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02 janeiro, 2016

TERROR EM ALTO MAR


Texto de ESTÊVÃO DE SOUSA

A bordo do paquete “Géminus of Seas”, Isabel Villanova viajava feliz num cruzeiro transcontinental. Jovem, bela, rica e inteligente – herdeira de uma grande fortuna – podia dar-se ao luxo de usufruir de tudo o que de bom a vida proporciona aos bafejados pela deusa da fortuna. Muitíssimo cosmopolita – havendo viajado pelos cinco continentes – viajando, preenchia a vida um pouco monótona que, apesar dos meios ao seu dispor, levava. Alta, loura, detentora de uns olhos verdes que inebriavam quem neles navegasse, era, além do mais, possuidora de um corpo escultural que deslumbrava qualquer elemento do sexo oposto. Não obstante todos estes atributos, não se lhe conhecia qualquer compromisso sentimental. Filha de um magnata mexicano, falecido havia cinco anos, quando, acompanhado pela esposa, pilotava um jato particular que se despenhou sobrevoando os Andes – não deixando sobreviventes – viu-se de repente sozinha e herdeira de um grande império.
Bafejada pela abastança, rapidamente começou a correr mundo, havendo poucas cidades e estâncias turísticas, nos cinco continentes, que não conhecesse. Hoje, com trinta anos, ao engajar-se neste luxuoso cruzeiro, não pretendia mais que um novo género de diversão. Apreciadora do luxo e conforto, não podia ter escolhido melhor que o magnífico paquete, o qual desfrutava conjuntamente com mais cinco mil passageiros. Nesta luxuosa cidade flutuante existia tudo o que se pode desejar num local de relaxe, luxúria e prazer.
O imponente transatlântico, saindo do porto de Vera Cruz, navegava a todo o vapor, com destino às Baamas, após ter feito escala na Florida, onde esteve ancorado dois dias. Das Baamas, depois de uma estadia de dia e meio, seguiu direito à costa de África, com destino ao Funchal.
Estávamos então em Dezembro, aproximava-se o fim do ano. Era suposto o réveillon a bordo ser algo de monumental, dados os preparativos a que o pessoal procedia com afinco. A pouco e pouco o paquete ia ficando todo engalanado, antevendo-se uma “festa de arromba”, com o glamour que tão distintos passageiros exigia; afinal, tratava-se de um cruzeiro de milionários. Entretanto, os dias que antecediam a tão almejada festa iam decorrendo num ambiente digno de um conto de fadas, para o que as condições de excelência, oferecidas pelas instalações do paquete, muito contribuíam.
Neste ambiente de glamour e fantasia, Isabel sentia-se completamente à vontade. De tal modo que já havia feito um rol de amizades, das quais fazia parte um rapaz, seu compatriota – que se dizia perdidamente apaixonado – a quem ela encarava como amigo e companheiro de folguedos.
Com o compatriota Gonzales e outros foliões, passava Isabel os dias, e parte das noites, em agradável “rambóia”, ora frequentando os restaurantes do paquete, e o casino, ora tomando banho na piscina, usufruindo também do solário, ou ainda dançando animadamente – nos vários locais a isso destinados – resplandecendo de beleza ao brilho feérico da iluminação multicolor. Assim ia decorrendo o cruzeiro, em ambiente de festa, muito ócio e alguma libertinagem.
Por altura do último dia do ano – noite de réveillon – o Géminus sulcava calmamente as águas do Atlântico, defronte da costa da Serra Leoa. A bordo a alegria era esfuziante, com toda a gente procurando, por entre milhares de confetis e serpentinas, viver o réveillon de maneira inesquecível, dançando, rindo e desejando Boas Festas – quando da escuridão do oceano saíram repentinamente dois barcos que, cheios de piratas vindos do corno d’África, na costa oriental, atacavam o pesado transatlântico, atracando, um a bombordo, e o outro a estibordo; armados de toda a casta de armas, intimidavam os passageiros – que se encontravam no convés sorvendo a agradável brisa marinha, desfrutável naquelas paragens – ao mesmo tempo que os iam despojando de todos os pertences.
Dado o alarme gerou-se um pânico indescritível entre os passageiros que, sem saber o que fazer, corriam pelos corredores procurando esconder-se nos quartos, bares, restaurantes, quartos de banho e até nos salva-vidas, o que era preciso era fugir daqueles bandidos que, sem complacência, roubavam, agrediam e matavam quem encontravam pela frente.
O comandante, confrontado com a situação, deu instruções ao restante pessoal de bordo para não oferecer resistência, procurando assim preservar ao máximo a segurança dos passageiros, enquanto ordenava ao radio-telegrafista para mandar um S.O.S., pedindo socorro.
Quando a abordagem se deu, Isabel Villanova encontrava-se a dançar com o seu amigo Gonzales que, pela quinquagésima vez, lhe dizia, cheio de arrebatamento, que a amava. Ao ter conhecimento do que estava a acontecer, correu a esconder-se no quarto, fechando a porta por dentro e metendo-se debaixo da cama, aí se deixou ficar, na esperança de não ser descoberta. Enquanto isto se passava, no convés e restantes áreas públicas reinava a desordem e a confusão, com a intimidação, pelos assaltantes, a ser feita em altos berros. Ao mesmo tempo que – os Somalis – de armas em punho aterrorizavam quem lhes resistia, matando e roubando, o comandante e os oficiais entregavam-se, sem resistência, sendo encarcerados na torre de comando.
Isabel Villanova não soube dizer quanto tempo esteve naquela “agonia” fechada no quarto até que o comissário de bordo lhe foi bater à porta, dizendo-lhe que já podia sair, porque o perigo havia passado. Saiu a medo, não tinha a certeza que o pesadelo havia terminado, só acreditou quando, saindo do elevador que dava acesso à área de lazer, constatou que, embora muito devagar, a situação ia voltando à normalidade. Terrivelmente tensa e apavorada, começou a deambular pelo navio, ficando impressionada com o que ia vendo. Aqui e ali os médicos e enfermeiros de bordo prestavam assistência aos feridos, já tendo sido retirados os corpos dos que haviam perecido. A atividade existente surpreendeu-a; toda a gente corria meio desorientada, até que uma voz se fez ouvir, nos altifalantes de bordo:
– Atenção senhores passageiros: o capitão de fragata Afonso Albuquerque, comandante da fragata Gil Eanes, ao serviço da coligação internacional de combate à pirataria, nas águas da costa ocidental de África, apela a todos que se mantenham calmos, visto já não haver motivo para alarme. Três piratas foram abatidos e vinte e cinco foram detidos e irão responder pelos crimes perpetrados, tendo os seus barcos sido aprisionados. Assim, resta-nos lamentar o acontecido e desejar que tenham um excelente resto de cruzeiro. Vemo-nos em Lisboa!
Isabel ia a iniciar a procura dos amigos quando dos altifalantes se voltou a ouvir uma voz:
– Senhores passageiros: fala-vos o comandante do Géminus para, em nome do proprietário do navio, em meu nome e de toda a tripulação, lamentar o sucedido e desejar-vos a continuação de um bom cruzeiro, dizendo-vos que, tanto eu como a restante tripulação, temos o maior prazer em estar incondicionalmente ao vosso dispor. Façam por esquecer o acontecido e... divirtam-se, usufruindo das excecionais condições que o paquete vos oferece.
Acabando de ouvir esta última comunicação, foi altura de Isabel, extremamente ansiosa, partir à procura dos amigos, para saber se estes se encontravam bem. Percorridos alguns passos no solário, avistou Gonzales, que também aparentava procurar alguém e que, quando a viu, correu ao seu encontro, abraçando-a comovido, para lhe dizer:
– Oh, minha querida, que bom ver-te depois desta confusão, e saber que estás bem! – Abraçados, com frenesim, beijaram-se apaixonada e vorazmente, descarregando naquele beijo todas as emoções acumuladas ao longo dos últimos acontecimentos.
Acabado o beijo, ela, pegando-lhe na mão, arrastou-o, dizendo-lhe:
– Vem, vamos para o meu quarto, afinal estamos vivos!
Chegados dentro do quarto, amaram-se com arrebatamento: ela, entregando-se-lhe com volúpia, arrancou ela própria a blusa, pondo a nu os opulentos seios, que ele acariciava enquanto lhe ia tirando as cuequinhas e cheio de lascívia a atirou para cima da cama, onde rapidamente se possuíram. Atingido um orgasmo simultâneo, deixaram-se ficar abraçados algum tempo, até que na ânsia desmedida de se libertarem completamente de toda a adrenalina acumulada aquando da invasão, voltaram a possuir-se, desta vez menos exuberantemente, mas com tanto enlevo que acabaram completamente em êxtase!
Naquele dia, o luxuoso navio chegou ao Funchal, onde ancorou pelas 11,00 horas. Dali, seguiria no dia seguinte para Lisboa e daí para Barcelona, continuando o cruzeiro para Itália e Grécia, conforme havia sido programado.
Já nada era como dantes! As pessoas tinham perdido a alegria esfuziante que havia imperado até ao ataque dos Somalis. O cruzeiro continuaria conforme a programação inicial, visto a empresa ter assumido responsabilidades – ao receber o pagamento das viagens – com as quais tinha de cumprir. No entanto, alguns passageiros desgostosos por haverem perdido familiares e amigos, resolveram desembarcar em Lisboa, seguindo de avião para os seus países. Neste grupo se enquadrava Isabel que, embora não tivesse perdido ninguém muito próximo, sentia que o cruzeiro já não tinha razão de ser, pese embora a felicidade presente, pelo amor que estava a viver. Assim, num belo dia, deitados junto a uma das piscinas, disse para Gonzales, que se encontrava abraçado a ela:
– Querido, tenho andado a pensar que embora estejamos numa autêntica lua-de-mel, desde os acontecimentos por que passámos, sinto que fiquei traumatizada com o acontecido. Sinto-me receosa de que algo nos possa acontecer novamente. O que achas se desembarcarmos em Lisboa e regressarmos a Guadalajara de avião?
– Sabes que estarei sempre contigo, meu amor, e que os teus desejos para mim são ordens – disse-lhe Gonzales, beijando-a com amor.
– Meu querido! Este réveillon ficará eternamente na minha memória por dois motivos indeléveis: Primeiro, pelo grande susto que passámos durante o mesmo, em que todos julgámos que perderíamos a vida. Segundo, porque foi graças a este réveillon que te conheci, que nos amámos e que somos tão felizes!
Ele, aconchegando-a mais a si, disse-lhe:
– Olha, minha querida, daqui podemos tirar uma lição: Foi preciso ter sido transformado um grande momento de alegria, em horror e medo, para alcançar a felicidade. Não restam dúvidas que “Deus escreve direito por linhas tortas”!


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in «Boas Festas», páginas 64-69
Silkskin Editora, Dezembro 2015


NOTA BIOGRÁFICA DO AUTOR
Estêvão de Sousa nasceu em Lisboa, em 1937. Oriundo de uma família de classe média, viveu em Angola até aos 36 anos, onde fez um curso de geologia e mecânica de solos. Já em Portugal, fez um curso de gestão e administração de empresas e exerceu funções de chefe de escritório, gerente comercial e director administrativo, em duas empresas de Coimbra. Tem seis obras de sua autoria: «Retalhos de uma Vida», «Nesta Terra Abençoada», «Tráfico no Rio Geba», «Ouro Negro», «Rapto em Londres» e «Irina – A Guerrilheira». Publicou este texto, «Terror em Alto Mar», em «Boas Festas», a Antologia de Natal que Isidro Sousa organizou para a Silkskin Editora.

29 dezembro, 2015

TENTAÇÃO DE NATAL


 Texto de SUZETE FRAGA

 Mariana encontrava-se numa daquelas fases em que o Universo parecia conspirar contra ela. Perdera o emprego na bomba de gasolina; o novo troço de autoestrada açambarcara a pouca clientela que ainda resistia às constantes subidas do combustível. O movimento resumia-se a um ou outro trator das redondezas e, com muita sorte, a alguma dona de casa com a refeição inacabada, desesperada por uma botija de gás que lhe salvasse o dia. A pacatez, quase fantasmagórica, propiciava visitas indesejadas. Após vários atos de vandalismo e dois assaltos na mesma semana, o patrão resolveu encerrar as instalações de uma vez por todas.
A procura de um novo emprego foi um verdadeiro suplício. Com as propinas para pagar do mais novo, o seguro do carro, renda de casa atrasada, o aparelho dentário da miúda... Não podia dar-se ao luxo de escolher muito. Isto se houvesse por onde escolher! Sujeitar-se-ia a duas horas de limpeza, a dez quilómetros de distância e a um velho asqueroso, que mais do que a casa asseada pretendia a remoção de certas teias de aranha? Desesperada, sim, mas nem tanto! Aqui e ali surgiam ofertas de trabalho mal remunerado, dava para sal e pouco mais. Parecia que a crise tinha infetado as entidades empregadoras com um parasita chamado Exploração. Aquele bichinho multiplicara-se de tal maneira que ganhara proporções epidemiológicas. Se em tempos viver para trabalhar fora uma opção, agora, viver para trabalhar era uma necessidade, ou definhava-se à fome.
Por mais inglória que a busca pudesse ser, o desânimo deveria permanecer oculto. O seu marido não aguentaria três empregos muito mais tempo. Nem o marido, nem o casamento! Quanto tempo mais até à completa transfiguração de dois estranhos sob o mesmo teto? Na verdade, se lhe perguntassem, não saberia dizer quando fora a última vez que estiveram juntos. Seriam ainda capazes de ter as conversas escaldantes de outrora, traduzidas apenas em oscilações respiratórias e tons de pele ruborizados? Agora que pensava nisso, apercebia-se do quanto o seu corpo suplicava por uma “urgência familiar”. Precisava de saber se a faísca ainda produzia altas labaredas. Como estava perto do local de trabalho da sua cara-metade, nem pensou duas vezes.
– Amor? Tive um acidente com o carro, podes... ajudar-me?
A chamada caiu antes de poder terminar a frase. Felizmente não estava longe, o caminho em terra batida, ladeado por mato e eucaliptos, era o único acesso para o armazém de explosivos, onde o marido trabalhava como segurança. Nem teve tempo para refletir na farsa lanceolada. Foi só o tempo de esconder o carro atrás de uns codessos e correr para a berma do caminho, de modo a ser vista. Ele era do género: primeiro ia e depois é que perguntava aonde, sempre por essa ordem. Por pouco não o alcançava!
O tremor corpóreo denunciava a verdadeira urgência. Emergência mútua. Afinal, ainda não tinham perdido a capacidade de comunicar através do olhar, da respiração, das palavras mudas. O desejo adolescente foi o rastilho e a combustão para a rapidinha do século. A fusão de duas almas carentes, consumidas vorazmente, nos bancos traseiros do carro. «Vem, meu Apolo, leva-me à Lua!» E a vegetação ruboresceu de inveja. A aura flamejante que emanava do interior da viatura extravasou os limites do Universo.
De volta à Terra, recompuseram-se da confusão de membros entrelaçados e roupas amarrotadas. Depois do arranjo possível, no cabelo desconsertado, seguiram caminhos opostos, com um sorriso idiota na face e a alma mais leve que uma pena. Ele a interiorizar a desculpa para o patrão: «Foi só o radiador a ficar sem água, nada de grave». Ela, com uma confiança inabalável, decidida a não passar mais um dia sem emprego.
«Procura-se colaborador» – o cartaz não enganava e a montra muito menos: extintores, compressores, fitas, parafusos e afins. Sim, o típico negócio para machos. Momentos antes nem ponderaria sobre o assunto, mas agora que o seu ego estava muito para lá das nuvens, ai do saco de testosterona que se lhe atravessasse no caminho. Guinou bruscamente para estacionar no único buraquinho livre que havia. «E nada de apitadelas ou faço-vos despistar contra o marco dos correios!», pensou.
Colocou os óculos que usava para ler, sempre lhe davam um ar mais inteligente. Uns retoques na maquilhagem, mais um botão desapertado na blusa de seda, quase transparente, e estava pronta.
– Boa tarde! O gerente está?
O homem engoliu em seco, possivelmente fantasiando com o interior da blusa.
– Sim, sou eu – respondeu quase a gaguejar.
– Venho saber da vaga, se já tem alguém para o lugar.
– Vários! As entrevistas ainda estão a...
– E não há forma de aligeirar esse processo? – Interrompeu-o, roçando a mão levemente no cabelo, de forma a insinuar o soutien preto que sustentava um belo par de seios.
– Claro, claro – titubeou meio embasbacado. – Se estiver disponível para começar já amanhã! – Alegou perentório.
– Perfeito! – Retribuiu ao mesmo tempo que deixava cair uma caneta, de propósito. Sentiu os olhos cravados em todas as suas feições curvilíneas, enquanto a apanhava, provocadoramente, em câmara lenta. – Então, até amanhã... às nove?
– Será um prazer... quer dizer, sim... às nove, claro! – Gaguejou novamente, porém mais aparvalhado do que no início.
Feliz com a conquista, rumou a casa, fazendo um apanhado mental dos ensinamentos de artes marciais (o que aprendera em três aulas) – poderia ter que os pôr em prática.
Roscas e parafusos não eram propriamente a sua onda, mas estava convicta que a ajuda surgiria espontaneamente. Só tinha que manter a postura de anjinha endiabrada.
No espaço de uma semana já era capaz de se orientar razoavelmente. Para o bem de ambos, tratou logo de refrear os ânimos do patrão; de forma subtil mas carinhosa, “apresentou-lhe” os filhos e o marido enquanto tirava o bilhete de identidade da carteira. E, para reforçar a mensagem, quando o sentia a comê-la com os olhos, brincava com a aliança exalando fidelidade e dedicação conjugal. Coitado, não teve outro remédio senão superar a desilusão à custa do volume de vendas, que aumentara exponencialmente.
Arrefecera bastante, o Natal estava à porta. As lojas, devidamente enfeitadas, apelavam ao consumismo. No entanto, à medida que o inverno avançava, ali, o movimento ia sendo menor. Para esse dia, tinha apenas agendada a revisão duns extintores. Deveriam chegar durante a manhã. Mariana queimava o tempo a arquivar as faturas do mês passado quando foi interrompida pelo sinal sonoro que acusava movimento na porta de entrada.
– Bom dia, são os extintores da empresa...?
– Pois... sou novo lá e o nome é um pouco estranho. Disseram-me que já têm ficha de cliente com os nossos dados... é só procurar.
– Claro! – «Obrigadinha pela informação», e o sorriso não mentiu. «Deves pensar que não tenho mais nada para fazer». – Cá está! Tem razão, também não me atrevo a pronunciar isto – concordou. – Para a semana estão prontos, senhor...?
– António Pedro.
– António Pedro?!
Conhecera alguém com esse nome: o seu primeiro amor. Tinha cerca de oito anos quando o viu na sala de espera, para a consulta pré-operatória. Era o rapaz mais lindo do mundo! Secretamente, desejou que também ele gostasse dela. Percebeu a mutualidade do sentimento pela envergonhada troca de olhares. Quando souberam que iam passar a noite no hospital, rejubilaram de alegria. Mal as respetivas mães se foram embora, começou a brincadeira. Brincadeira inocente, coisa de crianças. Subir e descer no elevador, correr no jardim interior do hospital, deixar as enfermeiras loucas com a ausência dos dois... Depois do jantar – a última refeição antes de serem operados – ele foi até à enfermaria de Mariana. Ficaram horas a conversar, olhando para o espetáculo de luzes que a cidade oferecia, mal anoitecia. Como quem não quer, mas querendo muito, ele tocou-lhe na mão e perguntou-lhe se tinha namorado. Foram interrompidos por uma enfermeira encarregada de os enfiar na cama, cada um na sua enfermaria. Depois disso, Mariana ficou internada mais uma semana, presa à cama, por causa do soro. António Pedro teve alta no mesmo dia da operação, no dia seguinte. A mãe veio com ele. Foi uma despedida rápida. «Rápidas melhoras. Adeus.» Nunca mais o viu. Ao longo da vida, volta e meia questionava-se sobre o seu paradeiro; se ainda pensava nela, se tinha casado... Agora também não interessava nada.
Quando acordou da sua viagem ao passado, o cliente já tinha saído. Recriminou-se por não ter sido mais simpática, talvez ele tivesse ficado mais um pouco... a conversar. Ou talvez fosse melhor assim. Tinha um casamento feliz, com altos e baixos, como toda a gente, mas ultrapassaram sempre as dificuldades, juntos. Isso não se deitava fora a troco de uma aventurazinha extraconjugal.
Por mais que quisesse fugir, a cada passo dava consigo a fantasiar com António Pedro. Pareceu-lhe oriundo de uma família abastada. Logo à partida, teria uma bela casa, dessas que têm lareira no quarto e casa de banho privativa, jacúzi e cenas assim de gente chique. Passaria a vida a viajar: um fim de semana em Marrocos, outro em Paris, uns dias em Barcelona, umas férias nas Canárias, um cruzeiro a bordo do “Freedom of Seas”... Teria uma governanta, uma baby-sitter, um motorista, vários carros... Portanto, o moço de recados – que ainda nem sabia dizer o nome da empresa onde trabalhava – não podia ser o António Pedro, o da operação ao nariz. Além do mais, o “seu” António Pedro, a ter tudo o que imaginara que tinha, nunca mais se lembraria da menina de que se enamorara um dia.
Aguardou ansiosamente o dia de levantamento dos extintores. Contou segundos, minutos, horas e mais horas. Bastou sair só uns instantes para ir buscar uma encomenda e, mal chegou à loja, os famigerados extintores já eram! Terá sido obra do destino livrá-la da tentação, uma tentação que jurava inexistente? Melhor assim.
O movimento da loja paralisara enquanto os centros comerciais borbulhavam de vida. Baratas tontas e impacientes atropelavam-se, barafustavam e perdiam a paciência nas longas filas. Braços carregados de sacos e saquinhos, mãos de crianças que soltavam a saia da mãe e desatavam aos berros para conseguir mais um brinquedo, rostos endurecidos a pensar numa forma de pagar tanta porcaria, uma porcaria desnecessária, mas vital. Pouco importava se se rebentava com o último cartão de crédito. Desde que a vizinha esbugalhasse os olhos de inveja ao ver sacos das lojas mais cobiçadas, o dia já estava ganho. Imaginar aquela ranhosa a contorcer-se de raiva, depois da visão raio X acusar aquele relógio lindo de morrer. Sim, o mesmo que passava constantemente nos intervalos da novela. Se ela desconfiasse tratar-se de um miserável porta-chaves aos tombos, com as luvas e o cachecol, tudo para tornar o saco mais volumoso! E a cara da fulana do terceiro esquerdo? Que pensava ser uma consumidora exclusiva das lojas “Nespresso”. Pois que se desengane, a querida do rés-do-chão não enfia qualquer mistela pelas goelas abaixo! O frigorífico tem apenas dois ovos, umas folhas de alface e um frasco de maionese fora do prazo, mas com as aparências não se brinca. Não se brinca, não senhor!
Como detestava o Natal por causa dessas competições parvas e sem nexo a que a sociedade obrigava! Para onde teriam ido a bondade, a partilha, o calor humano? Não sabia a resposta e, por mais que odiasse admitir, também ela se deixara escravizar. Coitadinhos dos filhos se não vestissem aquelas calças que custavam os olhos da cara! E o aparelho dos dentes? Com lacinhos ou nada feito! Assim é que se era fixe e tinha-se montes de amigos.
– Mariana!
– Credo, senhor Vasco, até me assustou!
– Tire o resto da tarde, não vale a pena ficarmos aqui os dois a olhar para as moscas. Reabrimos dia vinte e sete. – Esticou-lhe a mão com um envelope, supostamente com a consoada, e pronunciou sem ênfase a típica frase: «Vá, um bom Natal para si e para os seus».
– Obrigada e igualmente... Tem mesmo a certeza de que não precisa de mim? – Obrigou-se a perguntar. Não pretendia fazê-lo mudar de ideias, mas um pouco de graxa nunca fez mal a ninguém.
– Não, não, pode ir.
Saiu, deixando o homem lá, a entupir o cinzeiro de beatas e com os olhos enterrados na papelada. Talvez odiasse a quadra natalícia. Talvez não tivesse motivos para correr para casa; mulher para beijar, sogra para bajular, miúdos para mimar... Porém, Mariana tinha tudo isso e... uma tarde livre! Passou na barraquinha, à entrada da feira, e comprou um cachorro. Bafejada com um metabolismo à prova de bala, podia dar-se ao luxo de ignorar os alertas sobre essas tentações quase pecaminosas. Instalada num banco da praça, devorava-o como se não houvesse amanhã; enquanto isso, planeava as compras no comércio tradicional, ali mesmo, na vila. Eram mais contidas na exuberância, no entanto, repletas de calma e aconchego, a doce sensação de um atendimento personalizado, como se toda a gente se conhecesse, acompanhado dos votos sentidos de um santo Natal. Porque o coração transbordava agradecimento. Gratidão pelos trocos que desvirginavam a caixa registadora, pelos momentos de companhia que interrompiam o furacão do esquecimento, do obsoleto. Assim, valia a pena saltitar de loja em loja: umas especiarias e uns frutos secos aqui, umas broas para as rabanadas ali, uns doces de fabrico caseiro acolá, umas couves biológicas acabadinhas de colher mais além.
Andou a tarde toda naquilo, ia e vinha, ia e vinha. Faltavam só umas lembrancinhas para terminar a sua missão de formiga tarefeira. Prestes a concluir a última ronda, um engraçadinho colou o seu bruto jipe ao carro, nem com uma catrefada de malabarismos conseguiu impedir que alguns sacos se esborrachassem no chão. Já a murmurar palavras pouco simpáticas, ouviu uma voz:
– Desculpe, era só por uns instantes. Posso retirá-lo, se desejar.
Quando se virou para lhe dizer das boas... Mas que grande merda! Era o tipo dos extintores. Tão resplandecente quanto a pintura negra do jipe. A camisa, ligeiramente aberta, deixava a descoberto alguns pelos do peito – que sacaninhas mais sedutores! Uma rápida (mas eficaz) tiragem de medidas bastou para confirmar a descida de Adónis à terra. E de repente era o pino do verão em pleno mês de dezembro. Como é possível que não tivesse reparado naquele rabo da primeira vez? E aqueles músculos? Os olhos teimavam em voltar à zona da cintura. Sentiu-se febril só de imaginar a maquinaria pesada em ação.
– Quanta potência! – Deixou escapar por entre os dentes.
– Hã?!
– O jipe... muita potência! – Disparou atrevida.
– É, não me posso queixar, nunca me deixou ficar mal. – Retribuiu com malícia, entalando-a entre os seus braços e o carro.
– Imagino! Pena que seja difícil estacionar tantos cavalos num só lugar.
«Credo! Precisavas de ter um hálito tão fresco? De respirar tão próximo de mim que dá para ouvir o coração a bater – o teu e o meu, de mãos dadas? Porque me tentas com essa barba divinalmente aparada e essas madeixas de cabelo rebelde? Esse peito e esses braços tão acolhedores, o local perfeito para abrigar-me das intempéries da vida... Porque cheiras tão bem e me fazes sentir assim?»
– E então?
– Então o quê?
– Dá tempo para um café de desculpas?
– Não, não dá. Tenho a minha família à espera. E pode deixar aí “os cavalos” que eu cá me desenrasco.
Arrancou a toda a velocidade, arrependida e orgulhosa ao mesmo tempo. Pouco importava se ele era mesmo o “seu” António Pedro. Se era, chegou tarde, a vida escolheu por eles. Viveria atormentada para o resto da vida, por ter resistido, por não ter aceitado o “café”, por não ter ido ao cerne da questão. Por mais custoso que fosse, fez a escolha certa. Escolheu o casamento. De que valia alimentar outra relação em segredo, trair, negar, mentir? Ainda que mais ninguém soubesse, ela saberia. Sentir-se-ia como lixo. Não seria capaz de repetir as mesmas coisas com os dois, confessar-se apaixonada pelos dois, fingir que estava com um para conseguir estar com o outro. E os miúdos... que opinião teriam da mãe, um dia que descobrissem a traição? Pensar neles minimizava os danos do coração e clarificava as ideias. Mas seria o suficiente para resistir às investidas daquele que pode ter sido o seu primeiro amor?
Retirou as compras do carro ainda com a cabeça inundada de interrogações. Depois, entrou na cozinha e deparou com o marido cheio de farinha na cara. Tão fofo! Também ele tivera folga e apressara-se a tratar de alguns pormenores para a ceia de Natal. Sempre solícito. Abraçou-o por trás e sussurrou-lhe ao ouvido:
– Cheiras a canela... posso provar-te já?
– Agora?!
– Não é um pedido – segredou-lhe enquanto o puxava pelo avental.
– Nesse caso...
Olhou-a com lascívia e carregou-a ao colo até ao quarto, fechando a porta com um coice. Mal a poisou no chão, lançou-se sobre a sua blusa desapertando-a de uma só vez. Colou-a à parede enquanto dedos hábeis trabalhavam o que já estava trabalhado. Possuíram-se ali mesmo, até ao clímax.
Transpirados e ofegantes, deixaram-se cair meio despidos no tapete, abraçados. Após algum tempo de contemplação, Mariana perguntou:
– Não te cheira a nada?
– Porra! Esqueci-me do bolo! – E desataram às gargalhadas.
No final da ceia, quando o bolo foi para a mesa, ninguém se apercebeu do pequeno acidente que tinha sofrido. Mariana deteve-se a admirá-lo; podiam tê-lo colocado no lixo, mas arregaçaram as mangas: rasparam o queimado e colocaram uma cobertura de chocolate, recuperando os estragos. Acabou por ser a sobremesa mais lisonjeada.
Ao longo da vida, também ela teria que trabalhar esse “bolo” para que nenhum percalço o transformasse numa mistela intragável. Podia ser frustrante, aborrecido e custoso, mas, no final, o esforço seria sempre compensado com um belo repasto.
Tudo o que precisava estava ali.

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in «Boas Festas», páginas 172-181
Silkskin Editora, Dezembro 2015


NOTA BIOGRÁFICA DA AUTORA
Suzete Fraga nasceu em Azurém, Guimarães, em 1978. Concluiu o nível secundário em 2012, através das Novas Oportunidades. A Rede Concelhia de Bibliotecas Escolares da Póvoa de Lanhoso atribuiu-lhe o Prémio do Escalão Público em Geral (maiores de 16 anos) no Concurso Literário António Celestino, no ano letivo 2011/ 2012. Exerce a sua profissão no setor têxtil, desde os 17 anos. No entanto, o sonho de enveredar no mundo da Literatura prevalece. Venceu o 6º Concurso Literário («O Poder do Vício») da Papel D’Arroz Editora. Participa na colectânea «Quando o Amor é Cego» da mesma editora, na antologia «A Bíblia dos Pecadores», organizada e coordenada por Isidro Sousa, e publicou este conto, «Tentação de Natal», na antologia «Boas Festas».

27 dezembro, 2015

O ARREPIO DE MICAELA


Texto de GUADALUPE NAVARRO
  
Os acordes de piano ressoavam através das paredes do edifício deixando seus moradores cansados de tanto ouvir aquela voz que tentava acertar o tom daquela belíssima canção tão adequada à data que se aproximava. Natal, alegria de crianças que esperam ansiosamente a chegada dos presentes tão desejados. Mas, à medida que a infância vai ficando para trás, o Natal vai perdendo seu encanto, assim pensava Micaela. Mas isto não impedia que desfrutasse das numerosas reuniões, sorteios de amigo oculto ou ir à igreja que ficava não muito longe de sua casa, para admirar o belíssimo presépio.
Esforçando-se ao máximo para .de Verdi, Puccinito ouvirioma.  Sendo ap pensava Micaela . tentar pronunciar da maneira mais correta o latim da letra de Adeste Fideles, canção que cantaria na festa de Natal de seu curso de pós-graduação em Filosofia Medieval. Micaela passa boa parte da tarde entre partituras. Acordara por volta do meio-dia, tomara um café e comera umas frutas, junto com umas folhas de alface e umas salsichas com mostarda escura. Se emocionara ao ler em seu inseparável Iphone as notícias do bombardeio de um hospital dos Médicos Sem Fronteiras. Vendo fotos e vídeos dos escombros do hospital e das vítimas, chorara copiosamente. Para se acalmar, abre uma garrafa de vinho branco, bebe uma taça e começa a ensaiar a canção.
Sentindo fome, resolve ir comer uma torta de chocolate amargo no café-restaurante em frente ao seu edifício. Toma banho, põe um vestido branco, calça umas sapatilhas, enrola uma echarpe verde no pescoço, coloca um par de brincos, pega a bolsa e sai. Não esquecera de vestir nada. Lingerie raramente toca o corpo de Micaela. Um corpo cheio de curvas, cintura fina, quadris largos, uma derrière que atrai muitos olhares masculinos.
No elevador encontra uma vizinha que elogia sua voz e perseverança. Micaela sabia que aquela senhora estava, com toda a educação, se queixando de ter tido que ouvir a mesma canção repetitivamente. Agradece o elogio, conversa sobre o tempo pois, tendo passado a infância em Londres, se contagiara da obsessiva mania britânica de falar sobre o tempo, e comenta sobre o bombardeio. A vizinha ignorava que tal absurdo tinha ocorrido. Micaela se revolta com tamanha insensibilidade, mas disfarça e despede-se.
Ao sair do prédio Micaela se depara com ele. Sente um arrepio lhe atravessar o corpo inteiro. Havia já alguns meses que Micaela não sentia este arrepio. Mas como, além da fome, tinha uma outra coisa que deveria fazer, com uma certa urgência, tenta desviar seus pensamentos para a torta que comeria e para Godofredo, o filhote de buldogue que nasceria em poucos dias e que passaria a fazer parte de sua vida. A escolha de nome tão peculiar era uma homenagem a um príncipe inglês do século XII. Geoffrey Plantagenet, o belíssimo e intrigante irmão de Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra, sempre despertara verdadeira adoração em Micaela. Geoffrey, desde os dezesseis anos, conspirara para roubar o trono de seu pai, Henrique II. Após a morte do pai, Geoffrey continua suas intrigas para destronar o novo rei, Ricardo, seu irmão mais velho. Pede ajuda ao rei da França, amigo muito íntimo, inimigo mais íntimo de Ricardo. Uma história de intrigas, traições e triângulos amorosos passada na Idade Média, época que Micaela adora.
Quando resolvera que um buldogue seria o novo companheiro de sua vida, Micaela procurou entre seus personagens medievais favoritos um nome adequado para o filhote. Geoffrey foi o escolhido, mas achara melhor Godofredo, versão portuguesa do nome. Tão logo nasceu a ninhada, Micaela foi visitar os filhotes. Encantou-se com o que aparentava ser mais fraco. Desde então, passara a comprar o enxoval de Godofredo. Toalhas, mantas e roupinhas. Comprara também pratos, mamadeiras e uma infinidade de brinquedos. Não se esquecendo de encomendar um berço de veludo vermelho, sua cor favorita.
Era esse berço que Micaela pegaria após comer sua torta favorita. Mas, repentinamente, isto pareceu meio irreal. A única coisa que passou a ser real era o arrepio que a visão daquele homem de cabelos grisalhos lhe causara. Micaela preferia homens mais novos, mas aquele homem, que certamente já passara dos quarenta, a olhara de tal maneira que o arrepio que ela conhecia tão bem voltara a atravessar seu corpo. Micaela não era muito de sentir este arrepio. Tão logo o sentia, sentia o clitóris a pulsar, sentia uma comichão no bico dos seios, sentia sua vagina umedecer. Micaela não sentia este arrepio com muita frequência. Sua vida sexual, comparada à de suas amigas, era calma. Mesmo assim, Micaela tinha muito o que contar.
Como a história do advogado que conhecera, estando em um bar com uma amiga. O sujeito estava mais interessado na amiga de Micaela, e Micaela estava mais interessada em tomar sua segunda caipirinha. Era verão, calor insuportável, o álcool a correr por suas veias, faziam Micaela ferver de calor. Pede um copo com gelo e coloca uma pedra de gelo entre as pernas. O advogado fica atônito com a desenvoltura com que tal gesto é feito. A amiga tenta imitar Micaela, mas a cópia nunca é como o original. O advogado esquece a amiga e avança para cima de Micaela com toda a artilharia. Não sendo possível fazer frente à artilharia pesada, a rendição ocorre na sala do apartamento do advogado, com Micaela sendo penetrada de quatro, berrando de prazer... Receoso que tais berros saíssem das paredes de seu apartamento, o advogado tapa a boca de Micaela, gesto este que a enfurece, fazendo-a morder um dedo da mão do advogado. Que também se enfurece. O resultado de tanta fúria foi uma das melhores trepadas da vida de Micaela.
Outra história que as amigas de Micaela adoravam era a do motorista de sua prima. Micaelat estava visitando a prima, cujo motorista era um sujeito simpático e falante. Adorava conversar, coisa que Micaela também apreciava. Uma noite, Micaela, a prima e algumas amigas encontram-se em um bar para comemorar o noivado de uma das garotas. Micaela e a prima exageram nos piscos sauer e, enfadadas com a conversa sobre a aliança de diamantes recebida pela noiva, resolvem ir a uma livraria procurar um livro do poeta César Vallejo. No caminho param em um vendedor ambulante que vendia echarpes. Justamente este vendedor de rua tinha a echarpe de um tom de vermelho que Micaela procurava em todas as lojas. Após comprar o livro, a prima chama o motorista que chega rapidamente. Após deixar a prima em casa, o motorista deveria levar Micaela para a casa do tio em que ela estava hospedada. Mas de repente Micaela sente um incontrolável desejo de ver o mar e pede que o motorista pare. Estava frio. O vento gelado provoca o arrepio que Micaela conhecia muito bem. Em um piscar de olhos, Micaela ataca o motorista que tinha descido do carro para acompanhá-la a caminhar pela areia. Os dois acabam no banco de trás envoltos em uma sinfonia de graves e agudos ressoando por entre o ruído  das ondas e do vento. Ao voltar para casa, Micaela encontra o tio ainda acordado. Este indaga a razão de chegar a tal hora. Para o tio, Micaela ainda era aquela menina que fora morar em outro país, após a morte do pai e o segundo casamento da mãe com um diplomata estrangeiro. Micaela conta a verdade, em parte. Conta que teve vontade de ver o mar e, acompanhada do motorista de confiança da prima, fora dar um passeio à beira mar. O tio acredita, candidamente. Seria difícil não acreditar em Micaela, uma garota que passara a adolescência entre livros e mesmo já adulta não gostava muito de festas e nem tinha tido um namorado conhecido. Não que ninguém nunca tivera se apaixonado por ela mas, para Micaela, amor, para ser verdadeiro, tinha que ser transgressor. Como o de sua tataravó paterna que, desafiando convenções, amara e tivera filhos com um padre.
Micaela tinha muito para contar sobre suas aventuras sexuais. Não que fosse promíscua, pelo contrário, em comparação com suas amigas tinha tido poucos amantes. O que era interessante na vida sexual de Micaela eram as circunstâncias, os seus parceiros. Todos penetraram o seu corpo, nenhum tocou seu coração.
Mas ao ver o homem de cabelos grisalhos andando em sua direção, o medo se apossa de Micaela. Lembra-se do que acabara de ocorrer a uma de suas melhores amigas. As duas tinham ido assistir a um show de música africana. Assim que chegaram, a amiga de Micaela se interessa por um verdadeiro deus de ébano que fazia parte do grupo musical que estava tocando em um centro cultural. Depois do show as duas foram até o camarim para agradecer os convites ao produtor, amigo de Micaela. A intenção de Micaela era agradecer os convites, conversar um pouco, tirar umas fotos para postar nas diversas rede sociais que participava. E voltar para casa, pois tinha que acabar de ler um texto para uma prova no dia seguinte. Assim o fez, deixando a amiga na mais absoluta adoração ao deus de ébano. A amiga adorava homens cor de ébano, sempre elogiando o vigor destes nos embates sexuais. Micaela queria comprovar se isto era verdade. Tentara algumas vezes, mas o máximo que conseguiu foi uma chupada nas escadas do edifício de um casal amigo que, naquela noite, comemorava seu quinto aniversário de casamento com um jantar. Micaela apreciara a chupada, mas não pudera terminar de comprovar o que tanto lhe despertava a curiosidade pois, devido a um cigarro jogado em cima de um tapete que provocou pouco fogo, mas muita fumaça, um verdadeiro pandemônio tomou conta do edifício. Todos começaram a descer pelas escadas, tão apavorados que sequer repararam naquela mulher com as pernas arregaçadas ou no homem cuja cabeça e torso se escondiam entre as saias do vestido da mulher. A histeria era tal que um sujeito tropeçou em Micaela, caindo em cima de seu parceiro. Resultado: os dois acabaram com contusões sérias. Quanto a Micaela, tinha apenas mais uma história para contar e fazer suas amigas rir de suas aventuras.
Mas na noite em que Micaela deixara sua amiga com o deus de ébano, nem tudo acabara em risos. Micaela tinha adormecido, rodeada de textos e alguns bichinhos de pelúcia que faziam parte da enorme coleção acumulada ao longo de anos. Acordada pelas notas de Bach de seu Iphone, pois Micaela adorava Bach e colocara uma de suas composições como toque de chamadas do aparelho, Micaela responde e reconhece a voz da amiga. Estava internada em um hospital, com hemorragia vaginal, causada pela violência do ato sexual. Também quase fora estrangulada, pois o deus de ébano a esganara durante a trepada. Depois deste dia, Micaela prometera a si mesma em tomar cuidado e não se deixar dominar pelos arrepios que, de tempo em tempo, lhe assaltavam o corpo. Tudo isso passa pela cabeça de Micaela enquanto o homem de cabelos grisalhos se aproxima. Micaela não consegue se mexer, tal a intensidade do olhar azulado daquele belo homem, vestido casualmente, mas nem por isso menos elegantemente. Micaela resolve encarar a situação. O homem grisalho pergunta se, por acaso, sabia onde ficava a loja de roupas que um amigo lhe indicara. Conta que está de passagem pela cidade, voltando para casa após um congresso de publicidade. Por um desses acasos que só o destino pode explicar, Micaela conhecia o gerente da loja de roupas, onde ela comprava presentes para seus amigos. Micaela explica o caminho para chegar à loja e também lhe fala da qualidade das roupas ali vendida. Mas como tudo isto não passava de desculpa para um primeiro contato, os dois começaram a rir. O homem de cabelos grisalhos disse seu nome: Alexandre. Micaela logo se lembrou de um de seus heróis, o grande Alexandre, que conquistou um império que só não foi maior que o amor que o uniu a Hefestion que, ao partir deste mundo, deixou o grande conquistador desolado, contribuindo para sua prematura morte. Esta paixão avassaladora sempre despertou o romantismo em Micaela. Era este tipo de amor que Micaela queria em sua vida. Não o encontrando, Micaela seguia pela vida à mercê dos arrepios que, ocasionalmente, atacavam seu corpo.
Alexandre sugere que continuem a conversa no café em frente. Micaela se lembra do berço de Godofredo que deveria buscar. Explica isto ao grisalho. Alexandre estranha o nome do bebê, pensando tratar-se de um possível filho da jovem. Mas antes de poder dizer qualquer coisa, se viu ante a porta de um táxi, com Micaela puxando-o para dentro do veículo. Micaela pega o seu Iphone e mostra fotos do filhote de buldogue. Começa a contar a história do príncipe inglês cujo nome acabou sendo escolhido para nome de um lindo cãozinho. Qualquer homem teria estranhado a desenvoltura com que aquela jovem mulher de cabelos avermelhados o puxara para dentro de um carro. Certamente, a teria considerado uma doidivana ou coisa pior. Mas havia uma certa inocência, uma certa candura naquela jovem que tornava impossível julgá-la com severidade. E durante o curto percurso, de menos de cinco quilômetros, os ouvidos de Alexandre foram bombardeados por um turbilhão de palavras pronunciadas pelos carnudos e sensuais lábios de Micaela. A velocidade com que Micaela mudava de assunto, a diversidade de temas sobre os quais Micaela falava, com um conhecimento que não era superficial, deixaram Alexandre atônito. Tão atônito que mal percebe que tinham chegado à frente da petshop. Micaela pede ao taxista que a espere. Sai rapidamente do veículo e, entrando no interior da loja, para em frente a uma árvore de Natal com bolas vermelhas. Alexandre vê Micaela falando com o vendedor e a escuta negociando a compra da árvore de Natal. Como se tratava de parte da decoração da loja, o vendedor chamara o gerente. Micaela começa a contar a história da popularização do costume germânico de decorar pinheiros com bolas de vidro e outros enfeites. Tudo tinha começado com o casamento da Rainha Vitória da Inglaterra com o príncipe Albert de Saxe-Coburgo-Gotha. O príncipe tivera que engolir seu orgulho de macho e aceitar que quem reinava sobre o vasto império britânico era a esposa e não ele, dedicando sua vida a supervisionar a educação dos filhos e a cuidar de assuntos tão importantes como a decoração natalina dos inúmeros palácios da esposa. Assim sendo, todo Natal mandava trazer pinheiros das florestas da Saxônia. O vendedor e o gerente fingem estar interessados na história, escutando pacientemente o relato. Alexandre se aproxima da árvore para tentar descobrir o motivo pelo qual esta árvore, aparentemente igual a tantas outras, se tornara tão importante para Micaela. Observa as bolas e vê, em cada uma delas, a imagem de filhotes das mais variadas raças. Entende a importância daquele filhote de buldogue, de nome tão peculiar, na vida daquela bela e atraente mulher. Um sentimento de ternura dominou Alexandre, mas antes que pudesse analisar calmamente tal sentimento, se viu carregando um pacote com o berço de Godofredo e Micaela a lhe explicar o acordo que tinha feito com o gerente. Perante a insistência de Micaela, não restara ao pobre gerente conseguir com o fornecedor duas dúzias de bolas iguais às que enfeitavam a árvore de Natal da loja. Com seu Iphone, Micaela tira várias fotos da árvore da loja. Quer tirar uma foto de Alexandre, mas este pede que não o faça, alegando que não gosta muito de tirar fotos, sem perceber que aparecia em duas fotos que Micaela tirara.
De volta ao táxi, sem parar de falar na necessidade de encontrar um pinheiro, Micaela, subitamente, pega a mão de Alexandre e a coloca entre suas pernas. Este sente a umidade perneando seus dedos. Micaela olha Alexandre nos olhos, morde suavemente seu lábio inferior e com a língua acaricia sua orelha. Alexandre, em um misto de excitação, surpresa e espanto, começa a passar as mãos pelas coxas de Micaela. O taxista que, olhando pelo retrovisor, nada deixara escapar, avisa que tinham chegado ao edifício, onde Micaela morava. Esta, antes que Alexandre pudesse dizer qualquer coisa, paga e sai rapidamente do táxi. Alexandre pega o berço de Godofredo e a segue. No elevador cruzam com um vizinho, rapaz de boa aparência que estava carregando vários embrulhos de presentes. Micaela começa a falar das bolas que encomendara e da necessidade de comprar um pinheiro. O rapaz conta que tinha encomendado um pinheiro antes de saber que seu namorado comprara uma árvore de fibra ótica e que, se Micaela aceitasse, poderia lhe dar o pinheiro. Micaela, visivelmente emocionada, aceita e beija o rapaz carinhosamente. Sai do elevador andando rapidamente até à porta de seu apartamento, abre a porta, entra, pega o berço de Godofredo das mãos de Alexandre, o coloca sobre uma mesa, se aproxima de Alexandre, lhe beija o pescoço, começando a desabotoar sua camisa, acariciando seu peito. Alexandre segura seu rosto e a beija na boca. Um longo beijo. Suas línguas se acariciam. De repente Micaela se afasta e vai até à cozinha. Abrindo a geladeira, pega a garrafa de vinho que guardara algumas horas antes, se serve uma taça, bebendo um bom gole, oferece uma taça a Alexandre que, sem nada falar, bebe. Alexandre puxa Micaela para perto de si, mas esta escapa de seus braços, novamente abrindo a geladeira, desta vez tirando uma jarra com água. Bebe um copo cheio deste líquido e passa por Alexandre, sem olhá-lo, sem nada falar. Aliás, o silêncio de Micaela, desde que chegara em casa, começa a perturbar Alexandre. Decidido a tentar conversar com Micaela, vai à sala e não a encontra. Entra no corredor e vê uma porta fechada, bate na porta. Não há resposta. Um sentimento de medo vai se apoderando de Alexandre. Insiste em bater na porta. Finalmente, Micaela aparece. Vestia um roupão de seda vermelho e conta que, por estar com fome, tinha pedido uma pizza, chegaria em uma hora. Sem dizer mais nada, pega Alexandre pela mão, leva-o até à cama, empurra-o. Alexandre cai sentado. Micaela tira o roupão se inclina e começa a abrir a calça de Alexandre...
O interfone toca, Micaela veste o roupão vermelho e sai rapidamente do quarto. Alexandre, ainda ofegante, se dirige à sala onde vê Micaela sentada à mesa de jantar, comendo uma segunda fatia de pizza. Depois, vai à cozinha, pega um pote de sorvete de chocolate e oferece educadamente um pouco a Alexandre, este recusa, ela come tudo. Alexandre observa, calado. A mulher doidivana, de comportamento transloucado, o cativara. Aquela hora passada com ela na cama tinha sido sublime. Não se tratava de uma mulher qualquer. Era bela, culta, interessante. Porém, estando separado da esposa, com quem tinha uma filha de nove anos e estando a menina com dificuldade em adaptar-se à nova situação familiar, fizera uma promessa à menina de voltar para casa. Combinara com a esposa que tentariam uma reconciliação, não só pela menina, mas porque, apesar do desgaste da relação, ainda se amavam. Não apaixonadamente como antes, mas com um amor sereno e maduro. Alexandre tinha planejado voltar para casa no Natal. Tinha tido alguns encontros com a esposa para tentar reacender a chama sexual entre os dois. Os encontros tinham dado certo. Tinha mandado fazer novas alianças para ele e a esposa. Tinha planejado tudo. Só não tinha planejado cruzar com Micaela na rua e acabar traindo a esposa, antes mesmo de com ela reconciliar-se. Enquanto Alexandre remoía suas dúvidas e culpas, Micaela conversava com alguém por WhatsApp. Estava tão absorta na conversa que sequer percebera a aproximação de Alexandre e, assombrado e perplexo, lia o diálogo e via as fotos que sua amiga Tatiana lhe mandava. Tatiana era meia-irmã da esposa de Alexandre e fizera uma pós-graduação em Museologia na cidade onde Micaela morava. Um dos colegas de Tatiana no curso tinha sido Frederico, o rapaz que presenteara Micaela com o pinheiro que ela tanto desejava.
Adorando museus, Micaela sempre frequentava o museu onde Frederico e Tatiana estagiavam. Acabaram se tornando amigos daquela mulher que ficava tardes inteiras admirando esculturas e quadros. Numa destas tardes, os três conversavam animadamente, na cafeteria do museu, quando um homem em seus trinta e tantos anos se aproxima da mesa. Era Pedro, vizinho de Micaela, que, sendo advogado, estava tratando do divórcio do diretor de museu que, devido à próxima inauguração de uma exposição com obras de Kandinsky, mal tinha tempo de sair do local e por isso pedira ao advogado que fosse até o museu para discutir as exigências da ex-mulher. Pedro e Frederico se apaixonaram e, em menos de três meses, Frederico se tornou vizinho de Micaela.
Tendo visto uma das fotos na petshop que Micaela postara em uma rede social, Tatiana estava contando à amiga quem era o homem grisalho e mandando fotos do cunhado com a família. Alexandre leu a resposta que Micaela escrevera: “Teu cunhado?! Poderia mentir, inventar uma estória. Mas não vou fazê-lo! Sou tua amiga, não gosto de mentir. Sinto muito, como poderia imaginar que é marido da tua irmã? Melhor não contar nada. Mas sei que não contar vai ser difícil. Pense em tua sobrinha. Ela é quem mais importa!”
Micaela vira o rosto e encontra os olhos de Alexandre, olhando-a com um misto de surpresa e medo. E dando gargalhadas se levanta, vai até o quarto, entra no banheiro, toma uma chuveirada, veste um vestido vermelho, pega uma echarpe cor de areia, coloca brincos de Murano vermelho em forma de gotas, calça uns sapatos vermelhos de salto alto, troca de bolsa, escolhendo uma da mesma cor que a echarpe, coloca um pouco de perfume, se dirige para a sala, vai até o piano, pega a pasta com suas partituras e passa por Alexandre sem falar nada. Quando já está na porta se vira e, olhando Alexandre com um olhar cheio de malícia, diz:
– Feliz Natal!

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in «Boas Festas», páginas 79-88
Silkskin Editora, Dezembro 2015


NOTA BIOGRÁFICA DA AUTORA
Nascida em Lima, Peru, Guadalupe Navarro vive no Rio de Janeiro, Brasil. É bacharel em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com pós-graduação em Filosofia Contemporânea. Participou em diversas antologias de poesia, no Brasil e em Portugal. Em 2015, publicou o livro «Poemas da Alma», pela Pastelaria Studios Editora. A convite de Isidro Sousa, faz a sua estreia em prosa na antologia «A Bíblia dos Pecadores», com «A Estátua de Sal», e publicou «O Arrepio de Micaela» na antologia «Boas Festas».

26 dezembro, 2015

O REGRESSO DE SAMUEL


Finalizado o ensino secundário, a maioria dos meus colegas zarpou pelo mundo fora. Eu continuei em Mourisca da Beira, a vila onde nasci, a trabalhar no posto de gasolina dos meus pais porque adorava tudo o que se relacionasse com automóveis, altas velocidades e a sensação de poder que estas máquinas transmitem. Deliciava-me a repará-los quando avariavam e até sonhava em um dia pilotar um carro de corridas. Todavia, as coisas mudaram. O novo posto de gasolina da recém-inaugurada via rápida, não muito distante de Mourisca da Beira, era self-service e oferecia preços competitivos. Não obstante, algumas pessoas gostavam ainda de ser atendidas com um sorriso, ter o seu pára-brisas limpo e o óleo revisto ou mudado por um especialista. Pelo menos, era o que o meu pai dizia.
O tempo passava devagar. Quase sem me dar conta, as folhas começaram a desprender-se das árvores e o frio do Inverno fez-se sentir. Já era a época dos feriados iniciais de Dezembro. Entretanto, o Natal chegou rápido e, com esta quadra festiva, todos os parentes e amigos da vizinhança. A seguir, eis o último dia do ano. Como havia pouco movimento no posto de gasolina, planeei fechá-lo mais cedo. Os meus pais haviam ido festejar o réveillon com uns amigos na Quinta do Mocho, que se situava nas brenhas da Serra Mourisca, na direcção de Vila Rica, mas eu, nesse ano, preferi ficar em casa. Porquê? Não sei.
Era cedo, no entanto, escurecia. Já prestes a encerrar o estaminé, ouvi um forte ruído proveniente da zona das bombas de gasolina. Ao volante daquele carro, eis um rapaz que trajava um uniforme de marinheiro e usava um chapéu branco. Pareceu-me familiar, assim como o veículo.
– Hei, gajo, como é que vais?
– Samuel?! – balbuciei, surpreso.
– Eu mesmo – respondeu ele, sorrindo.
– Viraste marinheiro?
– Hum, hum! Agora sou propriedade do Estado.
– Minha Nossa Senhora...
– Dá-me vinte euros de gasosa. Os meus velhotes vão passar a passagem-de-ano com uns amigos e ainda têm uma porrada de quilómetros pela frente.
– Não vais com eles?
– Não fui convidado.
Pus a mangueira no depósito do automóvel e abasteci-o com gasolina sem-chumbo, antes de lhe limpar o pára-brisas. Sentia-me nervoso e excitado por rever o Samuel. Na verdade, eu tinha uma queda por ele. Nunca admiti essa atracção física, nem sequer para mim próprio, pelo menos até essa noite festiva, mas ele era, realmente, o meu ideal de homem.
– Feliz Ano Novo – murmurei pela enésima vez nessa tarde.
– Como é que vais festejar? – quis saber ele.
– Provavelmente, vou embebedar-me – redargui, num tom fanfarrão.
– Queres companhia? Não tenho planos.
– Claro! Dá um pulo lá em casa. Vou fechar agora.
– Primeiro, tenho de levar o carro aos velhotes. Vejo-te então daqui a uns minutos.
Ele pagou o combustível e foi embora.
O Samuel, marinheiro! A vida não é surpreendente? E eu ia passar o réveillon com ele! Só pensava nisso. Quando entrei na praceta onde vivia, deparei com o belo marine junto à porta do meu prédio; esperava que eu chegasse. Um misto de nervosismo e excitação apoderou-se do meu ser. Atrapalhei-me com as chaves, mas lá consegui abrir o raio da porta.
Já dentro de casa, o Samuel exclamou:
– Boas entradas, gajo!
– Bom ano, marujo!
– Guarda costeiro – corrigiu ele, apontando o emblema na manga do uniforme que designava a sua função na Marinha.
– Certo, Samuel. Que queres beber?
– Qualquer coisa, mas prefiro cerveja.
– Há montes de cerveja no frigorífico.
O Samuel pousou o boné na mesa da sala. Parecia tão masculino naquela farda de marinheiro! Eu podia apreciar todas as curvas do seu corpo naturalmente musculoso. Apesar de vestir uma camisa sob o casaco, era possível vislumbrar-lhe alguns tufos de pêlos despontando no peito. Isso, somado ao cabelo castanho cortado bem curtinho e aos olhos cor-de-avelã, fazia-o parecer mais velho do que a maioria dos rapazes da sua idade.
– É óptimo ter companhia na passagem-de-ano. Aposto que estás com fome – sussurrei, tirando alguns petiscos do frigorífico e pondo pão, carnes fumadas, presunto, azeitonas e queijo da serra em vários pires. Devorámos a comida num instante, regada com boa cerveja.
– Estavas com fome, hem – comentei.
– Como que nem um pássaro. Sou um abutre!
Liguei o rádio na estação que tocava rock e deixei-o num volume mais alto do que os meus pais jamais teriam permitido. De certeza que nenhum dos vizinhos chamaria a polícia – não nessa noite, em que toda a gente comemorava a chegada do Ano Novo. E pensar que eu ia passar um serão enfadonho, demasiado tranquilo, bebendo umas cervejolas sozinho...
– Hora de festa! – anunciei, erguendo-me da mesa.
Estar na companhia do Samuel animava-me... deixava-me mais feliz do que estivera durante aqueles últimos meses solitários. Era como recuar aos bons velhos tempos de liceu.
– Ainda andas às voltas com as bombas?
– É um trabalho – volvi sem ânimo.
– Não esperas mais da vida?
– Achas que devia ir para a Marinha? Recebes comissão para angariar recrutas?
O Samuel soltou uma gargalhada estrondosa. Prossegui:
– Não teve piada, eu sei. Porquê guarda costeiro, afinal?
– Porque estava à mão – brincou ele. – Não, nada disso, Berto! Porque patrulho a costa portuguesa, ajudo e resgato marujos ou pescadores encalhados e outros civis com problemas nas suas embarcações – uma cambada de bêbados que gosta de fazer farras em alto mar sem ligar patavina à segurança, principalmente nas águas algarvias. É um trabalho, alguém tem de o fazer. Mas diverte-me.
As horas voaram rápido. Entornámos imensas cervejas. Já era quase meia-noite quando liguei a televisão para ver a contagem regressiva naqueles programas de sempre.
– Oh, já vai começar!
Ouviu-se então o barulho de toda a vizinhança, gritando e berrando, dando as boas-vindas ao Ano Novo. O Samuel abraçou-me, porém, como ele já se encontrava um tanto alcoolizado, não achei que isso significasse muita coisa. Retirei do frigorífico uma garrafa de espumante barato, comprado no Minipreço, e estourei a rolha.
– Feliz Ano Novo – ciciei, brindando e bebendo o líquido borbulhante.
– Gosto mais de cerveja – reclamou o Samuel, soltando um arroto.
No rádio prosseguia a música rock e nós celebrámos madrugada adentro, bebendo mais cervejas. Eu sentia-me desapontado com o facto de nada mais íntimo proporcionar-se entre ambos, mas a verdade – devo assumi-la – é que nós os dois já estávamos bem lá de Bagdade. Em pouco tempo, acabámos derreados no chão da sala. Embriagado do jeito que eu estava, sonhei com o Samuel fardado, e depois nu. Por volta das seis horas da manhã, acordei com uma bruta dor de cabeça. Avistei o Samuel esparramado no seu uniforme de marinheiro e rastejei até ele.
– Samuel, queres ir para a cama?
– Oh, Berto! Feliz Ano Novo!
– Dois perdidos numa noite suja...
Pus a música num volume bem baixinho e ajudei-o a caminhar até ao meu quarto para dormir na minha cama, na qual ficaria mais confortável.
– Vamos dormir no chão – sugeriu ele.
– É melhor despires a farda senão fica toda amarrotada – alertei, afastando as almofadas da cama e colocando-as no chão, juntamente com um cobertor e o edredão.
Mal o Samuel começou a despir-se, fiquei sóbrio num ápice. Ele era maravilhoso! Tirou a roupa devagar... para meu deleite, tenho a certeza. Ao vê-lo somente de cuecas e camisa interior, pareceu-me um homem e tanto. Magnífico! Era muito mais peludo do que na época escolar, mas a artilharia entre as suas pernas parecia tão deliciosa quão eu havia guardado na memória. Nisso, ele olhou para mim e inquiriu:
– Não vais tirar as tuas roupas?
Despi-as, ficando só de camisa e cuecas.
– Tira tudo – exigiu ele.
Fiquei a olhá-lo de olhos arregalados enquanto ele se desenvencilhava da camisa interior, revelando o peito peludo, e das cuecas, exibindo finalmente a sua ferramenta grande e macia.
– Nada mau! – exclamei, com os olhos cravados naquele instrumento. A neblina da ressaca dissipava-se definitivamente.
– E agora vamos ver o que é que tu escondes aí – atirou o Samuel, perfeitamente consciente de que eu avaliava e cobiçava o seu material.
O meu corpo era lisinho, mas quando despi as cuecas ele descobriu que a minha pila era tão grande quanto a dele, embora menos grossa. Então, para meu embaraço, a danada arrebitou.
– Gostas do que estás a ver? – indagou ele, percebendo a minha reacção.
– Sim, Samuel. Sempre tive uma queda por ti – confessei, meio constrangido.
Ele estendeu os braços e disse:
– Vem cá, bebé...
Joguei-me neles. O Samuel abraçou-me com força e puxou-me para o chão, deitando-nos sobre o edredão, eu por cima dele, um nos braços do outro.
– Abraça-me mais, Samuel – implorei.
– Nunca te vou largar, gajo – prometeu ele.
Rios de fluidos escorriam do meu falo, molhando-lhe a floresta púbica.
– Beija-me, por favor.
Os seus lábios saborosos pressionaram os meus com força. Meti-lhe a língua na boca e ele devorou-a. Para culminar, os membros endureciam mais ainda e eu sentia a sua pica rija a duelar com a minha. Afastei-me para respirar um pouco, dando fim ao beijo mais apaixonado da minha vida, e montei-lhe sobre as coxas peludas.
– Oh, Samuel, sonhei tanto com isto!
Esfregava ambos os pénis, masturbava-os, fazendo claras gotas de sémen escorrerem da uretra do Samuel. Os órgãos róseos roçagavam-se um no outro. Quando estavam a ponto de se incendiar e soltar centelhas de esperma, parei de os manusear. O Samuel pegou-me nas mãos, levou-as aos seus mamilos. Sob a cobertura de pêlos, encontrei os bicos duros. Apertei-os. Ele gemeu e o seu mastro agitou-se. Mas eu queria sentir-lhe cada pedaço do corpo. Acariciei-lhe o umbigo, massajei-lhe os flancos, brinquei com os pés. A seguir, afastando-lhe as pernas, explorei a parte interna do rego peludo até lhe sentir a humidade anal. A sua tranca continuava erecta; passei-lhe os dedos ao redor e apertei-a.
– Bate-me uma, Berto. Por favor!
Toquei-lhe nos testículos rijos, enquanto o masturbava.
– Mete-me um dedo... – pediu, visivelmente ansioso.
Lambi um dedo e explorei-lhe o rego, até achar o anel carnudo. Masturbava-o e empurrava o dedo para dentro daquele orifício apertado, ele agonizava no chão e sorria para mim. Nunca senti tanta excitação como nesse instante, ao enterrar o dedo no rabo do guarda dos meus sonhos. Nisto, o Samuel passou uma mão pelo meu corpo, puxou-me para si e deu-me outro beijo apaixonado enquanto os meus dedos lhe perfuravam a gruta, massajando-a e procurando alargá-la com movimentos circulares; com a outra mão, acariciava-lhe o corpo, sentindo cada milímetro daquela massa de carne palpitante. A mão dele, por sua vez, deslizava cada vez mais pelo meu corpo e a ânsia de atingir a minha serpente era bem perceptível por mim.
Após esses carinhosos preliminares, decidi avançar... acerquei-lhe a boca do mastro e iniciei a tarefa. O Samuel adorou! A sua respiração ofegante e o descontrolo muscular eram sinais de verdadeiro êxtase. Ele quis então retribuir o gesto: sem nunca me retirar a chupeta da boca mas libertando o rabo do meu dedo, rodou sobre mim e pegou no meu caramelo, aproximando-o dos lábios. Senti primeiro a sua língua sedosa a perscrutar-me a glande e depois, aos poucos, a boca a absorver-me o membro carnudo. Sensação esplendorosa! Aquele poder muscular, esparramado ali sobre mim, a fazer-me sexo oral, naquele chão efervescente do meu quarto solitário, foi um delírio. Após algum tempo nessa posição deveras prazenteira, o Samuel fez-me entender que beijos ardentes e toques fogosos de corpo a corpo já eram insuficientes para si. Ele queria mais... muito mais... e foi directo ao assunto:
– Fode-me, Berto! Mete-me esse caralho no cu...
Colocando-se de gatas, pousou a cabeça numa almofada com os glúteos arrebitados no ar e pediu-me para ter cuidado e paciência já que (segundo as suas palavras) era a primeira vez que ofertava o rabinho. Cuspi numa mão e lubrifiquei-lhe o anel com a saliva. Embora já lhe tivesse introduzido um dedo minutos antes, pressentia que necessitava de lubrificação. Passei-lhe o meu falo, repetidamente, no orifício anal e fiz alguma pressão, penetrando-o aos poucos. Deslizava a bichana sempre para dentro, forçando-a a desbravar caminho naquele canal bem estreitinho, todavia, ao mesmo tempo que a enterrava mais um pouco retirava-a de imediato, esperando conseguir, desse modo, um maior relaxamento da parte do Samuel. Quando ministrei uma investida maior, senti-lhe as pernas desfortalecerem e ouvi os gemidos que ele largava, com o rosto mergulhado nas almofadas. Perguntei-lhe se queria continuar. Respondeu que sim; apesar de a penetração ser dolorosa, aguentaria até ao fim, nem que fosse apenas uma vez na vida! Mal a sua cavidade anal se adaptou à grossura da minha pica, passei a estocá-lo com força, cada vez com mais garra, até que ele manifestou o desejo de mudar de posição. Mandou então que me deitasse de costas no chão e sentou-se-me no dardo.
Desta vez, o Samuel fez tudo sozinho: pegando no meu bacamarte, colocou-o no sítio exacto, isto é, apontado ao ânus, e foi-se empalando, afogando o ganso inteiro nas suas entranhas. Parou um pouco, suspirou e rebolou o rabo até sentir o invasor bem aconchegado na sua caverna. Assim que se achou mais confortável, passou a cavalgar-me. Subia e descia, subia e descia... Agora, era ele que saltava em cima de mim e masturbava-se em simultâneo, até dar sinais de estar prestes a atingir o orgasmo.
– Oh, meu Deus!... Ai, Berto... vou-me vir! – gemeu ele, minutos volvidos nesse embalo, contraindo os glúteos e sugando a cobra latejante mais para dentro.
Nessa altura, a minha verga já alcançara proporções gigantescas, no entanto, ele reteve-a dentro de si, prendendo-a e segurando-a com os músculos anais, enquanto a dele cuspia bolas viscosas, brancas como pérolas. Sentir o peito inundado de sémen e a contracção muscular do seu olhinho traseiro, juntamente com os gemidos de prazer, fez que lhe bombasse no rabo com punho de ferro até ejacular igualmente nas profundezas da sua alma.
E ficámos deitados, resfolegantes, corpos abandonados naquele chão. Passei os dedos na substância viscosa por ele derramada e esfreguei-a pelo seu torso inteiro até os pêlos brilharem de tanta seiva. O Samuel mantinha-se esparramado ao meu lado, praticamente imóvel, mostrando-se realmente exaurido, e provavelmente com o corpo dorido. Entretanto, levantei-me e fui à casa de banho lavar-me. Instantes depois surgiu ele, com um resplandecente sorriso no rosto. Lavou-se também e acabou por dizer uma piada:
– Achas que se nota muito no andar? Isto ainda arde um bocado...
Regressámos ao quarto, trocámos confidências e adormecemos abraçados. Na realidade, acho que eu adormeci primeiro... o cansaço resultante do trabalho nas bombas de gasolina, a quantidade de álcool ingerida e o sexo frenético com aquele deus grego dos meus sonhos... foi deveras esgotante. Derrubava qualquer um por terra.
Acordámos no primeiro dia do Ano Novo com os morcegos duros como as rochas e acariciámos, levemente, o corpo um do outro durante longos minutos. Enquanto lavrávamos carícias matinais nas peles excitadas, masturbávamo-nos mutuamente. Quando já me sentia prestes a explodir, virei o Samuel de bruços e jorrei-lhe o meu néctar efervescente no rego peludo. A seguir, ele montou-me no peito e esfregou-me a glande nos mamilos enrijecidos. Enterrei-lhe, então, um dedo no ânus, até ele ejacular copiosamente, cegando-me com a brancura do néctar que deixou os meus cabelos pegajosos. Ficámos abraçados amorosamente por um bom tempo, até decidirmos, juntos, ir tomar um duche revigorante.
Dentro do polibã, após correr a porta de vidro, o Samuel recomeçou a beijar-me enquanto a água quentinha aconchegava os corpos inflamados, deixando-me novamente de pau feito. Então, dei azo às fantasias que tivera com ele nos balneários do liceu. Peguei-lhe no bacamarte que já estoirava também de tão duro, apertando-o com tanta força que ele gemeu baixinho e pediu que o chupasse. Sem demora, ajoelhei à sua frente e pude rever o que me esperava: um vergalhão grande e grosso, de cabeça lustrosa e uretra entreaberta, gotejando fios de esperma. Mal pude colocar na boca tamanha grossura!
O Samuel pressionava com força a minha nuca de encontro às suas virilhas e estocava o falcão na minha boca sequiosa. De repente, puxou-me para cima e beijou-me freneticamente, enquanto as mãos inquietas comprimiam e massajavam as minhas nádegas, deixando transparecer a intenção de possuir-me. Delirei! A cara mais linda dos meus sonhos, após ter tido o privilégio de ver o seu templo sagrado por mim inaugurado, estava ali nos meus braços, prestes a enrabar-me! Nesse momento, era tudo o que eu mais desejava: sentir a sua jibóia expectante dentro de mim, a explorar-me as entranhas, devorando todo o meu ser, tal como ele experimentara a minha ferramenta nas últimas horas! Não obstante, o Samuel tardava a virar-me de costas para si, deixando-me ainda mais ansioso, e nervoso. A minha bichana deslizava desvairada entre as suas pernas, mesmo por baixo dos testículos pesados, como que buscando caminho na direcção do orifício já profanado, ao mesmo tempo que o seu tronco carnudo, tão erecto quão a Torre dos Clérigos, roçagava-me a barriga. Já me sentia prestes a ejacular de tanta excitação quando ele, verdadeiramente perspicaz e pondo termo à minha ansiedade, sussurrou-me ao ouvido que queria comer-me. Não hesitei mais!
Voltei-me rapidamente de costas, apoiei-me na torneira e arqueei o rabo. O Samuel esfregou o seu membro portentoso no meu rego; em simultâneo, a sua mão direita apertava o meu tarugo que, sem se conter mais, vomitou o néctar que há muito ameaçava explodir. Percebendo a situação, o Samuel enterrou-me o falo poderoso com tanta força que me fez ver estrelas e ganir de dor. Quase pulei para a frente, desencaixando-me dele, porém, os seus braços musculosos retiveram-me. Rodou-me a cabeça, beijou-me, sufocando os meus gemidos, e passou a bombardear-me com a garra de um felino, qual leão em fúria na tormenta do cio... a excitação era tremenda... fazendo a horrenda dor inicial sumir e uma enorme sensação de prazer surgir. Estocou-me com gana durante longos minutos, como se não houvesse amanhã, até que senti a verga inquieta a pulsar dentro de mim, despejando uma exorbitante quantidade de espermatozóides malucos à procura de alguma coisa que jamais encontrariam nas minhas entranhas febris.
O Samuel, mantendo-se por trás de mim, com aquele mastro enorme ainda mergulhado na minha caverna, deu-me um abraço apertado num misto de carinho e satisfação, enquanto a água quentinha escorria sobre os nossos corpos luxuriosos, até que o rolo de carne sensual, por fim, amoleceu e escorregou para fora do anel... um anel verdadeiramente arrombado pela pila dos meus sonhos.
Foi a passagem-de-ano mais emocionante que já vivi. Creio que o Samuel, embora não o expressasse por palavras, fruiu da mesma felicidade. Mais tarde, antes de ele ir embora, vimos um programa na televisão enquanto brincávamos e nos saciávamos com o brinquedo um do outro. Apesar de ter perdido a conta, certamente que ejaculei mais vezes nessas vinte e quatro horas do que em qualquer outra vez na minha vida. E até hoje... quando estou a abastecer gasóleo ou gasolina (ou a meter a mangueira inflamada nalguma outra entrada) não consigo deixar de sorrir ao pensar num certo marinheiro bem dotado como um garanhão e de rememorar aquela maravilhosa noite de réveillon que juntos celebrámos.

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in «Boas Festas», páginas 89-99
Silkskin Editora, Dezembro 2015