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07 julho, 2019

14ª MARCHA DO ORGULHO LGBT+ DO PORTO - EM HOMENAGEM AO (NOSSO) ANTÓNIO ALVES VIEIRA







Ontem... sábado, 6 de Julho.

Na cidade do Porto... onde tornei a residir desde Abril de 2017.

Estive presente na 14ª Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto, a mesma Marcha que vi nascer no já longínquo ano de 2006 – concretamente no dia 8 de Julho de 2006 – na sequência da violentíssima morte da transexual brasileira Gisberta Salce Júnior, que fora brutalmente assassinada em Fevereiro desse ano por um bando de rapazolas do Porto... um bando de assassinos delinquentes que ficaria impune dos seus crimes hediondos. Na época, desloquei-me propositadamente de Lisboa ao Porto para acompanhar o evento, cuja concentração ocorrera no Campo 24 de Agosto, local onde Gisberta morreu, e partiria dali rumo à Praça D. João I. Fui à 1ª Marcha numa perspectiva jornalística, sim... para fazer a cobertura do evento, cuja reportagem, bem como outros textos relacionados, se encontram registados na edição nº 26 da revista Korpus, publicada em Outubro desse ano)... Mas fui também pela Gisberta... de quem fui amigo durante os anos em que, naquela época (1994-1998), vivi no Porto, até me mudar para Lisboa... Conheci-a nos anos 90, no auge do seu esplendor e beleza, muito antes de a sua vida ter dado aquela infeliz reviravolta que a levaria à pobreza extrema e à tragédia de má memória que se consumaria no último dos seus dias.

Com o fim do meu projecto, a revista Korpus, que fundei em 1996 e dirigi e editei ininterruptamente durante 12 anos, até 2008, fui-me afastando, gradualmente, dos eventos e do movimento LGBT, embora mantivesse, desde sempre, alguma proximidade, ainda que discreta, com a cena LGBT e alguns membros fundadores do movimento LGBT português... velhos e bons amigos, companheiros de uma luta tão nobre como a nossa, de quem continuo amigo... ou com quem mantenho algum contacto, ainda que esporádico. (A propósito, aproveito para referir que a revista Korpus se encontra, presentemente, em processo de recuperação, sob a alta responsabilidade e patrocínio de duas entidades oficiais (Hemeroteca de Lisboa e Rede Nacional de Bibliotecas), e todas as edições publicadas serão disponibilizadas ao grande público, para memória futura, até ao final deste ano; mas falarei sobre isso em momento mais oportuno... ou seja, quando me for permitido fazê-lo). E após cerca de 10 anos de afastamento, regressei este ano...

Sim, estive presente na 1ª Marcha do Porto, em 2006... e voltei este ano, 2019... à 14ª Marcha. Desta vez, numa perspectiva pessoal. Fui, acima de tudo, pelo António... um dos membros fundadores que mais e sempre se bateu ao longo dos tempos pela Marcha do Porto... que nos deixaria há cerca de um ano, em Agosto de 2018, e que foi, muito justa e merecidamente, homenageado neste evento... ou a quem se dedicou este evento. Estive sempre presente na Marcha, do início até ao fim, lado a lado com a sua mãe, Maria Helena Alves, segurando a faixa do António, cujos dizeres se podem ler na fotografias que ilustram este post. E obviamente que notei diferenças... imensas. Diferenças positivas. Muitas. Muitíssimas! O que foi muito bom.

A única pessoa que eu havia contactado, ou com quem combinara algo, fora a Maria Helena Alves. Porque eu queria – queria muito! – adquirir o novo livro (póstumo) do António, cujo lançamento ocorrera na passada sexta-feira, no Porto. Na impossibilidade de eu ter ido ao lançamento, por incompatibilidade de horários, a Maria Helena prometeu levar um exemplar no dia seguinte e entregar-mo durante a Marcha. Não levou... Não porque não quisesse, mas porque não o pôde levar. Razão? Todos os exemplares haviam sido vendidos na noite anterior, durante o lançamento. Mas prometeu conseguir-me um livro nos dias seguintes. Fiquei triste, mas ao mesmo tempo contente... pelo êxito. Porque o António merece! No entanto, já no final da Marcha, eu acabaria por conseguir o meu tão desejado exemplar. Porque... AS ESTRELAS MEXEM-SE. (Falarei sobre o livro num outro post.)

Durante a Marcha fui reencontrando algumas (infelizmente, poucas) pessoas do «antigamente». Mas gostei de ver. Gostei de participar, pela primeira vez, como manifestante. Gostei de tudo o que vi. Gostei de estar presente... Sim, gostei muito.

Não sei se «marcharam» 5000 ou 7000 pessoas... números que já vi apontados em várias notícias. Mas sei que apareceu muita gente... um imenso mar de gente que invadia algumas das ruas mais emblemáticas da cidade do Porto com as suas palavras de ordem, com as suas bandeiras, com as suas músicas, com as suas faixas e cartazes, com todo o brilho que as cores do arco-íris proporcionaram. Já nós tínhamos atravessado o viaduto, ali bem próximo da Praça da República, e percorrido toda a Rua Gonçalo Cristóvão, até ao fim... já nós descíamos a Rua de Santa Catarina... segurando a faixa do António, imediatamente a seguir à principal (a faixa oficial da 14ª Marcha)... quando alguém, creio que da organização, se aproxima de nós (de mim, da Maria Helena Alves e do João Paulo, responsável pelo PortugalGay.pt e um dos organizadores/dinamizadores da Marcha) e diz-nos algo assim: «Ainda há muita gente a sair da Praça da República!» Fiquei um tanto surpreendido. Pela positiva, claro. Bem... era, de facto, muita gente! É bem provável que se tenham manifestado 5000, 7000 ou talvez mais pessoas... E como de facto se viu, já na Cordoaria, onde terminaria a Marcha, a imensa multidão que ali se concentrou...

Foi mesmo muito bom. Muito bom mesmo!

Os meus parabéns a toda a organização e demais colaboradores e dinamizadores... bem como a todos os manifestantes que participaram nesta grandiosa Marcha do Orgulho LGBT+. E não posso terminar estas palavras sem deixar um forte aplauso ao (nosso) querido e saudoso António. Porque... AS ESTRELAS MEXEM-SE.

Viva a Marcha!...

Viva o António!    










Fotos recolhidas das páginas no Facebook de Bruno Martins, Helena G. Ferreira, António Soares e PortugalGay.pt


17 junho, 2019

OS VIGARISTAS – PREFÁCIO




PREFÁCIO


Desde que instituí a Colecção Sui Generis, planeei cuidadosamente cada projecto literário que viria a organizar para esta colecção. Cada vez que anunciava uma nova obra colectiva, há muito tempo que o tema proposto no regulamento havia sido estudado e estava bem definido. Cito como exemplo a antologia inaugural da colecção, A Bíblia dos Pecadores – Do Génesis ao Apocalipse... a ideia original surgira pela Páscoa de 2015 e foi sendo “cozinhada em lume brando” durante os meses subsequentes, até que o seu regulamento se tornou público em Agosto desse ano. De facto, prefiro amadurecer com bastante antecedência qualquer tema que proponho desenvolver, tal como gosto de preparar minuciosamente todas as etapas inerentes ao processo de produção e edição de cada livro. Uma regra bem vincada em todas as obras literárias, individuais e colectivas, que têm o selo Sui Generis. Ou em quase todas. A excepção ocorreu com Os Vigaristas... cuja concepção inicial resultou de um impulso.
Nessa época, vivia uma situação algo dramática e um tanto surreal no campo literário. A pessoa responsável por um conhecido grupo editorial, para o qual trabalhei entre Setembro e Novembro de 2015, dinamizando uma das quatro editoras que compunham a empresa, quis (tentou) apoderar-se, sem qualquer pingo de escrúpulos, da minha (primeira) obra colectiva: uma antologia independente que organizava em paralelo às funções exercidas na editora que, volvidos quatro meses, aquando da sua publicação, daria origem à Sui Generis: a já referida A Bíblia dos Pecadores. Defendi sempre, com unhas e dentes e a garra de um leão, o meu projecto; não permiti que me fosse arrebatado! Remando contra ventos e marés, a impressão do livro tornou-se uma realidade e chegou o dia, na cidade de Lisboa, da sua apresentação pública: 13 de Fevereiro de 2016.
Durante todo esse período, a referida pessoa, talvez frustrada por não ter conseguido apropriar-se do suor alheio, moveu-me uma perseguição sem tréguas. Entre ameaças veladas, calúnias e insultos, chamava-me nomes como “verme” nas redes sociais e insinuava publicamente que eu era “oportunista”, numa tentativa de desmoralizar-me e quiçá fragilizar-me. Já que não lhe fora possível usurpar a (minha) Bíblia, restava-lhe a via da vingança: aniquilar-me! Destruir-me moralmente e psicologicamente...
A perseguição culminou com uma grotesca tentativa de sabotagem à sessão de apresentação de A Bíblia dos Pecadores e, no dia seguinte, com a divulgação do 8º Concurso Literário promovido por uma das editoras do referido grupo editorial, intitulado O Oportunista – cada edição explorava temas diferentes. Como se isso não bastasse, a colectânea paralela ao concurso subordinava-se ao lema Em terra de cegos quem tem olho é rei... uma clara tentativa de voltar os autores contra mim... apelidando-os descaradamente de “cegos”. Só que, dessa vez, reagi. E a minha reacção primou pelo inesperado. Ao invés de acobardar-me ante a nova campanha (mais uma) de desmoralização pública, ousei enfrentar a fera – usando a literatura como arma! Foi desse modo, no mesmíssimo instante em que tive conhecimento do dito concurso e da dita colectânea associada ao certame, que decidi organizar, num momento claramente impulsivo (irreflectido?), uma antologia literária cujo tema seria dedicado àquele que eu (e uma imensidão de autores lesados pela mesma pessoa) considerava ser o real carácter da figura que me atormentava... o título nada tinha de oportunista, mas não poderia ser mais oportuno e revelador: Os Vigaristas.
Regulamento e cartazes publicitários não tardaram a surgir na Internet. Causaram forte impacte. E também alguma confusão... mas, acima de tudo, uma certa compreensão do que se passava. De tal modo que o autor Carlos Arinto indagou: «Ó Isidro, que história é essa de vigaristas e oportunistas?» Redargui frontalmente: «Assumo que se trata de uma resposta. Aquela mulher tem de entender, de uma vez por todas, que eu não me deixo intimidar!» E, de facto, nunca me intimidei perante a perigosidade de uma vigária mesquinha, de má índole. Tal como, também de facto, deixaria, daí em diante, de sentir-me importunado. A carapuça em boa hora tornada pública encaixara na perfeição na cabeça (maquiavélica) de alguém. Desde que passei a promover, numa base diária e sem qualquer hesitação, a nova antologia intitulada Os Vigaristas, a dita pessoa que tentara aplicar-me o golpe deu mostras de ter compreendido que muito dificilmente conseguiria extorquir-me – ou mesmo derrubar-me. Então, decidiu deixar-me em paz. Deu-me paz. A paz que eu tanto almejava.
O tempo ia correndo, outras situações sucedendo (alheias a este assunto mas que acabariam por interferir, de algum modo, na celeridade do projecto) e a “resposta” inicial pela via da literatura foi perdendo o interesse. Recuperada a paz outrora perdida, qualquer “vingança” deixaria de fazer sentido – porque, de facto, eu só queria laborar em paz... desenvolver os meus projectos em paz! Nada mais. Não tornei a preocupar-me com isso. No entanto, havia posto em marcha uma (nova) antologia cujo tema, fruto das circunstâncias e resultante de um impulso defensivo, não tardei a perceber ser deveras fascinante. A partir daí somente esse facto assumiria importância: o tema! E não obstante os imensos contratempos (de outras naturezas) que doravante surgiriam, desencadeando um longo atraso na produção e impressão do livro finalizado, o projecto, embora peque pela concretização tardia, resultaria numa belíssima e interessantíssima obra literária dedicada ao universo dos vigários e das suas vigarices.
Quanto ao tema... qual é a sua definição? De acordo com dicionários e enciclopédias, o vigarista é «alguém que se especializou a enganar outras pessoas». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz sobre ele: «indivíduo que visa enganar outros por meios ardilosos ou de má-fé» e que «engana os mais incautos, servindo-se do conto-do-vigário para lhes tirar dinheiro». A Infopédia define-o como «indivíduo que explora outros por meios fraudulentos» e o Dicionário Online de Português resume-o a «pessoa que passa o conto-do-vigário». E os sinónimos, em qualquer dicionário, abundam: burlão, intrujão, trapaceiro, embusteiro, impostor, trafulha, charlatão, chantagista, farsante, trampolineiro, golpista, pilantra, falcatrueiro, vígaro, gatuno, ladrão, larápio, rapinante, vigário, entre outros.
A Vikipédia traça um perfil mais completo. Segundo esta enciclopédia virtual, o vigarista é «alguém especializado em enganar outras pessoas, passando a ser considerado um criminoso quando os seus actos têm consequências graves, como obter lucros ilícitos, ganhando dinheiro através de fraude, enganando, mentindo e encenando situações que levam os mais ingénuos ou gananciosos a acreditar que estão a fazer um bom negócio mas, na verdade, estão a ser ludibriados»; e ao contrário do que se possa pensar, «um vigarista tem boa aparência, transmite confiança, é esperto e tem a capacidade de assumir a aparência necessária para lidar com a situação do momento, tanto podendo ser do sexo masculino como feminino, sendo charmosos e persuasivos», frisando que «existem imensos tipos de vigaristas, sendo praticamente impossível descrevê-los a todos; normalmente, são descritos pelo tipo de vigarices que praticam, que podem ir desde variações de golpes centenários à criação de golpes originais e à utilização das novas tecnologias e mesmo à forma de tornear as leis. Os tipos mais comuns são os vigaristas de negócios, de empréstimos, de rua e da Internet.» A mesma enciclopédia, apresentando outros termos para definir os vigaristas, refere que no Brasil são também conhecidos por enganador, fraudador, estelionatário e 171 (número do artigo do Código Penal brasileiro para o crime de estelionato), e esclarece que a palavra “vigarista” deriva de “conto do vigário”, expressão usada para descrever de forma genérica qualquer tipo de história que pareça verdadeira mas que, de facto, não o é e tem como único objectivo induzir quem a ouve a desembolsar dinheiro.
Posta a explanação, eis a questão: quem não reconhece um vigarista? Na rua onde vive, no local de trabalho, no café, na discoteca, no baile da paróquia, na associação cultural, nas instituições, na empresa a que recorre para contratar um serviço, em qualquer lugar... Quem não conhece vigaristas daqueles bem simpáticos, dissimulados, sonsos, porém, cativantes, atenciosos, podendo mesmo ser fascinantes, com sorrisos manhosos, falinhas mansas e olhares de deleite, algo carismáticos, acima de qualquer suspeita, que no início fazem de tudo para “meter as pessoas no coração”, mas... quando menos se espera... eis a desilusão! Espetam-lhes a faca nas costas sem qualquer hesitação! «Quem de vós nunca se sentiu ludibriado... enganado... vigarizado? No contrato que assinou, no serviço que não recebeu, no dinheiro emprestado, nos “direitos” nunca vislumbrados, no amor jamais recebido, inclusive no casamento que não resultou (o famoso “golpe do baú”)... enfim, em tantas situações da vida quotidiana. Afinal, quem nunca se deixou levar pela Cantiga do Bandido?»
Era este o desafio que constava no texto introdutório ao regulamento de Os Vigaristas, difundido largamente na Internet, sendo ilustrado por cartazes publicitários apelativos. E o resultado, pese embora tardio, é a obra colectiva que agora se apresenta, constituída por Crónicas, Poemas e Contos do Vigário de 26 autores lusófonos, em que se incluem textos de dois grandes vultos da Literatura Portuguesa: Camilo Castelo Branco e Fernando Pessoa. Uma especial atenção ao mestre Pessoa, que legou-nos uma deliciosa e sagaz história, escrita em 1926 com o sugestivo título Um Grande Português e republicada três anos mais tarde já com o nome A Origem do Conto do Vigário – na qual ficciona a vida de Manuel Peres Vigário, um lavrador ribatejano que se terá aproveitado da ganância alheia para trapacear. Um conto preciosíssimo que não poderíamos deixar de incluir nas páginas desta tão sui generis antologia literária. Boas leituras!
Isidro Sousa



OS VIGARISTAS
Crónicas, Poemas e Contos do Vigário
Autores: 26 Autores
Organização: Isidro Sousa
Colecção Sui Generis
Editora Euedito


ISBN: 978-989-8896-08-7
Depósito Legal: 435955/17


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30 março, 2019

DEVASSOS NO PARAÍSO – PREFÁCIO




PREFÁCIO


Sensualidade e erotismo são dois temas que se acham presentes nas artes desde tempos remotos, tendo para a maioria das pessoas significados similares já que se esbarram constantemente como sinónimos por serem ambos associados à volúpia (prazer sexual, luxúria, deleite) ou à lubricidade (lascívia, sensualidade, libidinagem). No entanto, existem diferenças entre eles.
A sensualidade é uma qualidade humana relacionada com os sentidos. Através da visão, da audição, do olfacto, do tacto e do paladar podemos perceber a realidade ao nosso redor – embora a visão tenha um papel fundamental, os outros sentidos também são activados com intensidade. Considera-se que algo é sensual quando desperta o interesse de alguém de maneira especial e intensa, e abundam os elementos que tornam algo sensual: alguns movimentos, certas formas, uma atmosfera envolvente, uma música de fundo, um perfume, etc. Além disso, conota-se frequentemente o sensual ao erotismo e à sexualidade pois imensos estímulos provocam desejo, atracção. Porém, o sensual opõe-se ao usual e ao vulgar; o prazer que se sente é subtil, difícil de descrever e muito subjectivo.
O erotismo, por sua vez, é uma manifestação da sexualidade cujas características variam segundo a sociedade que se tome como modelo. Apesar de definido num primeiro instante como “paixão de amor”, é necessário salientar o seu carácter revalorizador das formas próprias da sexualidade, tanto na vida pessoal e social como nas manifestações culturais. Sendo mais objectivos: o erotismo é o estímulo sexual sem apresentar o sexo de forma explícita; embora possa significar também uma representação explícita da sexualidade, podendo ser relacionado com o amor lascivo, designa, de um modo geral, não só um estado de excitação sexual mas também a exaltação do sexo no âmbito das artes (literatura, pintura, escultura, dança, etc). E é através desse apelo artístico que o conteúdo erótico se diferencia, nalguma medida, da pornografia.
Há traços singulares entre o erotismo e a pornografia que nos possibilitam estabelecer uma diferenciação aceitável. Uma das diferenças mais comuns diz respeito ao teor nobre do erotismo (que possui componentes abertamente sensuais, e do ponto de vista cultural é valorizado na sua dimensão estética) em oposição ao carácter vulgar da pornografia. O que lhe confere esse grau de nobreza é o facto de o erotismo não se vincular directamente ao sexo, enquanto a pornografia, na qual tende a haver uma maior preocupação sexual do que estética, encontra no sexo explícito o seu espaço privilegiado. Dessa forma, o erotismo, que tem sido fonte de inspiração constante na literatura e nas artes, estará mais próximo do sexo implícito (portanto, aceitável) e a pornografia do sexo obsceno, directo, explícito e comercializável, sem nenhuma magia.
A reflexão sobre o erotismo nasce com a civilização. Já em Platão está presente um dos aspectos mais fecundos da reflexão erótica: a função libertadora de Eros, problema que foi retomado pela psicanálise ao descrever o seu aspecto libertador para o indivíduo e para a sociedade, bem como para ressaltar o seu carácter de confronto com o sistema.
As primeiras representações artísticas de clara intenção erótica foram realizadas pelos Gregos e Romanos. Surgem na ornamentação de vasos de cerâmica, em pinturas murais, como nos frescos da Villa dos Mistérios em Pompeia, e nas esculturas inspiradas em cenas mitológicas de jogo amoroso. Nas paredes de Pompeia existem inúmeras pinturas eróticas – um exemplo notável é o do bordel com desenhos dos vários serviços sexuais oferecidos, em cima de cada porta. Encontram-se também figuras fálicas nas calçadas desta antiga cidade do Império Romano (destruída durante uma grande erupção do vulcão Vesúvio no ano 79), que mostram a direcção para o prostíbulo e casas de entretenimento.
Na Idade Média, estas representações inscreveram-se com frequência na estrutura geral dos edifícios civis e religiosos, esculpidas em mísulas, capitéis e gárgulas. Em paralelo, entre os séculos X e XIII, a arte hindu desenvolveu uma forma de ornamentação escultórica de carácter religioso centrado no tema do maithuna, ou casal de deuses realizando o acto sexual em diversas posições, símbolo da união da alma com a divindade. A introdução dessa perspectiva na pintura e na escultura facilitou, a partir da Renascença, o diálogo erótico entre o espectador e a obra, mas só no século XX o erotismo adquire uma autêntica definição como tema independente, através das obras de Aubrey Beardsley, Gustav Klimt, Henri Matisse e Pablo Picasso, entre outros.
No campo da literatura, ao analisar as diversas obras que têm como tema central ou se inspiram no erotismo é preciso distinguir as de ficção poética ou narrativa e as que possuem um sentido gnómico ou didáctico. A esta última categoria pertence o Kama Sutra, por exemplo. Por sua vez, o Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão), livro da Bíblia, está repleto de uma profunda dimensão erótica, dando voz a «dois amantes que se elogiam e se desejam com convites para o prazer mútuo».
A poesia erótica encontrou no mundo romano uma nova amplitude ao incorporar elementos da linguagem coloquial que facilitaram a expressão da sensualidade. Durante a Idade Média, esse género evoluiu para uma liberdade cada vez maior, sobretudo na poesia dos goliardos (clérigos pobres, desamparados pela Igreja Católica, de espírito transgressivo e provocador), ao mesmo tempo que surgia, quase contemporaneamente, a poesia do amor cortês, em que a inspiração erótica acontece de uma forma altamente sublimada e codificada segundo certas regras, fiel reflexo da sociedade feudal e cavalheiresca na qual se desenvolve. No Renascimento e no Barroco a poesia erótica atinge o seu último momento de esplendor, pois nos séculos seguintes perderia a sua especificidade como género distinto da poesia amorosa.
Já nos séculos XIX e XX o género erótico é cultivado por um extraordinário número de escritores que mostra uma vitalidade que outros tipos de narrativa não têm tido. Nestes últimos séculos, alguns dos autores mais famosos desse género foram Alfred de Musset, George Sand, Oscar Wilde, Henry Miller, Anaïs Nin, Georges Bataille, entre outros.
Pessoalmente, escrevi o primeiro texto erótico, sob a forma de conto, no ano 2001, para o publicar na revista Korpus – tendo-se seguido largas dezenas de contos eróticos para outras publicações, jornais e revistas, nas quais publiquei regularmente até ao ano 2012. Desde então, o erotismo jamais abandonaria a minha escrita... quer sendo abordado explicitamente ou com bastante subtileza, todavia, caminhando sempre de braço dado com a sensualidade – quando não se vislumbra erotismo nalguma das minhas narrativas, a sensualidade impõe a sua presença, mesmo no drama mais profundo ou num texto de carácter policial. De facto, tanto o erótico quanto o sensual, dependendo do contexto em que sejam tratados, são temas que, na escrita literária, me fascinam de um modo quase insano. Por essa mesma razão, mas não só, seria inevitável, depois de ter explorado diversas temáticas de diferentes naturezas noutros projectos literários, organizar uma obra colectiva com a presença dominante destes dois ingredientes, o sensual e o erótico, ou com a junção de ambos, mesclando-os, a sensualidade erótica, nas suas narrativas, independentemente das abordagens que cada autor lhes confere – ora explícitas, ora subtis ou mesmo latentes, consoante as sensibilidades de quem escreve. Resultou numa antologia de Contos Sensuais e Eróticos que reúne contos e/ou pequenas estórias de trinta autores lusófonos, cujo título, Devassos no Paraíso, reflecte magistralmente os conteúdos da obra. Uma nova antologia na Colecção Sui Generis plena de sensualidade e erotismo, que irá proporcionar, seguramente, prazenteiras leituras. Pois então... boas leituras!

Isidro Sousa




DEVASSOS NO PARAÍSO
Contos Sensuais e Eróticos
Autores: Vários Autores
Organização: Isidro Sousa
Colecção Sui Generis
Editora Euedito

ISBN: 978-989-8896-03-2
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22 junho, 2018

PRISIONEIROS DO PROGRESSO – PREFÁCIO




PREFÁCIO

  
É com bastante satisfação que assumo, novamente, o papel de editor e torno a prefaciar um livro de Rosa Marques: a sua segunda obra poética, que reflecte fortes preocupações de âmbito social. Se Mar em Mim, o primeiro livro, apresenta temas que lhe são caros e a tocam particularmente a nível pessoal, sendo a maioria dos poemas dedicada à Natureza, às ilhas do seu coração (Madeira e Porto Santo) e ao mar com o qual sempre conviveu, este novo Prisioneiros do Progresso debruça-se sobre questões assaz alarmantes que vão muito além do foro pessoal: afectam todos os seres! Porque Rosa Marques, sendo uma pessoa humana e sensível, é igualmente uma autora atenta, consciente e desassossegada. Preocupa-se com os seus sonhos, com a sua própria vida e a vida dos seus, mas também se inquieta com as vidas e as condutas de outrem... com a sociedade egoísta e materialista em que vive e o mundo cada vez mais mecânico e desumano que a rodeia.
O contacto entre nós estabelecido em 2015 ultrapassou, desde cedo, a mera relação editorial: foi adentrando, de modo crescente, no campo da amizade, gerando-se, de dia para dia, um apreço salutar entre autora e editor construído com pequenas/grandes cumplicidades. Não senti, talvez por isso mesmo, qualquer estranheza quando ela manifestou, alguns meses após ter publicado Mar em Mim, a intenção de editar outro livro de poesia. Não obstante, a temática dos poemas que constituiriam o novo livro deixou-me, numa fase inicial, um tanto apreensivo...
Neste pequeno universo literário em que grande parte das obras poéticas apresentam conteúdos que obedecem (quase) sempre a desejos e anseios de ordem pessoal, editar um livro de poesia totalmente dedicado a assuntos sociais, tecnológicos, ambientais e humanitários pareceu-me uma ideia arrojada, e até arriscada. Não que estes temas não sejam merecedores de atenções reflectidas, também, a nível poético. Pelo contrário: é de louvar! Mas surgiu-me logo uma questão deveras pertinente: quem desejaria adquirir um livro cujos poemas se preocupam, em exclusivo, com as tecnologias que isolam cada vez mais o ser humano e o fazem olhar somente para o próprio umbigo, com as sociedades crescentemente globalizadas, impiedosas e desumanas, resultantes de um progresso acelerado e descontrolado, com toda a humanidade que habita o planeta Terra em perigo? Isto porque, na minha visão de editor, embora privilegie sempre a qualidade das obras literárias, há outros investimentos imprescindíveis à produção de um livro que carecem de retorno, investimentos financeiros, e esse retorno nem sempre poderá ser breve, ou tão breve como se desejaria.
Mas Rosa Marques, expondo-me a sua inquietude e a razão dos temas abordados, logo me tranquilizou. A qualidade dos poemas, aliada à sensibilidade e à simplicidade que a caracterizam, também. São largas dezenas de textos escritos em momentos diferentes, que registam sentimentos de angústia e aflições em diversos períodos da vida da autora, revelando mágoas, descontentamentos e revoltas, não havendo, inicialmente, o objectivo concreto de serem reunidos num livro; em certa altura, porém, a autora constatou que esses mesmos textos poéticos seriam suficientes para formarem um volume. E à medida que chegavam às minhas mãos, para que a obra fosse organizada, convencia-me, cada vez mais, de que este novo livro seria, além de interessante, um excelente desafio/alerta pela via da poesia... e muito oportuno nos tempos que correm! Tal como atestam os versos introdutórios de Prisioneiros do Progresso, o (primeiro) poema que empresta o seu título ao livro: Deslumbrado com o grau de desenvolvimento que já conseguiu atingir / O homem não “sabe”, não quer mais parar... / Egocêntrico, cada vez mais sedento de explorar... de modificar... / Numa sede crescente de progredir... mesmo consciente de que está a destruir...
De acordo com o pensamento da autora e as palavras que me transmitiu, o homem tem causado danos irreversíveis no nosso planeta, que colocam em risco toda a humanidade. Esvaziando-o das substâncias que o tornam equilibrado e habitável, sobrecarregando-o de produtos altamente poluentes e que estão a destruir a atmosfera... dando origem ao aquecimento global, ao efeito estufa, etc. Mesmo consciente de que age mal, ele dá (continua a dar) largas à insensatez. Além de promover um progresso descontrolado que poderá ter consequências nefastas para todos os seres vivos que habitam a Terra, mantém-se indiferente aos danos que desencadeia, ao esgotar, egoisticamente, os recursos naturais do planeta sem pensar nas gerações vindouras. Tudo isso numa ânsia de saciar desejos sem limites, com sede incontrolável de desenvolver, de evoluir sempre e cada vez mais, sem olhar a meios para atingir os fins, e insensível para o inevitável desfecho que poderá ser catastrófico. A situação é alarmante!, frisa a autora. Destruindo o seu próprio habitat, o ser humano caminha a largos passos para o abismo da destruição, da anulação de si mesmo.
No entanto, o homem do século XXI, apesar de todo o desenvolvimento que alcançou, não é feliz. Tornou-se um ser insensível, sem lei, materialista e tecnológico, fruto desse progresso descontrolado que anula os bons valores éticos e morais que regem a vida, descurando a parte espiritual, a mais importante para uma vida feliz e saudável... daí todo o desequilíbrio. Existe uma insatisfação crescente, que ele procura colmatar com mais desenvolvimento... conquistando mais bens materiais. Esta sede desmesurada de poder e de conquista está originando uma cegueira geral para a verdadeira realidade, para o estado em que o mundo se encontra, para a necessidade de se valorizar a vida humana... e menos a parte material. Criando seres insensíveis e indiferentes...
A solidão entre os seres, a falta de afecto, a ausência de valores, as desigualdades sociais, o desprezo pela vida humana, a ambição desmedida, a desordem nas sociedades, as guerras e a pobreza, as alterações climáticas provocadas pela mão humana, enfim, o caos no mundo e a (consequente) desumanização que se tem verificado e acentuado a cada dia são algumas das imensas inquietações bem vincadas nos 67 poemas incluídos neste livro, que remetem, constantemente, para a necessidade de moderar e controlar o desenvolvimento a nível mundial, educando, sensibilizando e consciencializando os seres humanos para uma maior responsabilidade, o que permitirá reduzir os malefícios que a todos afectam.
Sem mais delongas, deixo-lhes nas mãos este Prisioneiros do Progresso, uma belíssima obra poética que, para além do prazer que a sua leitura irá seguramente proporcionar, poderá despertar consciências para certas realidades que nos rodeiam, cumprindo também, desse modo, uma função pedagógica.

Isidro Sousa





Título: PRISIONEIROS DO PROGRESSO
Autora: Rosa Marques
Prefácio: Isidro Sousa
Colecção Sui Generis
Editora Euedito

Editores:
Isidro Sousa (Sui Generis)
Paulo Lobo (Euedito)

ISBN: 978-989-8896-02-5
Depósito Legal: 434950/17
Páginas: 120 páginas




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26 fevereiro, 2018

CRIMES SEM ROSTO – PREFÁCIO




PREFÁCIO


A literatura policial fascina-me desde que li o primeiro livro deste género. Achei-o numa das visitas iniciais, durante a adolescência, à Biblioteca Municipal de Moimenta da Beira, da qual me tornaria frequentador assíduo; esta biblioteca regional, instalada na conceituada Casa das Guedes, era o meu refúgio quando saía da escola. Perscrutando estantes repletas de livros, chamaram-me a atenção as prateleiras reservadas aos policiais. Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Erle Stanley Gardner, Patrícia Highsmith, Jorge Ibargüengoitia e Ruth Rendell são alguns autores cujas obras devorei sofregamente. Sim, devorei literalmente todos os livros que encontrei destes autores e não só, tornando-se o género policial, desde logo, a minha leitura predilecta. Heróis da cena policial como Miss Marple, Hercule Poirot, Sherlock Holmes ou Perry Mason encantavam-me. E se mais não li foi porque não havia; ou talvez não achasse...
Foi igualmente nessa época que a minha veia literária despertou. Embora já redigisse, nas aulas de Português, pequenas estórias à laia de redacções, quase nada ou pouco elaboradas, seria a rainha do policial Agatha Christie (ou inspirado nela), após ter lido uma reportagem sobre a sua vida e dezenas dos seus livros, quem me faria aventurar em algo maior... na minha primeira obra literária: uma novela. A temática, influenciado pelas leituras de então, não poderia ser outra: policial. Talvez devido ao factor idade, fiz de um jovem estudante – um adolescente de 14 ou 15 anos, tal como o seu criador – o meu Hercule Poirot, construindo uma trama que se ambientava numa escola secundária provinciana, algures na Beira Alta, um estabelecimento de ensino fictício inspirado naquele que frequentei, no qual uma aluna pereceria. Suicídio ou assassínio era a (principal) questão que dominava toda a narrativa, sendo esclarecida somente nas derradeiras páginas. Mantive esse personagem adolescente, um estudante perspicaz com ares de detective, noutras novelas juvenis que concebi nessa altura, tendo-o recuperado mais tarde, volvidas cerca de duas décadas, para protagonizar uma obra de maior fôlego, sendo agora um homem maduro, jornalista bem-sucedido, que larga a monotonia da advocacia para se dedicar à emoção da investigação e procura desvendar várias mortes misteriosas, ocorridas sem qualquer elo de ligação, ao longo de um bastante complexo serial killer.
E atrevi-me, ainda nos meus tempos de estudante, enquanto redigia a referida novela, a apresentar, num concurso literário promovido lá na escola, o primeiro conto que ousei mostrar: uma estória policial dactilografada em duas folhas, o mesmo texto que, transcorridas quase três décadas, resgataria da gaveta para o rever, amadurecendo e desenvolvendo algumas partes da narrativa, sem alterar a linha original, com o firme propósito de o incluir na primeira antologia literária dedicada ao género policial que decidi organizar.
Quanto à literatura policial, esta é caracterizada, regra geral, pela presença, na sua estrutura narrativa, de (pelo menos) um crime, da sua investigação e da revelação do malfeitor. Neste género literário, o foco remete para o processo de elucidação do mistério, empreitada a cargo de um detective, seja ele profissional ou amador. A essência da narrativa policial é a busca da identidade desconhecida, pela totalidade dos indícios, achando-se sempre (ou quase sempre) o criminoso entre quem menos se espera, ou suspeita, demonstrando que não pode haver crime perfeito, logo, não há lugar para a impunidade, isto é, para o crime sem punição, como sucede habitualmente nas obras de Agatha Christie e de Erle Stanley Gardner.
O texto de minha autoria inserido nesta antologia desvia-se um pouco desse padrão. Apresenta, numa “primeira vista” como sendo a trama principal, um episódio num restaurante perpetrado por um casal de marginais dedicados ao roubo que acabará por ser detido, no entanto, verifica-se em paralelo, na mesma trama, com alguma subtileza, uma sucessão de delitos bastante mais graves do que o acto de roubar, crimes hediondos praticados há muitos anos cuja autoria só será conhecida num momento de pânico – em que a personagem que os cometeu, escondida sob a máscara de pessoa virtuosa e acima de qualquer suspeita, é confrontada com outra situação assaz perigosa e, vendo a sua vida de novo em perigo, rememora o mal que fizera no passado. Aqui, esses crimes mostram um rosto porque a pessoa que os executou, deixando-se levar pelas emoções, confessa-se ao leitor sob a forma de dolorosas recordações, associando-lhes o seu rosto somente nestas circunstâncias, algo que difere na maioria das obras dos autores anteriormente citados; contudo, estes crimes permanecem sem rosto na investigação policial.
Com o lançamento da Colecção Sui Generis, e após tantos e variados temas já terem sido abordados nas suas obras colectivas, era inevitável que viesse a organizar uma antologia dedicada ao policial, especialmente quando o próprio organizador, apesar de apreciar diversos géneros literários, é amante aficionado da literatura policial. Uma Antologia de Contos Policiais jamais poderia ser olvidada nesta Colecção! Todavia, em Crimes Sem Rosto não se impõe a fórmula que exige a presença de um crime e do respectivo investigador para o desvendar. Haja ou não haja detectives ou personagens com funções similares envolvidos, podemos criar um bom enredo com contornos policiais. Mais do que a comparência (ou inexistência) do investigador que apresenta soluções, privilegia-se, nos textos deste livro, a presença de um ou de vários crimes sem rosto, logo, não desvendados, cujo mistério é ou pode ser conhecido apenas pelo leitor.
São disso exemplo os contos de Grazielle Pacini Segeti, Manuel Amaro Mendonça e Teresa Morais. No primeiro caso, as polícias chilena e brasileira que investigam a morte de uma mulher num tonel de vinho não chegam ao autor desse crime, que se revela somente ao leitor. No segundo caso, um jantar natalício que decorre na tranquilidade familiar só é perturbado pela notícia de outro homicídio ocorrido em escassos meses, sem que a polícia vislumbre qualquer pista que a conduza ao assassino, mas o leitor vê-lo-á a desfazer-se da arma do crime. No terceiro caso, a autoria dos assassinatos que abalam uma pacata aldeia, cometidos por uma reservada mas afável solteirona, apenas interessada no seu tricot e na sua jardinagem, só será revelada na mente da criminosa. Cito ainda o texto confessional de William Schmahl Barros cuja protagonista desprovida de algum tipo de arrependimento ou remorso se desnuda assumindo os seus crimes para justificar o seu sucesso profissional: Todas as mortes foram necessárias para que eu me tornasse quem sou hoje. Podia mencionar mais exemplos, mas não me parece conveniente expor a totalidade dos contos neste prefácio. E se a obra no seu todo contém outras estórias cujos crimes narrados se desvendam no decorrer das tramas, afastando-se do tema proposto, não deixa de ser verdade que, pelo menos por algum tempo, os mesmos ter-se-ão mantido sem rosto.
Na cena real, inúmeros crimes permanecem demasiado tempo sob investigação até que a verdade seja conhecida, mas também há aqueles cujos malfeitores nunca são descobertos. Ainda que, por vezes, se verifique (em assassínios, por exemplo) algum crime perfeito, sem qualquer rosto associado, a maioria dos casos acaba sempre por ganhar, mais cedo ou mais tarde, um rosto. Nos textos que integram esta antologia literária, escritos por 18 autores portugueses e brasileiros, mais importante do que a solução do crime, ou a revelação do criminoso, é a existência do crime que não é desvendado na sociedade em que se insere, logo, que não tenha um rosto visível, apesar de, com bastante frequência, os autores desses crimes deixarem transparecer ao leitor, nalgum momento, as suas façanhas.
Boas leituras!
Isidro Sousa




  
CRIMES SEM ROSTO
Antologia de Contos Policiais
Autores: Vários Autores
Organização e Coordenação: Isidro Sousa
Colecção Sui Generis
Editora Euedito


ISBN: 978-989-8856-58-6
Depósito Legal: 429168/17


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