incursões incestuosas daquelas filhas que, julgando-se sozinhas no mundo, embriagam e seduzem o pai para, com ele, gerarem descendência. Essa estória, publicada em 2016 na antologia inaugural da Colecção Sui Generis, está compilada nas primeiras páginas deste livro que se acha nas vossas mãos.
Daí em diante, a nossa cumplicidade, entre mim e a autora, acentuar-se-ia de dia para dia, embora não houvesse convívio presencial, somente comunicação virtual pelas redes sociais; e a amizade crescendo, solidificando, uma confiança mútua enraizando-se. Guadalupe interessou-se por todas as obras colectivas que eu viria a organizar na área da prosa, participando nelas com regularidade. Nessa época (a Sui Generis ainda inexistia), concebi outra antologia para a editora que então dinamizava, intitulada Boas Festas, dedicada ao Natal. A estória natalina (O Arrepio de Micaela, também incluída neste livro), num registo diferente do texto anterior, que a autora fez chegar às minhas mãos despertou-me igualmente a atenção. E ela foi mergulhando, de modo crescente, no universo da prosa. Mostrava-me, inclusive, textos destinados a projectos de outras editoras. Fosse qual fosse o tema envolvido em novas antologias, ela fabricava imediatamente uma trama, visando participar. E que tramas apresentava! Uma imaginação fértil, prodigiosa, que surpreende constantemente. A sua capacidade de criar enredos complexos, quer sejam dramáticos ou humorísticos, aliada ao elevado grau cultural (os conhecimentos sobre História são soberbos), é incrível. E desenvolve cada tema com vontade férrea, inigualável, nunca vacilando perante obstáculos, só respira quando finaliza cada trama. Foi desse modo – atrevo-me a dizê-lo – que Guadalupe Navarro se viciou na construção de narrativas. Ao ponto de deixar para segundo plano a escrita poética, em prol da prosa. Um universo verdadeiramente irresistível que a emaranhou nas suas teias. Que a desafiou. Envolveu. Fascinou. Aprisionou! E muita água deslizou sob a ponte desde que ousou aventurar-se na espantosa e deslumbrante Estátua de Sal.
Meses volvidos, em maré de confidências, ela revelaria pormenores da vida pessoal que vi reflectidos no perfil de algumas personagens; falaria também, despida de quaisquer complexos ou constrangimentos, sobre a paralisia cerebral de que é portadora e a forte depressão que a afectava na época em que me abordara. Naquele abençoado Verão de 2015 em que vários sonhos desencadearam o primeiro passo rumo à realidade... Frisou publicamente o quão bem o meu incentivo (a escrever prosa) lhe fizera, ajudando a superar essa fase menos boa – às vezes, basta um estímulo, um simples empurrãozinho para se ultrapassar o receio de falhar. Além disso, a solidariedade por ela manifestada, em momentos críticos da minha trajectória editorial, para contornar situações assaz delicadas, contribuiu mais ainda para aprofundar uma vera amizade, tornando-nos confidentes literários. E daí a considerar a possibilidade de editar uma obra pela Sui Generis, compilando textos redigidos ao longo dos últimos tempos, foi um salto. Na realidade, este livro, que marca um ciclo bastante significativo, verdadeiramente sui generis, no percurso da autora.
Decifra-me... ou Devoro-te! principia com o magnífico A Estátua de Sal, primeiro texto em prosa de Guadalupe Navarro, destinado à antologia inaugural da Colecção Sui Generis, e finaliza com Mea Culpa, um drama igualmente inspirado em episódios bíblicos, concebido propositalmente para o segundo volume da mesma antologia, A Bíblia dos Pecadores. Entre o primeiro e o derradeiro texto, desfilam uma dezena de contos e crónicas de igual modo marcantes – estórias totalmente distintas, do drama à aventura, recheadas de humor e uma certa malícia, ou mesmo sarcasmo, redigidas com uma simplicidade sofisticada e, não raras vezes, uma ironia refinada, para as diversas obras colectivas, em Portugal e no Brasil, em que a autora participou. São estórias aparentemente simples, mas que se revestem de uma sensibilidade e uma intensidade profundas, explorando, todas elas, universos verdadeiramente sui generis.
E o que dizer da galeria de personagens? Magistral!
Maioritariamente femininas, as personagens destas tramas são figuras singulares, especiais, numa primeira vista um tanto “malucas”, mas que se revelam seres humanos incríveis, salvo raras excepções, dotadas de grande humanidade, as fragilidades mesclando com fortes personalidades, mostrando fraquezas, mas também a força interior que delas emana.
Como a bela Micaela e os seus sintomáticos arrepios enquanto se embrenha nos afazeres para o Natal ou a sensível e solitária Mónica, em A Máscara, a filha rejeitada que busca forças no talento para colmatar o desprezo familiar e se enamora pelo homem errado. E também a espevitada Ludmila e as suas deambulações vampíricas, em O Sonho, a enigmática Rosana cujo misterioso retorno à sua cidade natal desperta atenções porventura indesejadas, em Riacho, e a atrevida e sofisticada Olga, que se envolve carnalmente, em Mea Culpa, com um membro do clero para tentar compreender uma antepassada por todos considerada a mula sem cabeça da sua região. Sem olvidar a deliciosa discussão com Santo António da exuberante narradora de O Colar de Pérolas, que diverte com as peripécias libidinosas da madame inglesa que “virou duquesa” e escandalizou a sociedade do seu tempo ao desencadear um evento insólito, deveras incomum, que envolvia “homens sem cabeça”, e ainda a destemida e imperturbável Rosa Martina, em A Armadura de Sancho, que viaja pelos confins da História e convive com espectros enquanto planeia instituir o dia especial (ou internacional) dos fantasmas, desvendando a origem de alguns mitos ou superstições. E a histérica e inescrupulosa editora Branca de O Casarão, autêntica “amiga do alheio” inspirada em certas realidades que grassam no meio literário e afectaram, de algum modo, a autora, é igualmente digna de registo. Ou de atenção!
Se as mulheres que embelezam estas estórias fascinam, magnetizam, emocionam, fazem vibrar, as figuras masculinas, embora em desigualdade numérica, são também envolventes, sedutoras, carismáticas. Veja-se o executivo, jovem e elegante, que procura achar, em O Lado Obscuro de Afonso, a mulher que a sua falecida avó consideraria ser “uma moça decente” para casar, mas alimenta uma vivência sórdida, doentia, na clandestinidade, algo inimaginável numa mente aparentemente sana. Ou o discreto e charmoso António em A Mulher de Branco que experimenta, após uma noite de diversão entre amigos, ainda que casualmente, um encontro surreal, deveras inusitado, numa instigante narrativa que aborda o universo fantástico, onde referências mitológicas marcam presença, como Daphne, a bela e estonteante ninfa em frondoso loureiro transformada para escapar à perseguição desenfreada de Apolo, o deus da beleza que lhe inspira profunda aversão.
A propósito, realçam-se referências às mitologias mas não só; os frequentes contextos históricos também se destacam nestas peças literárias, com inúmeras menções devidamente enquadradas a reis e rainhas, príncipes e princesas, imperadores, pontífices e a outras personalidades emblemáticas ao longo dos tempos, que denunciam o arraigado conhecimento, o elevado grau cultural da autora, de que se socorre, vastas vezes, para caracterizar cenários, personagens ou as ambiências que as rodeiam.
E não se pense que é tudo! O mundo infantil, aliado ao reino animal, é recordado em Totó. Através da visão de uma adorável tartaruga, exilada num jardim zoológico após um acidente lhe ter danificado o casco, vamos conhecendo, numa narrativa profundamente nostálgica, uma saudade de corroer a alma, as complexas relações da sua família de acolhimento por tantos anos, que a adoptou como membro, onde se incluem três crianças que a adoram, particularmente a menina mais nova que “não é bem igual aos outros” e terá em si reflectido algo de autobiográfico, a quem a autora empresta vivências ou emoções nitidamente pessoais.
As doze estórias que compõem as cento e cinquenta páginas de Decifra-me... ou Devoro-te! são divinas, irresistíveis, autênticos bálsamos para a alma. Estórias despretensiosas que numa primeira instância podem afigurar-se bastante simples, porém, revestidas de uma sofisticada complexidade; algumas aparentemente sem nexo mas de uma profundeza intensa, de um humanismo sem igual, ricas na nobreza de sentimentos, nos afectos ou nas relações interpessoais, bem como nos contextos em que são inseridas, nas ambiências envolvidas. Estórias enigmáticas, magistrais, em que cada protagonista, cada personagem, cada enredo convida à leitura... à viagem, ao mergulho no seu universo, ao desafio de desvendá-la.
Estórias arquitectadas e levadas a cabo por uma alma sensível, cativante, mulher guerreira, autora talentosa, um ser humano deslumbrante que, independentemente de vicissitudes do foro pessoal, contagia todos, à sua volta, com a magia das palavras que agora dispersa ao mundo nas páginas deste livro. Palavras que deliciam, seduzem, envolvem. Palavras que prendem, anestesiam, deleitam. Palavras que, atingida a derradeira linha de cada trama, deixam sempre um sabor a pouco.
Decifra-me... Ou Devoro-te! Ei-lo nas vossas mãos. Pois então, decifrem-no! Não sejam devorados... pelo pecado da ignorância.

Isidro Sousa




30 abril, 2017

DECIFRA-ME... OU DEVORO-TE! - POSFÁCIO DE SUZETE FRAGA



   
POSFÁCIO
  

Decifra-me... ou Devoro-te! é um medicamento altamente eficaz no tratamento de depressões, ignorância crónica, solidão e preconceito, seja qual for a estirpe dominante. Após um longo e trabalhoso processo de inspiração, uma das mentes mais geniais que eu tenho o privilégio de conhecer conseguiu, finalmente, produzir a combinação perfeita para a cura das maleitas acima referidas e não só! Quando consumido atempadamente, ou seja, antes do aparecimento dos primeiros sintomas, o organismo adquire imunidade vitalícia, não deixando espaço de manobra para tédios, frustrações e hipocrisia multirresistente.
Advertências: uma advertência apenas – altamente viciante! E eu que o diga! Em prol da Humanidade, mal recebi tão prestigiante convite, aceitei logo o desafio de ser uma das primeiras “cobaias” a testar os seus efeitos. Como qualquer medicamento, recomenda-se que não ceda à tentação dos empréstimos, pois nunca mais o recuperará. Quem quiser que compre! Não brinque com a sua saúde!

O que deve saber antes de usar e abusar de Decifra-me... ou Devoro-te!?

PRIMEIRO – Verifique se não se desmancha com facilidade. Depois de atacar A Estátua de Sal pode não ser capaz de reunir condições para passar ao Colar de Pérolas. E, nesse caso, é melhor nem chegar perto de A Armadura de Sancho». Esta contraindicação pode ser facilmente contornada se dividir as gargalhadas com outras pessoas.

SEGUNDO – Não beba, por favor! Sejam bebidas alcoólicas ou outro líquido qualquer (lógico, sólidos não dá muito jeito beber). Eu tentei e fiz uma grande porcaria, além de ficar com soluços, tal foi a desordem. O mesmo se aplica à comida.

TERCEIRO – Quando passar pelo Arrepio de Micaela procure estar acompanhado, caso contrário os calafrios podem teimar em não passar voluntariamente.

QUARTO – Confira o stock de lenços de papel e, se puder, um barco e umas galochas; acredite, vai precisar para o Totó.

QUINTO – Se não tem uma religião, espreite Mea Culpa. Quero saber se depois disso ainda continua ateu ou indeciso.

SEXTO – Inveja o aparente sucesso dos outros? Tome uma dose de A Máscara e vai ver o que é bom para a tosse!

SÉTIMO – Se é uma pessoa suscetível, vá com moderação ao Casarão. Da última vez que confirmei, só andava meio mundo a enganar o outro meio. Em caso de sobredosagem arrisca paranóia temporária.

OITAVO – Procure saber os resultados do seu eletrocardiograma antes de ir ter com A Mulher de Branco. Convém ter um coração forte como um touro.

NONO – Por favor, muita atenção neste ponto! Há um estudo que diz que quem toma café sem açúcar pode ser ou desenvolver tendências psicopatas. Por segurança, esvazie o açucareiro no seu café, antes ir para O Sonho. Eu uso os chocolates M&M’s, também são excelentes para suprir a carência de açúcar no organismo e assim evita males maiores.

Prazo de validade e instruções de conservação?

Validade: comprar antes que esgote e, para isso, vale tudo, desde atropelamentos, saques e brigas do tipo mulheres em época de saldos.
Conservar em lugar de destaque, mas sempre à mão. Por razões de segurança recuse sempre genéricos ou artigos de marca branca. Certifique-se que tem o logo Sui Generis.
Quaisquer outras dúvidas é favor dirigir-se à responsável por esta pílula milagrosa, Guadalupe Navarro, ou ao seu técnico assistente, Isidro Sousa. Eu, enquanto “cobaia”, posso garantir que nunca me senti tão bem.
Para finalizar: uma palavra de apreço à autora Guadalupe Navarro e os meus sinceros parabéns por esta magnífica obra. Estaria a ser mazinha se confessasse uma pontinha de inveja?... Pronto, um icebergue, tenho de ser sincera. É exímia na construção dos enredos. O seu nível de cultura geral é imbatível e o sentido de humor é qualquer coisa do outro mundo!
Resta-me agradecer a confiança depositada na minha humilde pessoa, para tamanha responsabilidade. Não preciso deixar votos de muito sucesso, tenho a certeza de que será um êxito estrondoso!
Parabéns, Guadalupe!

Suzete Fraga

Póvoa de Lanhoso, 16 de fevereiro de 2017





24 abril, 2017

«DECIFRA-ME... OU DEVORO-TE!» - TEXTO DE ISIDRO SOUSA PUBLICADO NA REVISTA DIVULGA ESCRITOR Nº 26 | ABRIL 2017

Revista DIVULGA ESCRITOR nº 26


DECIFRA-ME... OU DEVORO-TE!

por Isidro Sousa

Numa tarde abrasadora, em pleno esplendor de Agosto do ano 2015, a autora Guadalupe Navarro surgiu no meu percurso literário. Embora o seu nome fosse familiar, de uma obra poética em que ambos participáramos no início desse Verão, nunca havíamos trocado uma palavra. Ela abordou-me pelas redes sociais, solicitando esclarecimentos sobre a antologia A Bíblia dos Pecadores, cujo regulamento acabara de tornar público. Elucidada sobre a essência do projecto, que só abrangia textos em prosa, volveu algo assim: «Eu sou poetisa, não escrevo prosa.» Lamentou o facto de a nossa Bíblia de Pecadores não contemplar poesia, reiterando o seu interesse em participar numa obra colectiva tão instigante.
Exploradas todas as possibilidades, sem todavia conseguir contornar essa limitação, Guadalupe Navarro acabou por considerar «Posso tentar escrever um texto; talvez uma crónica...» e mencionou a ideia que, nesse preciso momento, se lhe delineava na mente, sobre Sodoma e Gomorra. Recordando que, meses atrás, eu também experimentara escrever poesia para uma antologia poética, e fi-lo com êxito, incentivei-a de imediato: «Se sente vontade de escrever uma estória, não hesite!» Ainda renitente, mostrando-se receosa em adentrar num terreno desconhecido, aceitou o desafio, porém, salvaguardando que não se comprometeria.
Nos dias subsequentes, à medida que ela cimentava pedra sobre pedra naquela muralha em que se transformaria o texto, expunha-me ideias, dava conta de avanços e recuos, receios e dificuldades, buscando sempre uma palavra esclarecedora que facilitasse o contorno de obstáculos literários. Até que decidiu mostrar as páginas que já redigira, ansiando que eu lhe transmitisse uma opinião sincera.
Mal li os parágrafos iniciais, gargalhei. A trama, sobre a bíblica esposa de Lot em estátua de sal transformada quando fugia do fogo devastador disparado do céu sobre Sodoma, achava-se incompleta, todavia, vislumbrei logo que se tratava de uma sátira inteligente, divertidíssima – uma relíquia! Era difícil conter-me; as gargalhadas prevaleciam. Se até aí, porque desconhecia a escrita de Guadalupe Navarro, receava transmitir alguma indicação, para não constrangê-la ou melindrá-la, nesse instante a minha posição alterou drasticamente. Fui peremptório: «Tem de concluir o texto! Sem qualquer hesitação! É uma ordem! Força, Guadalupe!»
Entusiasmada, mergulhou com ainda mais afinco nesse universo da prosa tão temeroso quão desafiante. Finalizou o trabalho. Quando me chegou às mãos, li-o e reli-o; ainda hoje não canso de o reler. A autora nem acreditava no fascínio que a sua estreia na prosa me despertara! Refiro-me a A Estátua de Sal, a mesmíssima sátira sobre o episódio da destruição de Sodoma, abordando a falta de hospitalidade, os excessos e a imoralidade que grassava nessa cidade remota, bem como as incursões incestuosas daquelas filhas que, julgando-se sozinhas no mundo, embriagam e seduzem o pai para, com ele, gerarem descendência. Essa estória, publicada em 2016 na antologia inaugural da Colecção Sui Generis, está compilada nas primeiras páginas do segundo livro da autora, Decifra-me... ou Devoro-te!, editado recentemente pela Sui Generis.
Daí em diante, a nossa cumplicidade, entre mim e a autora, acentuar-se-ia de dia para dia, embora não houvesse convívio presencial, somente comunicação virtual pelas redes sociais; e a amizade crescendo, solidificando, uma confiança mútua enraizando-se. Guadalupe interessou-se por todas as obras colectivas que eu viria a organizar na área da prosa, participando nelas com regularidade. Nessa época (a Sui Generis ainda inexistia), concebi outra antologia para a editora que então dinamizava, intitulada Boas Festas, dedicada ao Natal. A estória natalina (O Arrepio de Micaela, também incluída em Decifra-me... ou Devoro-te!), num registo diferente do texto anterior, que a autora fez chegar às minhas mãos despertou-me igualmente a atenção. E ela foi mergulhando, de modo crescente, no universo da prosa. Mostrava-me, inclusive, textos destinados a projectos de outras editoras. Fosse qual fosse o tema envolvido em novas antologias, ela fabricava imediatamente uma trama, visando participar. E que tramas apresentava! Uma imaginação fértil, prodigiosa, que surpreende constantemente. A sua capacidade de criar enredos complexos, quer sejam dramáticos ou humorísticos, aliada ao elevado grau cultural (os conhecimentos sobre História são soberbos), é incrível. E desenvolve cada tema com vontade férrea, inigualável, nunca vacilando perante obstáculos, só respira quando finaliza cada trama. Foi desse modo – atrevo-me a dizê-lo – que Guadalupe Navarro se viciou na construção de narrativas. Ao ponto de deixar para segundo plano a escrita poética, em prol da prosa. Um universo verdadeiramente irresistível que a emaranhou nas suas teias. Que a desafiou. Envolveu. Fascinou. Aprisionou! E muita água deslizou sob a ponte desde que ousou aventurar-se na espantosa e deslumbrante Estátua de Sal.
Meses volvidos, em maré de confidências, ela revelaria pormenores da vida pessoal que vi reflectidos no perfil de algumas personagens; falaria também, despida de quaisquer complexos ou constrangimentos, sobre a paralisia cerebral de que é portadora e a forte depressão que a afectava na época em que me abordara. Naquele abençoado Verão de 2015 em que vários sonhos desencadearam o primeiro passo rumo à realidade... Frisou publicamente o quão bem o meu incentivo (a escrever prosa) lhe fizera, ajudando a superar essa fase menos boa – às vezes, basta um estímulo, um simples empurrãozinho para se ultrapassar o receio de falhar. Além disso, a solidariedade por ela manifestada, em momentos críticos da minha trajectória editorial, para contornar situações assaz delicadas, contribuiu mais ainda para aprofundar uma vera amizade, tornando-nos confidentes literários. E daí a considerar a possibilidade de editar uma obra pela Sui Generis, compilando textos redigidos ao longo dos últimos tempos, foi um salto. Na realidade, um livro que marca um ciclo bastante significativo, verdadeiramente sui generis, no percurso da autora.
Decifra-me... ou Devoro-te! principia com o magnífico A Estátua de Sal, primeiro texto em prosa de Guadalupe Navarro, destinado à antologia inaugural da Colecção Sui Generis, e finaliza com Mea Culpa, um drama igualmente inspirado em episódios bíblicos, concebido propositalmente para o segundo volume da mesma antologia, A Bíblia dos Pecadores. Entre o primeiro e o derradeiro texto, desfilam uma dezena de contos e crónicas de igual modo marcantes – estórias totalmente distintas, do drama à aventura, recheadas de humor e uma certa malícia, ou mesmo sarcasmo, redigidas com uma simplicidade sofisticada e, não raras vezes, uma ironia refinada, para as diversas obras colectivas, em Portugal e no Brasil, em que a autora participou. São estórias aparentemente simples, mas que se revestem de uma sensibilidade e uma intensidade profundas, explorando, todas elas, universos verdadeiramente sui generis.
E o que dizer da galeria de personagens? Magistral! Maioritariamente femininas, as personagens destas tramas são figuras singulares, especiais, numa primeira vista um tanto “malucas”, mas que se revelam seres humanos incríveis, salvo raras excepções, dotadas de grande humanidade, as fragilidades mesclando com fortes personalidades, mostrando fraquezas, mas também a força interior que delas emana.
Como a bela Micaela e os seus sintomáticos arrepios enquanto se embrenha nos afazeres para o Natal ou a sensível e solitária Mónica, em A Máscara, a filha rejeitada que busca forças no talento para colmatar o desprezo familiar e se enamora pelo homem errado. E também a espevitada Ludmila e as suas deambulações vampíricas, em O Sonho, a enigmática Rosana cujo misterioso retorno à sua cidade natal desperta atenções porventura indesejadas, em Riacho, e a atrevida e sofisticada Olga, que se envolve carnalmente, em Mea Culpa, com um membro do clero para tentar compreender uma antepassada por todos considerada a mula sem cabeça da sua região. Sem olvidar a deliciosa discussão com Santo António da exuberante narradora de O Colar de Pérolas, que diverte com as peripécias libidinosas da madame inglesa que “virou duquesa” e escandalizou a sociedade do seu tempo ao desencadear um evento insólito, deveras incomum, que envolvia “homens sem cabeça”, e ainda a destemida e imperturbável Rosa Martina, em A Armadura de Sancho, que viaja pelos confins da História e convive com espectros enquanto planeia instituir o dia especial (ou internacional) dos fantasmas, desvendando a origem de alguns mitos ou superstições. E a histérica e inescrupulosa editora Branca de O Casarão, autêntica “amiga do alheio” inspirada em certas realidades que grassam no meio literário e afectaram, de algum modo, a autora, é igualmente digna de registo. Ou de atenção!
Se as mulheres que embelezam estas estórias fascinam, magnetizam, emocionam, fazem vibrar, as figuras masculinas, embora em desigualdade numérica, são também envolventes, sedutoras, carismáticas. Veja-se o executivo, jovem e elegante, que procura achar, em O Lado Obscuro de Afonso, a mulher que a sua falecida avó consideraria ser “uma moça decente” para casar, mas alimenta uma vivência sórdida, doentia, na clandestinidade, algo inimaginável numa mente aparentemente sana. Ou o discreto e charmoso António em A Mulher de Branco que experimenta, após uma noite de diversão entre amigos, ainda que casualmente, um encontro surreal, deveras inusitado, numa instigante narrativa que aborda o universo fantástico, onde referências mitológicas marcam presença, como Daphne, a bela e estonteante ninfa em frondoso loureiro transformada para escapar à perseguição desenfreada de Apolo, o deus da beleza que lhe inspira profunda aversão.
A propósito, realçam-se referências às mitologias mas não só; os frequentes contextos históricos também se destacam nestas peças literárias, com inúmeras menções devidamente enquadradas a reis e rainhas, príncipes e princesas, imperadores, pontífices e a outras personalidades emblemáticas ao longo dos tempos, que denunciam o arraigado conhecimento, o elevado grau cultural da autora, de que se socorre, vastas vezes, para caracterizar cenários, personagens ou as ambiências que as rodeiam.
E não se pense que é tudo! O mundo infantil, aliado ao reino animal, é recordado em Totó. Através da visão de uma adorável tartaruga, exilada num jardim zoológico após um acidente lhe ter danificado o casco, vamos conhecendo, numa narrativa profundamente nostálgica, uma saudade de corroer a alma, as complexas relações da sua família de acolhimento por tantos anos, que a adoptou como membro, onde se incluem três crianças que a adoram, particularmente a menina mais nova que “não é bem igual aos outros” e terá em si reflectido algo de autobiográfico, a quem a autora empresta vivências ou emoções nitidamente pessoais.
As doze estórias que compõem as cento e cinquenta páginas de Decifra-me... ou Devoro-te! são divinas, irresistíveis, autênticos bálsamos para a alma. Estórias despretensiosas que numa primeira instância podem afigurar-se bastante simples, porém, revestidas de uma sofisticada complexidade; algumas aparentemente sem nexo mas de uma profundeza intensa, de um humanismo sem igual, ricas na nobreza de sentimentos, nos afectos ou nas relações interpessoais, bem como nos contextos em que são inseridas, nas ambiências envolvidas. Estórias enigmáticas, magistrais, em que cada protagonista, cada personagem, cada enredo convida à leitura... à viagem, ao mergulho no seu universo, ao desafio de desvendá-la.
Estórias arquitectadas e levadas a cabo por uma alma sensível, cativante, mulher guerreira, autora talentosa, um ser humano deslumbrante que, independentemente de vicissitudes do foro pessoal, contagia todos, à sua volta, com a magia das palavras que agora dispersa ao mundo nas páginas deste livro: Decifra-me... ou Devoro-te! Palavras que deliciam, seduzem, envolvem. Palavras que prendem, anestesiam, deleitam. Palavras que, atingida a derradeira linha de cada trama, deixam sempre um sabor a pouco.
Decifra-me... Ou Devoro-te! Pois então, decifrem-no! Não sejam devorados... pelo pecado da ignorância.



Este texto foi adaptado do prefácio do livro «Decifra-me... ou Devoro-te!» e publicado na revista «Divulga Escritor Nº 26, de Abril/Maio de 2017. Nas páginas 88-91. Disponível neste link: https://issuu.com/smc5/docs/26_divulga_escritor_revista_liter__/88





27 janeiro, 2017

MAR EM MIM - PREFÁCIO


  
PREFÁCIO


Redijo com imensa satisfação este texto para prefaciar Mar em Mim, o primeiro livro de Rosa Marques. Conheci esta autora no segundo semestre de 2015, por intermédio da Internet, na mesma altura em que eu organizava a obra inaugural da Colecção Sui Generis. Uma simples manifestação de interesse em participar na antologia A Bíblia dos Pecadores gerou diversos contactos através das redes sociais e a comunicação entre nós foi-se desenvolvendo. Com o decorrer dos meses, surgiria uma amizade plena de muita cumplicidade. Pude, então, conhecer melhor a escrita desta autora, à medida que recebia (novas) participações para outras obras colectivas. Além disso, ela passou a mostrar-me, também, textos destinados a projectos de outras editoras, para que os pudesse rever.
Era raro o dia em que não me abordava pelo Facebook com um “bom dia”, “boa noite” ou “bom fim-de-semana”. E a troca de opiniões tornou-se uma constante. Foi assim, de dia para dia, que fui conhecendo a essência de Rosa Marques. Pude vislumbrar não só o incrível ser humano que ela é, mas também familiarizar-me, de modo crescente, com a sensibilidade e a delicadeza que impregnam a sua escrita. Quer na prosa, quer na poesia. Sim, na prosa e na poesia... porque esta autora madeirense move-se com bastante à-vontade tanto no universo da prosa como nas ondas da poesia.
Daí a trocarmos ideias sobre a possibilidade de ela editar um livro (individual) foi um passo. E, na parte que me toca, confesso: após ter firmado as primeiras antologias com o selo Sui Generis, era meu objectivo evoluir para a publicação de obras individuais. De minha autoria e não só. A Rosa Marques foi amadurecendo, igualmente, o seu desejo, até que a decisão fosse tomada. Vencido o impasse sobre o género literário que marcaria a sua estreia (prosa, poesia ou um livro infantil), optou por uma obra poética – este livro que se acha nas vossas mãos: Mar em Mim.
E porquê uma obra que reúne 73 poemas dedicados, maioritariamente, à Natureza, às ilhas que a viram nascer e crescer (Madeira) e onde reside e trabalha até à data presente (Porto Santo) e também ao mar que a rodeia – com o qual sempre conviveu?
Porque Mar em Mim resulta de um conjunto de emoções sentidas perante a beleza dessas duas ilhas banhadas pelo Atlântico e o fascínio que o mar e a Natureza exercem (sempre exerceram) na autora. Emoções apreendidas desde a mais tenra idade... quando ela interrompia, durante a sua infância vivida junto à Natureza, as brincadeiras ao ar livre para contemplar o pôr-do-sol e o deslumbramento das árvores recortadas no horizonte em ouro.
Nessa época, Rosa Marques nada sabia ainda sobre os fenómenos da Natureza, porém, aqueles castelos de nuvens luminosas e alaranjadas que se transformavam pouco a pouco, atraindo novas formas e cores, cativavam o seu olhar. Um fascínio que se manteria pela vida fora, até aos dias de hoje. Mas não só...
A diversidade (e beleza) das flores e de árvores como os pinheiros altos, os plátanos, as acácias e as giestas em flor alegraram, igualmente, a sua infância. E o canto dos pássaros, a Lua formosa e altiva, as mudanças operadas na paisagem em cada estação (cada uma com a sua singularidade e a sua doçura) e o mar sempre presente... O mar como elo fundamental para quem vive nas ilhas, sendo necessário transpô-lo para vencer as encostas íngremes da solidão. O mar amigo que fascina e atrai, mas também o mar adverso, condicionando e interpondo-se com toda a sua imponência, que é preciso respeitar.
Todas estas vivências acompanharam a vida da autora como a melhor das recordações. Uma vida inteira passada entre as (suas) duas ilhas. Inicialmente, na Madeira, onde viveu até aos dezoito anos de idade; posteriormente, em Porto Santo, para onde se mudou após o seu casamento. Da necessidade de registar essas lembranças surgiram os poemas incluídos neste livro, que Rosa Marques, incentivada por familiares e pessoas amigas, decidiu publicar.
Mas os textos poéticos aqui apresentados não se debruçam somente sobre o mar, as ilhas e a Natureza. Reflectem também outras situações que preocupam a autora, tais como a instabilidade no mundo e as desigualdades sociais, especialmente as crianças indefesas que sofrem todos os tipos de privações e maus tratos.
Com tão variados temas, como organizar, então, estes poemas? Optou-se pela linha das quatro estações do ano, espalhando-os ao longo da obra. Desse modo, podemos encontrar, nas páginas iniciais, além daquele que fornece o título ao livro e de outros que abordam os temas predominantes, alguns mais sobre crianças (Menino que dorme) e as diversas fases do dia (Na claridade difusa da manhã, Fim de tarde à beira-mar, A cidade veste-se de luar, etc). Prosseguem textos primaveris na sequência de meses relacionados (Abril em flor, por exemplo), mesclados com a ambiência da mesma estação, sem olvidar os sentimentos do coração que adquirem maior visibilidade à medida que o Verão se aproxima. E as ilhas sempre lá. E o mar também. Tal como as crianças, que muito sensibilizam a autora (É Verão! / Há sol, há cor e alegria! / À beira-mar é grande a azáfama, / a euforia... / Das crianças que brincam / falam alto, riem e gritam... / As ondas inquietas vão e vêm / com elas também brincam!).
Nas páginas subsequentes, ganham força outras temáticas... temas nostálgicos... a música que inebria (Música como bálsamo / libertando da solidão!), o amor e a solidão marcando presença, enquanto se vão sentindo os primeiros Ventos outonais. E igualmente a situação daqueles que vivem em condições precárias, o valor da amizade, os livros e a importância da leitura nas nossas vidas.
Particularmente tocantes, já na derradeira estação: o poema dedicado “aos que vivem nas terras áridas onde nada sobrevive devido à seca, como em África, onde todos os dias morrem pessoas à fome” ou Carta ao Pai Natal, que pede “um pouco de conforto” para todas as crianças do mundo. É com estes textos menos “calorosos”, embora não menos sensíveis e humanos, que se vai pintando uma Paisagem de Inverno, em que os temas principais – o mar, as ilhas e a Natureza – se mantêm vincados até à última página.
Poderia desvendar um pouco mais sobre Mar em Mim, esta belíssima obra poética que marca a estreia literária de Rosa Marques. No entanto, reservo aos leitores as emoções que estes 73 poemas despertam; tudo o que faz bem à alma, o que encanta e toca ao coração, a mensagem que cada texto transmite...

Isidro Sousa







20 dezembro, 2016

GRAÇAS A DEUS! - PREFÁCIO



PREFÁCIO



Variadíssimas razões, tanto de ordem pessoal como profissional, levaram-me a organizar esta Acção de Graças através da literatura. Para que melhor entendam essas nobres motivações, tenho de recuar ao passado.
Esbocei as (minhas) primeiras narrativas durante a adolescência e fui escrevendo ao longo dos anos, porém, não havendo perspectivas de editar um livro, forcei-me a esperar... Esperei um quarto de século para concretizar sonhos literários. Durante esses anos, escrevi, desmotivei, rasguei, reanimei, reescrevi ou concebi novos textos, tornava a desanimar e a destruir, mas voltava sempre a escrever, ou a reescrever, enfim... um ciclo que se revelava vicioso; embora publicasse, pontualmente, pequenas estórias nalguns jornais e revistas, a maioria destinava-se à gaveta. Ou ao arquivo. Sim, desanimei inúmeras vezes, todavia, Deus nunca permitiu que perdesse a esperança. A esperança de dar vida a esses sonhos.
Quando vislumbrei aquela luzinha na escuridão, uma oportunidade minúscula de poder, finalmente, vir a fazer alguma coisa, agarrei-a com unhas e dentes. Era ainda uma possibilidade remota, o chão a percorrer mostrava-se longo e calcetado de espinhos; não obstante, fiz-me ao caminho sem qualquer hesitação. Fui mergulhando, de modo crescente, num universo literário que se desvendou muitíssimo mais agreste do que era suposto, dedicando o corpo e a alma à escrita, participando em concursos e obras colectivas de várias editoras, evoluindo sempre e cada vez mais. Até chegar ao ponto de ousar desenvolver projectos ainda mais arrojados e ambiciosos. Obras colectivas, é certo, porém, idealizadas, organizadas e coordenadas por mim, enquanto buscava, em simultâneo, dar vida a obras individuais. As perspectivas já se mostravam luminosas.
Se por um lado os frutos começavam a surgir, prevendo-se um futuro literário mais animador, por outro lado as forças do mal não tardariam a erguer-se, procurando bloquear-me. Mas o meu (nosso) bom Deus, mantendo-Se sempre presente, transmitia-me energia para prosseguir a jornada. A minha fé, por mais adverso que se apresentasse o panorama, continuava inabalável. Deus nunca me faltara! No final de 2015, quando decidi lançar a Sui Generis, enfrentava uma tempestade bem turbulenta; a ferocidade era tal que faria desanimar almas mais sensíveis. Não vacilei. Embora me sentisse vulnerável, jamais perdi a fé em Deus. Senti-O sempre presente nas mais variadas situações quotidianas da minha vida. Senti sempre a influência da mão divina em tudo o que eu fazia. Inclusive em momentos profundamente dramáticos, que despoletaram resoluções que muito contribuíram para o meu amadurecimento enquanto ser humano. Contra ventos e marés, enfrentei tudo e todos porque sabia que chegara o momento – o momento de dar o passo. Aquele passo que conduziria ao sonho. A fé remove montanhas e nem sequer o diabo me intimidaria!
Sim, a fé fortalecia-me. Nunca duvidei da existência e assistência de Deus! Nunca acreditei que Ele me ignorasse, inclusive nas épocas menos boas (bastantes) em que atingi o fundo do poço. O Senhor mantinha-se sempre lá, ao meu lado, não me deixando esmorecer, tão-pouco desistir... transmitindo energias positivas, apontando novas luzes na escuridão... fazendo-me recuperar forças para poder reerguer-me com ainda mais perseverança e esperança. Foi desse modo, conservando a crença sempre inabalável, convicto de que Deus jamais abandona um filho, que fui desbravando caminho, levando a Sui Generis a bom porto. Com muita luta e sacrifício pessoal, imensas preocupações e noites mal dormidas, porém, alimentando sempre a fidelidade aos valores, preservando a firmeza, a integridade, a lealdade aos princípios éticos e morais, cativando cada vez mais pessoas, realizando sonhos, quer pessoais, quer de outros autores.
Transcorrido um ano exacto, após ter desencadeado o início desta bela jornada literária, visando a concretização dos diversos projectos que me propus realizar, o balanço revela-se positivo: doze antologias organizadas, sendo Graças a Deus! a décima segunda, para a Colecção Sui Generis. Doze! Um número recheado de muito simbolismo: doze meses do ano, doze signos do Zodíaco, doze apóstolos, doze tribos de Israel, dia e mês do meu nascimento (12 de Dezembro), etc. Doze projectos literários organizados (embora nem todos estejam finalizados – alguns já foram editados, outros ainda decorrem), as primeiras obras individuais publicadas (cinco) e perspectivas positivas no horizonte. Não acredito em coincidências e nada acontece por acaso.
Por tudo isto e não só, particularmente no que se refere ao bem-sucedido percurso no reino da literatura, tenho de dar Graças a Deus!
Dou muitas Graças ao Senhor! Não canso de dizer, escrever, repetir e tornar a repetir: Graças a Deus! Por tudo o que ocorre na minha vida. Quer a nível pessoal, quer profissional. Tenho muita fé em Deus e jamais cansarei de Lhe agradecer. Sem Ele, em quem busco forças para viver e batalhar, nada conseguiria. Consequentemente, a vida não faria sentido.
Todos nós (autores, leitores e demais pessoas) temos de dar Graças a Deus pelas coisas boas e menos boas que acontecem nas nossas vidas: um sucesso literário, um êxito profissional, a concretização de um sonho, uma situação favorável relacionada com saúde, uma decisão menos facilitada, um obstáculo contornado, uma fase menos agradável que contribuirá seguramente para nos fortalecer, um amor feliz, enfim, tantas coisas. Inclusive os menos crédulos, ateus ou agnósticos, digam o que disserem, têm sempre algo a dizer ao Senhor... mesmo que de um modo inconsciente, ou inesperado, sem a intenção de o fazerem.
O melhor agradecimento, no que concerne ao caso literário, é dedicar este livro ao Senhor! Organizar uma Acção de Graças na quadra natalícia, pela via literária, com a participação de todos aqueles e aquelas que contribuíram, de algum modo, para o êxito da Sui Generis ao longo dos últimos doze meses, é, sem sombra de dúvida, o melhor agradecimento. Apesar de ser um pequeno agradecimento, é um agradecimento!
E mais uma vez: Graças a Deus por termos conseguido, todos juntos, realizar esta belíssima Acção de Graças. Graças a Deus, e a todos nós!
O livro Graças a Deus! reúne largas dezenas de textos, em diversos géneros literários, de 51 autores lusófonos (portugueses, brasileiros e angolanos): contos, crónicas, cartas, poesia, prosa poética, reflexões, desabafos, etc. Embora esta antologia fosse concebida para o Natal, muitos textos que inclui não se focam no evento natalino; apresentam vários temas (ocorrendo, ou não, na época natalícia), todavia, reflectem sempre a fé no Senhor, ou mesmo gratidão – sejam sentimentos pessoais ou através de personagens criadas. São estórias e poemas cuja variedade de estilos e graus culturais é sublime, recheados das mais diversas sensibilidades, que, não obedecendo a um tema específico, privilegiam, de algum modo, a crença em Deus. O leque de textos é soberbo! De textos que abordam uma emoção, uma tristeza, um amor, um desejo, uma mágoa, um reconhecimento, uma lembrança, uma revolta, uma felicidade, uma nostalgia, uma esperança... Todos os autores expressam, cada um com a sua particularidade, o que lhes vai na alma. Cada um transmite, de alguma maneira, o que Deus significa para si – mesmo os que são agnósticos desvendam, de igual modo, a sua percepção. Ou os seus sentimentos.
Sentimentos que se eternizam nas 214 páginas desta antologia, cujos textos se encontram ilustrados com belíssimas declarações de Sua Santidade, o Papa Francisco, e Cânticos e Salmos da Bíblia Sagrada. Uma obra que proporciona boas leituras numa época tão especial. Verdadeira Acção de Graças que todos nós oferecemos ao Senhor nesta quadra natalícia. E que converteremos, certamente, em maravilhosas prendas de Natal. Prendas inesquecíveis! Que trarão leituras emocionantes ao longo do próximo ano. Porque este livro deve ser lido em qualquer altura do ano.

Feliz Natal e um próspero Ano Novo!

Isidro Sousa






Sessão de lançamento de «Graças a Deus!»
Quarta, 21 de Dezembro | 19 horas | Vlada Lounge
Rua Rosa Damasceno, nº 8, em Lisboa

Campanha Especial Lançamento: 15,00 Euros
Pedidos e reservas pelo email: letras.suigeneris@gmail.com


11 dezembro, 2016

ALMAS FERIDAS - PREFÁCIO



PREFÁCIO
  

Uma discreta abordagem através das redes sociais, felicitando-me pela narrativa que eu havia publicado numa obra colectiva de outra editora, na Primavera de 2015, desencadeou uma cumplicidade literária que se consolidaria nos meses subsequentes. A interlocutora interessava-se pela minha obra e eu vislumbrei, rapidamente, que ela não era uma simples leitora assaz curiosa: alimentava, de igual modo, sonhos literários. Encontrámo-nos, meses volvidos, enquanto autores participantes, no mesmo concurso literário e o texto de sua autoria atraiu-me. Desde aí, os meus olhos não mais se desviaram do árduo percurso literário que, ela própria, viria a trilhar. Essa mulher é a autora deste Almas Feridas que se acha nas vossas mãos: Suzete Fraga.
No entanto, a luta para singrar no reino das letras por espinhos se modelou. Embora já tivesse vencido o concurso promovido pela Rede Concelhia de Bibliotecas Escolares da Póvoa de Lanhoso no ano lectivo 2011/2012, em que lhe foi atribuído o Prémio do Escalão Público em Geral para maiores de 16 anos, o texto Tortura Silenciosa, que Suzete Fraga apresentou no certame de 2015, deu nas vistas; surpreendeu-me pela positiva e, em simultâneo, pela negativa. Narrava uma estória arrepiante, espantosa, bem ritmada, de uma profundidade incomensurável, que se lia de um fôlego, sem parar. O enredo envolvente transportava para vários cenários, fazendo-nos vibrar e sofrer com a personagem que protagonizava um drama bem real, terrivelmente actual: a violência doméstica e o sentimento de posse. Um tema corrente, pungente, chocante, com um desenlace inesperado, cuja estória relatada, agora compilada neste livro, alenta, infelizmente, para o ânimo daqueles que dizem que o amor é um passaporte para a loucura, tornando praticamente psicopatas aqueles que amam – ou acham que amam. Contudo, dela se extrai uma lição de vida: temos de cercear impiedosamente os tentáculos destruidores do amor, entre eles todas as formas de violência justificadas em nome ou por causa desse tão nobre sentimento.
Embora o conto se apresentasse bem estruturado, bem trabalhado pela capacidade narrativa da autora, com tramas bem encadeadas, cujas peripécias se sucediam até ao clímax, o texto achava-se, na minha perspectiva, um tanto maltratado. Um desleixo que apontei em conversa privada e a própria autora reconheceria uma certa dificuldade nalguns pontos da escrita. Não obstante esse pormenor que poderia ser ultrapassado, mais cedo ou mais tarde, senti-me perante um diamante literário (quase em bruto)... uma autora a ter em conta. A pedra preciosa só precisava ser lapidada. Deixei, nos comentários ao texto, estas palavras: «Os primeiros passos em direcção ao sonho começam bem. Continue a escrever! Continue a aperfeiçoar o que escreveu! Nunca se aborreça de reler os seus textos quantas vezes forem necessárias! Escrever para ser lido requer muito trabalho e você tem capacidade para voar longe.»
Críticas negativas, todavia construtivas, que lhe dirigia despertaram-na para a necessidade de adoptar cuidados específicos. E ela logo me pediria para rever textos destinados a outros projectos. Eu revia e continuava a criticar e a sugerir e a alertar. E ela sempre atenta... ansiando tornar o próximo texto menos imperfeito. Nunca questionou a revisão num texto. Ela própria comparava o trabalho que me enviara com o ficheiro (revisto) que lhe era devolvido, buscando identificar pontos de melhoria. Esse profundo interesse surpreendia-me mais ainda, desconcertava-me de um modo positivo; não é comum um autor analisar o trabalho do revisor – geralmente, perguntam o que o revisor fez, como fez, onde fez. Mas ela não. Ela pesquisava por iniciativa própria, estudava minuciosamente o texto revisto, procurando compreender o que deveria melhorar. Um esforço verdadeiramente louvável.
Em Agosto de 2015, tornara-se já a minha confidente num universo literário bastante agreste em que todos se conhecem virtualmente mas, na realidade, quase ninguém sabe quem é quem. Foi a primeira pessoa a ter conhecimento da minha intenção em organizar uma obra colectiva. Quando tornei público o regulamento de A Bíblia dos Pecadores, antologia inaugural da Colecção Sui Generis, ela já era conhecedora da essência desse projecto, no qual participaria com um drama marcante, inspirado no relacionamento dos bíblicos Caim e Abel: Sombras do Passado; assim como enviaria, logo após, Tentação de Natal, um texto mais descontraído adentrando (um pouco) no campo da sensualidade, para a minha segunda obra colectiva. Se Tortura Silenciosa, em que muitas mulheres se revêem na ilusão associada à bondade e ao amor que modificou a vida da protagonista, denuncia o flagelo da violência doméstica, os temas predominantes nestas duas últimas narrativas – igualmente reunidas neste livro – envolvem, respectivamente, relações fraternas assaz perigosas (entre irmãos conflituosos) e o drama do desemprego.
À medida que estas (e outras) estórias – todas elas vivas, intensas, reais, plenas de humanidade – chegavam às minhas mãos, verificava que eram contos coesos, estruturados, com personagens planas e modeladas, bem caracterizadas, entrando-se facilmente nas narrativas e nos temas escolhidos, visionando-se cada cena, cada emoção, como se de filmes se tratassem. Apresentando sempre uma escrita (cada vez mais) escorreita e fluida, as tramas narrativas entremeadas de excelentes momentos descritivos destilam uma pluralidade de emoções, de esperanças e, em maior número, de frustrações (caso de Tortura Silenciosa), como resultado de uma violência doméstica execrável e devoradora de seres e de vontades, cujos desenlaces nem sempre são os esperados; mas que prendem o leitor até à última linha.
Se eu notava progressos de texto para texto, a autora jamais me questionou sobre a qualidade dos mesmos. Após enviá-los, limitava-se a aguardar uma opinião. Um simples elogio, por mínimo que fosse. Embora a evolução fosse notória, nunca elogiei (até aí) qualquer texto. Receava que ela se acomodasse ao patamar que já atingira – e a caminhada tinha de prosseguir nesse bom ritmo. Justamente por isso, ao invés de lhe transmitir elogios, espicaçava-a, apontando imperfeições a corrigir, arestas a limar, novas dicas a explorar e outros pormenores de suma importância que passam imensas vezes despercebidos e requerem atenção redobrada. Como, por exemplo, a questão dos tempos verbais. E ela assimilou rapidamente que: não deve haver oscilações na mesma frase, ou parágrafo; misturar presente e passado requer um domínio absoluto na escrita; não pode deixar pontas soltas numa narrativa bem desenvolvida e todos os factos têm de ficar explicados, por mais suspense que se possa empregar. Mostrava-se atenta às sugestões, aos pormenores mais ínfimos, ansiosa por continuar a enriquecer a bagagem do conhecimento. E a mesma ansiedade sempre presente... uma ansiedade muda, esperando somente um pequenino elogio. Mas a minha opinião, embora de um modo subtil, era favorável e a crítica, ainda que nalgumas vezes negativa, deveras construtiva. Recusava elogiá-la por opção, porque desagradar-me-ia vê-la adormecer à sombra da bananeira – sim, receava que tal sucedesse. Num curto espaço de tempo, evoluíra a um ritmo alucinante e as suas asas poderiam voar ainda mais longe. Como, de facto, voaram! Eu sentia que conseguiria mais; muito mais. E conseguiu!
Não atingiu a perfeição – nem mentes brilhantes galardoadas com o Prémio Nobel conseguem ser perfeitas. Não obstante, chegou ao ponto de vencer, em Novembro de 2015, um (novo) concurso literário; quiçá mais ambicioso e mais concorrido, em relação ao anterior; desta vez, com uma narrativa bem amadurecida, sagrando-se vencedora, por mérito próprio. Antes de a entidade promotora divulgar os resultados, eu tinha a convicção de que Até à Última Gota... se não vencesse, ficaria, no mínimo, entre os principais classificados. Classificou-se em primeiro lugar. Uma vitória justa. Merecidíssima! De uma autora humilde e dedicada, que tanto penou para atingir esse feito. Só aí me pronunciei – finalmente! – sobre o talento inquestionável de Suzete Fraga. E ela compreendeu o meu silêncio durante toda a sua trajectória, a ausência de elogios enquanto progredia e que estes nem sempre se revelam favoráveis aos melhoramentos. Por vezes, uma crítica negativa, desde que construtiva, é mais benéfica, contribuindo de modo positivo para a nossa felicidade.
O conto Até à Última Gota, incluído igualmente neste livro, é outro drama fascinante, deveras viciante, que afecta inúmeras famílias e faz verter uma lágrima rebelde durante a leitura; arrebata da primeira à última linha e devora-se, num misto de raiva e encantamento, de um fôlego. Descreve outra situação recorrente que podia ser banal, porque envolvendo os malefícios do álcool, tanto na ficção como na realidade, há imensas estórias comuns. No entanto, graças ao estilo realista da autora, que enfatiza o aspecto humano e sofredor da protagonista, com nuances de revolta e coragem, usando o diário dentro da narrativa, o texto enriqueceu sobremaneira, relembrando que a escrita é muito mais do que escrever – pode ser também uma viagem ao mais profundo de cada um de nós, uma descoberta pessoal – e resultando numa ficção com muitas verdades lá incluídas, com uma clareza e fluência de ideias que sensibiliza o comum dos mortais.
Após triunfar no concurso de 2015, as narrativas sucedem-se. Cada vez mais estimulantes, ousadas, vibrantes. A própria autora, confrontada com o peso da responsabilidade, manteve a preocupação por uma evolução contínua, cujo trabalho tornou a ser reconhecido, noutro certame regional, no início deste ano. E todos os seus textos, reunidos neste volume, passaram-me pelas mãos. Conheço-os como se fossem meus. Revejo-me na maioria deles. Kayla: Sede de Vingança, só para citar um exemplo, concebido para a antologia O Beijo do Vampiro, tem um sabor especial: poderia ter sido escrito por mim. Narra a odisseia de uma vampira sedenta de vingança, escravizada antes de ter sido transformada, com mais de duzentos anos de idade, fazendo que o enredo viaje pelos séculos; a minuciosa pesquisa histórica (escravatura, por exemplo) enriquece a trama, confere-lhe maior credibilidade. Este texto poderia ter sido escrito por mim, todavia, não é o caso. Redigiu-o uma alma sensível e maravilhosa em quem muito me revejo que, independentemente do meio geográfico (bastante limitado) em que se encontra inserida e das adversidades (não poucas) que têm vandalizado (de modo assaz feroz) a sua trajectória literária, muito tem pugnado pela concretização do sonho.
À semelhança das suas personagens, a autora de Almas Feridas é uma alma igualmente ferida, num (pequeno) universo editorial que se deseja verdadeiro. Mais honesto. E solidário. Não absorveu influências nefastas nem se permitiu corromper por poderes (menos transparentes) instituídos, tão-pouco se deslumbrou com presentes envenenados ou se deixou beliscar por situações que raiam o absurdo. A sua integridade, mesmo perante falsidades e enxurradas de ácido contra si disparadas, permaneceu inviolável; as convicções inabaláveis. Mantendo-se autêntica, igual a si mesma e fiel aos seus valores, prefere rejeitar um troféu literário conquistado a duras penas para conservar a dignidade. Abdicar do prémio que ganhara em 2015 (edição gratuita de um livro) revelou-se um acto de coragem. Mas também um grito de revolta. Um grito de liberdade.
No entanto, o sonho não esmoreceu. Pelo contrário! As adversidades reforçam desejos. Mesmo remando contra ventos e marés, enfrentando raios e trovões, fazendo das tripas coração, a autora jamais desistiria do seu sonho. Quando resolveu concretizá-lo recorrendo aos próprios meios, eu assumi, com um especial prazer, o apoio incondicional à realização deste sonho há muito sonhado cuja gestação foi verdadeiramente sofrida.
A edição de Almas Feridas tornou-se para mim, enquanto editor e amigo solidário, uma questão de honra. Porque a luta é igualmente minha e considero o livro, embora não me pertença, outro dos meus filhos. E ei-lo agora nas vossas mãos! Almas Feridas. O primeiro parto literário de uma autora resiliente cuja vida sempre viveu em meios menos privilegiados, onde impera a escassez de oportunidades. Sendo, também, uma das primeiras obras individuais da Sui Generis, criada no meio de uma forte tempestade, bem turbulenta, que Suzete Fraga ajudou a enfrentar. Almas Feridas é editado na mesma fornada de Amargo Amargar, obra que marca, de modo similar, a realização de outro sonho: da pessoa que redige estas linhas. Dois percursos paralelos, duas lutas sangrentas, duas quimeras realidade tornadas. De mãos dadas. Em simultâneo! Isso demonstra que, havendo força de vontade, tudo se consegue. Basta querer! Haja luta e perseverança! Nunca se desista do objectivo, por mais sombrio que se apresente o horizonte. Há que transformar sonhos em realidade! Porque a esperança é a última que morre – e parar é sinónimo de morrer.
Este livro, cujo título reflecte magistralmente os conteúdos, reúne dezenas de textos que a autora escreveu, em duas partes: na primeira, contos destinados a concursos literários e obras colectivas de várias editoras; na segunda, pequenas estórias, autênticos exercícios de literatura, redigidas para campeonatos de escrita criativa em que a autora participou.
Todas as narrativas são criativas e as abordagens geniais, dotadas de veracidade, um realismo que arrepia. Encantam, prendem, deslumbram, emocionam. Envolvem o leitor em aprazíveis e elegantes teias de aranha das quais só se liberta após ter digerido as derradeiras palavras. Tramas marcantes, profundas, diversificadas, que confirmam o real talento e versatilidade de quem as concebeu – um talento enorme, abundante! «São temas cuja fonte é inesgotável, infelizmente», diz a autora. «Não requer pesquisas. Na família, na casa ao lado, na rua mais abaixo, na televisão... basta piscar um olho para surgir uma história. E, claro, nas minhas histórias, posso fazer justiça ou dar o final feliz que raramente acontece na vida real. Por outro lado, tenho uma leve esperança de poder ser uma influência positiva para quem passa por estes dramas.»
É um facto: Suzete Fraga possui uma capacidade imensa de expressar emoções através da escrita, de expor assuntos perigosos de uma forma assaz deliciosa, de trabalhar qualquer tema com a beleza das suas palavras. Cada estória é como um filho e todas elas são dignas de serem lidas, quer pelo estilo único e cativante, quer pelos conflitos nos enredos, com temas para temer a vida! Poderia analisar outras narrativas além das que citei, cuja principal característica é sempre a dramaticidade – porque todas as pessoas sofrem; todas as almas são feridas. O Chamamento do Cipreste (texto recheado de superstições envolvendo o sobrenatural) ou Têxteis: A Normalidade da Anormalidade (aventura frenética no local de trabalho, de enlouquecer qualquer ser humano), por exemplo. Privilegiei dar relevo ao percurso nada facilitado da autora, para conseguir furar (também) a muralha de humildade que lhe bafeja o espelho, cujo êxito agradece inclusive às pedras do seu caminho («Por cada calhau que me aparece à frente, surgem sempre dois ou três anjos para o remover»), reservando as emoções ofertadas por cada “devaneio literário” às vossas leituras. Que serão, seguramente, prazenteiras.

Isidro Sousa




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